| Trapalhadas sul-americanas
por Marcos Pinho de Escobar
Dois problemas recentes e candentes têm ocupado os noticiários e conversas de café aqui nas paragens platenses. A guerra das papeleras – o conflito entre Argentina e Uruguay devido à instalação, neste último, de duas fábricas de pasta de papel; e a “estatização” dos hidrocarbonetos na Bolívia de Evo Morales, protégé de Castro, Chávez, Silva e Kirchner. Ambos assuntos ilustram sobremaneira como as designações pomposas, as cimeiras mediáticas e os anúncios grandiloquentes relativos a integrações regionais ou sub-continentais não correspondem à realidade confrangedora do subdesenvolvimento comportamental – a demagogia, a corrupção, a hipocrisisa, a permanente regra do primeiro-eu-e-os-outros-que-se-lixem.
A instalação das duas fábricas de papel (Botnia, finlandesa e Ence, espanhola) na margem uruguaia do rio que dá o nome a este país, representa um investimento de dois mil milhões de dólares e geração de dez mil postos de trabalho, entre directos e indirectos. Para o pequeno Uruguay, fortemente pauperizado após décadas de crise, escusado é dizer que a realização deste projecto é quase uma questão de sobrevivência.
Alegando que as duas papeleras provocarão absurdos níveis de poluição no rio comum, Kirchner, fiel à táctica de escolher inimigos imaginários para brincar ao Quijote, em vez de esgotar as possibilidades de dirimir o conflito pela vía diplomática, levando em conta a estreita ligação que une os dois países e os mecanismos que ambos estabeleceram para a solução de controvérsias (sobretudo dentro do arranjo pseudo-integrador Mercosul) resolver atacar de frente: permite que seja bloqueada a ponte que conecta Argentina e Uruguai durante semanas, refere-se ao presidente uruguaio – até então camarada ideológico – em termos indignos, actua junto ao Banco Mundial para que este suspenda o financiamento às obras, propõe aos operários uruguaios que trabalham no projecto pagar os seus ordenados desde que cruzem os braços e, finalmente, lidera pessoalmente uma orquestradíssima manifestação de repúdio à construção das fábricas, que teve lugar a metros país vizinho. A resposta uruguaia não tardou: recorrerá ao tribunal de Haia.
Ninguém em sã consciência pode descuidar da questão ambiental: os mais rigorosos estudos de impacto devem ser realizados e todas as medidades de prevenção devem ser tomadas. Se houver contaminação uruguaios e argentinos serão afectados por igual. A Argentina, se está em pleno direito de exigir garantias, já não está em posição de dar lições na matéria a quem quer que seja. Na sua própria capital, o rio Riachuelo, verdadeira cloaca a çéu aberto, apresenta níveis insuportáveis de contaminação, resultando em vergonhosos índices de mortalidade infantil, enfermidades e envenenamentos vários, sem que nenhuma providência tenha sido tomada. Estará Kirchner frustrado por a Argentina não ter sido o destino escolhido dos investimentos. Se tivesse sido, qual teria sido a sua reacção frente a críticas e comportamentos similares?
O facto é que o presidente uruguaio, eleito pela Frente Amplio, coligação de comunistas, socialistas e ex-terroristas tupamaros, aborrecido com o tratamento recebido pela vizinha Argentina e pelas bravatas malcriadas de Kirchner, resolveu não só defender com unhas e dentes o seu rico investimento mas também aproveitar a oportunidade para aproximar-se dos EUA e da sua política de acordos bi-laterais de livre-comércio. Tabaré Vasquez desferiu duríssimas – e justíssimas – críticas ao Mercosul, este teórico mercado comum armado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o qual, na verdade, serve um único propósito: fazer prosperar a indústria paulista – o Brasil apenas produz e exporta; os outros abdicam de produzir e limitam-se a importar (do Brasil, é claro). O presidente uruguaio, cuja candidatura foi efusivamente respaldada pelos camaradas Silva e Kirchner e cuja vitória foi aclamada como a revanche do socialismo “libertador”, parece agora mais inclinado a abandonar a companhia dos estarolas do eixo Havana-Caracas-Brasília-BuenosAires, que apenas traz prejuízos ao desenvolvimento real do país. Anunciou que vai buscar acordos de integração comercial com a América do Norte e a Europa, relegando a farsada do Mercosul a um distante segundo plano, à espera de completa reformulação ou “morte” definitiva.
