70 anos de Mitos
por José Luís Andrade
A Guerra, como situação de excepção arrasta sempre ódios, ignomínias e horrores. Condição anormal, faz vir ao de cima o melhor e o pior do Homem. A Guerra Civil de Espanha (GCE) não foi excepção e em ambos os lados se cometeram atropelos e atitudes que envergonham não só quem os praticou mas toda a Humanidade. Ninguém está livre ou leve de culpa. Talvez por isso muitos hesitem ainda em falar e escrever sobre o assunto. Os que o fazem têm geralmente motivações políticas e ideológicas por detrás. Como depois da Segunda Guerra Mundial e com a abstrusa vitória de aliados intrinsecamente inimigos, verificou-se nas democracias do Ocidente a coexistência paradoxal e abjecta de partidos propugnantes da instalação de ditaduras de classe ao mesmo tempo que, em nome da própria democracia se proibiam, reprimiam ou ghettizavam todos os partidos e organizações que fossem considerados simpatizantes das ideologias derrotadas ou tão apenas marcados como tal pelos seus inimigos que haviam partilhado o carro triunfal da Vitória. Bastava para isso a simples menção ou crítica de anti-marxismo para que, de imediato, uma organização ou uma personalidade fosse marginalizada. Por isso quem se atrevesse a contestar a verdade ou verdades, divulgadas pelos simpatizantes históricos e ideológicos da Frente Popular que, graças à Segunda Guerra, se haviam ressarcido da derrota em Espanha, era desvalorizado e desconsiderado quando não apodado de fascista ou nazi. Houve, pois, alguma inibição em desmistificar as tais verdades aduzidas e só recentemente se começou de novo a abordar o tema numa perspectiva descomprometida.
A GCE, com todos os seus factos, mitos e paixões, representa não só um exemplo clássico e paradigmático do inculcamento de uma visão pré-concebida, deformadora da realidade, como também permite, por analogia, a análise comparativa de evoluções políticas de sociedades mais próximas de nós, no tempo e, até, no espaço. Sendo questionável considerá-la como prelúdio da Segunda Guerra Mundial, é, no entanto, indubitável reconhecer que ela se viu, de facto, envolvida no lúgubre turbilhão que agitou o globo no segundo quartel do século que agora finda. O estudo dos acontecimentos da GCE sofreu a deformação dos propagandistas filocomunistas sem qualquer oposição significativa. Os outros historiadores, nestes domínios, sempre pecaram por omissão. Por paulatina repetição(1), as mentiras e inverdades mitificaram-se e fossilizaram-se, sendo hoje, muitas delas, consideradas factos irrefutáveis, comodamente instalados no imaginário do mais insuspeito cidadão.
O quadro vulgar traçado sobre a GCE é a de que um bando de generais apoiado e instigado pelas oligarquias terratenentes e clericais se sublevou quando se lhes tornaram intoleráveis as iniciativas conducentes a uma maior justiça social, entretanto decretadas pelo governo da República, eleito legitimamente, unanimemente apoiado pelo Povo e enquadrado por todas as forças progressistas de Espanha, nomeadamente pelos intelectuais. Com a força militar do seu lado, os sublevados reprimiram cruelmente a população tendo executado mais de duas centenas de milhar de vítimas civis, por meras razões de natureza política. Por outro lado, o triunfo das forças imobilistas, reaccionárias e retrógradas, apenas foi possível com o maciço apoio estrangeiro, nomeadamente da Alemanha, Itália e Portugal que disponibilizaram homens e equipamento militar; foi isso que permitiu aos generais e às suas tropas, levantadas coercivamente e apoiadas por milícias mercenárias, subjugar o Povo espanhol.
A GCE é assim vulgarmente apresentada como um conflito de classes, uma guerra de ricos contra pobres, de proprietários contra assalariados, de latifundiários contra camponeses, de retrógrados contra progressistas, da fria força do aço contra o apaixonado idealismo romântico...
Mas se há que encontrar explicações para a GCE elas terão que ser procuradas no complexo tecido de divisões e contradições que Espanha encerra em si mesma. Cabeça de um Império fenecido, Espanha estrebuchava então na agitação turbulenta do reajustamento social, enevoada em nostalgia da grandeza passada e em ânsia de futuro. A urgente necessidade de reformas sociais surgia descompassada da pusilânime atitude das elites dirigentes. Pobreza e fome, anseios e violência, promessas e demagogia, desumanidade e euforia de um lado e surdez, sobranceria, inoperância e temor do outro, criaram um cacharolete explosivo que veio a rebentar da forma trágica e violenta que se costuma associar ao temperamento espanhol. A GCE quando eclodiu, em 36, foi tanto uma antecipação a uma iminente revolução política como uma resposta ao colapso das estruturas democráticas do Estado espanhol.
Sobretudo a partir da revolução iluminista, começou a palpitar uma progressiva e sincopada guerra surda nas sociedades eurocêntricas, incluindo os seus offspring coloniais, em que o objectivo central a atacar era o cristianismo instalado. Movendo-se na sombra, endeusando o Homem abstracto e a Razão, essas forças emergentes procuravam, por um lado, liquidar Deus, em nome do progresso e da liberdade de pensamento mas, por outro, substituir-se à Igreja na condução moral do Povo. Nessa luta de bastidores, tudo valia desde que fosse potencial compagnon de route: sociedades secretas, até mesmo outras religiões rivais, etc.. Hiperbolizando o mecanismo de atracção do grupo ou da nomenklatura, superior e privilegiada, desqualificavam e inferiorizavam os que se recusavam a aceitar a sua visão do Mundo. Na GCE, os partidos esquerdistas e esquerdizantes acometeram raivosamente, primeiro, os símbolos e, depois, os próprios religiosos, numa forma bárbara de esconjuro que afinal, apesar de mais de dois séculos de investida, não tem dado grande resultado.
Esgravatando na poeira da história contemporânea espanhola, é possível encontrar dois vectores de acção sócio-política quase estruturais e dialecticamente contraditórios. Um, de cima para baixo, academicamente teórico, aberto a ideias do exterior, paternalista e outro, em sentido oposto, entranhadamente espanhol, anárquico, recalcado, individualista, localista e insensatamente furioso. O entrelaçar de ambos dará origem a duas visões de Espanha que se convencionou designar por Formal e Real. Será o evoluir descompassado dessas duas Espanhas que culminará na GCE sem que o problema se tenha esgotado com ela. Essa é, infelizmente, uma dura realidade, ignorada quer pelos nostálgicos do franquismo (sejam eles os seus partidários ou os seus mais encarniçados opositores) quer os optimistas da Espanha europeia que a todo o custo e momento renegam passado, não enjeitando toda e qualquer oportunidade para o esconjurar.
O problema não é, provavelmente, exclusivamente espanhol; ele atravessa transversalmente a maioria das sociedades ocidentais, nomeadamente as da Europa latina e mediterrânica.
(1) Creio que se deve a Voltaire o elogio da mentira recorrente: Mentir, mentir, que da mentira alguma coisa ficará.
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