Enquanto Argentina e Uruguai mantinham suas moedas em paridade com o dólar estado-unidense, os brasucas, muito malandros, desvalorizavam a sua pataca – por exemplo, oitenta por cento em apenas uma tarde... O resultado está à vista: os produtos brasileiros literalmente inundaram os mercados dos outros três “sócios”, os quais assistiram à própria desindustrialização. Para completar o quadro, uma invasão de capital brasileiro adquiriu grandes empresas argentinas (petróleos, aço, cimentos, banca, cervejas, etc.). Diga-se de passagem que argentinos e uruguaios não conseguem vender nem mesmo uns potezitos de dulce de leche em terras de Vera Cruz, fortaleza intransponível para produtos estrangeiros – mesmo na vigência de acordos comerciais.
Em relação à questão boliviana, o irónico é que a eleição de Evo Morales – que inaugura a era do etno-marxismo-cocaleiro – foi, desde há tempos, cuidadosamente preparada pelos governos brasileiro, venezuelano e cubano. A camaradagem ideológica era motivo de infinito júbilo e fantásticas esperanças. Admirador de Fidel Castro e Hugo Chávez o militante indígena augurava uma era de leite e mel. Dificilmente pode-se acreditar na espontaneidade das manifestações, greves, desordem e violência que levaram à queda – autêntico golpe de Estado levado a cabo pela “lei da rua” – de Sánchez de Losada, presidente boliviano e exitoso homme d’affair nos Estados Unidos, que havia regressado ao país para candidatar-se, com sucesso, com uma plataforma modernizadora. Os brasucas, sobretudo através da Petrobrás, a empresa de petróleos estatal e monopolista, já vinham dominando uma larga parcela da economia boliviana, através de um envolvimento de grandes proporções no sector gasífero, grande riqueza do país andino. Os negócios e negociatas do Estado brasileiro na Bolívia têm sido de tal magnitude que, para que se tenha a justa noção, basta dizer que sessenta por cento do consumo brasileiro de gás provêm deste país, sendo que na maior cidade, São Paulo, a participação do gás boliviano chega a oitenta por cento.
Tudo parecia avançar às mil maravilhas até que Morales anuncia a estatização dos hidrocarbonetos. A Petrobrás terá um imenso prejuízo, perderá o negócio do século e com a revisão dos contratos de fornecimento, o Brasil (e a Argentina) terá de pagar pelo gás boliviano consideravelmente mais do que pagou até ao momento. E Morales não poupa palavras para qualificar a estatal brasileira: “contrabandista” e “beneficiária de contratos ilegais”.
Indignados, os brasileiros esquecem-se que a sacrossanta e intocável Petrobrás, autêntico Estado dentro do Estado, também é um monopólio estatal e, apesar de democratas modelares, simplesmente ignoram a vontade do povo boliviano, rousseaunianamente “soberano”. Na verdade sentem-se defraudados, e com justa razão: investiram fortunas no “companheiro” Evo Morales, chegando mesmo a alçá-lo à presidência do país, e não é que o indivíduo dá-lhes uma grande volta? É o que ocorre quando quem não pode resolve brincar à potência imperial...
E justamente aqui surge um novo factor complicador: o Comandante Chávez e seus infinitos petrodólares. Convencido de que tinha assegurada a sua hegemonia regional, o Brasil não contava com a decidida intervenção venezuelana na Bolívia, com Caracas a instigar e garantir, moral e materialmente, a estatização dos recursos minerais, cujo impacto para os brasileiros é incalculável. Com a Argentina em pantanas após meio século de decadência, eis que surge a Venezuela chavista, herdeira espiritual da Cuba castrista e com recursos financeiros incalculáveis a disputar as veleidades imperialistas do Brasil. E tudo por detrás de uma fachada de unidade e amor fraternal.
O crescente número de acordos bi-laterais com os EUA, apesar das tentativas de sabotagem pelo Brasil e, em alguma medida, pela Argentina; os conflitos Argentina/Uruguai e Bolívia/Brasil; a aproximação de Uruguai e Paraguai aos EUA com o consequente afastamento do famigerado Mercosul; a intervenção venezuelana na Bolívia, numa clara queda-de-braço com o Brasil. Muito longe da tão apregoada unidade sul-americana, capitaneada pela esquerda e a enfrentar o imperialismo norte-americano, a verdade nua e crua é que a região está profundamente fragmentada, ninguém se entende, a maioria dos países prefere integrar-se com o mundo desenvolvido (leia-se América do Norte) e tudo indica que haverá uma séria disputa pelo poder regional. Muitas novidades e desdobramentos estão a caminho. É só aguardar. |