Ano I - edição de lançamento, Julho de 2006
Alameda Digital
Dossier Educação
Calcutá: Miséria Sorridente

por Joana Ludovice de Andrade


Milhares de pessoas continuam a seguir o exemplo da Madre Teresa de Calcutá. Saem das suas casas e dos seus países para entregar o seu esforço e tempo a outros. Calcutá é uma das cidades mais pobres do mundo e por isso a Irmã fez dela a base do seu trabalho. Os voluntários, dirigidos pelas Missionárias da Caridade, ajudam a diminuir a pobreza urbana duma cidade enorme. O aglomerado de casas por habitar, os doentes na rua, as crianças a pedir, o colorido das roupas e os sorrisos constantes de um povo pobre mas alegre, atrai jovens com vontade de fazer mais.

Uma das maiores cidades do mundo com 14 milhões de habitantes, Kolkata, antiga Calcutá, tem encarnado sucessivos papéis ao longo dos tempos. De remota aldeia nas margens do rio Hooghly, tornou-se posteriormente na capital do Império Britânico na Índia. É um local sobrepovoado e sujo mas não perdeu o seu carácter. A cidade está intimamente ligada ao nome de Madre Teresa. A morte e a devastação que viu durante a fome de 1943 e a Partição da Índia em 1947 levaram-na a abandonar o claustro e a dedicar a sua vida aos pobres. O exemplo de Madre Teresa, ou apenas Mãe como a chamam em Calcutá, inspirou milhares de pessoas a juntarem-se a ela no trabalho com quem mais sofre.

Cristãos, católicos e protestantes, budistas e até hindus, são ínumeras as religiões e as nacionalidades dos voluntários de Calcutá. Homens e mulheres, na sua maioria jovens, que dão, tempo, dedicação e dinheiro a leprosos, crianças, doentes, sem-abrigo e muitos mais. As Missionárias da Caridade, ordem fundada pela Madre Teresa, têm vários centros de acolhimento para todos aqueles que são excluidos pela sociedade. Os centros são dirigidos pelas Irmãs e são mantidos pelos voluntários. O mais conhecido é a Casa do Muribundo (Nirmal Hriday). Nas ruas da cidade é vulgar encontrar-se moribundos, que não têm outro lugar para terminar a sua agonia e exalar o seu último suspiro. Seres aos milhares, que nascem na rua, vivem nela, comem dela. Na rua apanham e passam doenças, e na rua morrem.

O voluntário, espontaneamente, carrega sobre si as necessidades dos outros, estimula e apresenta uma forma de solidariedade humana necessária aos nossos tempos. O trabalho nesta cidade abrange muitas tarefas como dar banho, vestir, alimentar, limpar e tratar feridas. Actividades aparentemente simples mas que exigem uma atenção constante, num país e numa língua diferentes.

Os voluntários têm esse obstáculo óbvio e recorrem aos gestos, mas isso não parece preocupar os enfermos e os pobres, reconfortados pela dedicação oferecida. A comunidade de leigos que colabora com as Missionárias da Caridade é uma realidade de grandes proporções não só na Índia como nas suas casas espalhadas por todo o mundo. A procura de voluntariado no estrangeiro, principalmente por jovens, tem aumentado cada vez mais. Os voluntários querem conhecer novas culturas, viver novas experiências ao mesmo tempo que ajudam quem mais precisa.

«Muito se escreveu e muito se filmou sobre esta cidade realmente única, mas por muito válidos que sejam estes testemunhos, dá vontade de acrescentar: em Calcutá, experimentar para crer. Os mais famosos escritores e os melhores repórteres nunca serão capazes de fazer reviver os perfumes e os fedores, os sons e os ruídos, bem como os cheiros de Calcutá. Quando se vê esta cidade uma vez, tranporta-se para a vida inteira, quer no corpo quer na alma... Calcutá, este inferno das mil contradições, onde milhares de seres, desde nascidos prematuros a velhos moribundos, se vêem rejeitados todos os dias pelo homem organizado» Mário Bertini.

 

Ser voluntário em Calcutá

Centros das Missionárias da Caridade:
Casa do Muribundo (Nirmal Hridaya): limpar e tratar feridas, dar banho, alimentar e ajudar na limpeza e desinfecção da casa.
Centro dos Sem-abrigo e Inválidos (Prem Daan): lavar e estender roupa, ajudar nas refeições, cuidar dos doentes.
Centro dos Orfãos (Shishu Bhavan): tudo o que implica cuidar de uma criança, algumas têm deficiências e por isso são precisos cuidados mais específicos.
Centro de ex-presidiárias (Shanti Daan): dar os remédios, ajudar a tomarem banho, alimentar, a maior parte têm atrasos e exigem atenção especial. É o centro mais pesado psicologicamente.
Dispensário (adequado a pessoas ligadas à área da saúde): prestar cuidados médicos
Ambulâncias das Irmãs (nem sempre é permitido aos voluntários acompanharem as Irmãs neste trabalho): distribuir alimentos, roupas e medicamentos nas ruas com maior pobreza, recolher as pessoas para os centros.

Todos os centros têm em comum a necessidade do mais simples dos trabalhos: simplesmente estar. A maior parte das vezes aquilo que mais precisam é de companhia, mesmo que seja silenciosa, há sempre a dificuldade da língua.

Horário (todos os dias excepto a quinta-feira)
06.00- Missa (opcional) na Casa Mãe (ponto de encontro dos voluntários)
07.00- Pequeno almoço dos voluntários na Casa Mãe
07.30- Partida dos voluntários para os respectivos centros (em transportes públicos)
08.00- Início do trabalho no centro
12.00- Fim do trabalho
14.00- Início do trabalho em alguns centros que abram à tarde
18.30- Adoração
Quinta-feira é o dia do voluntário, não se trabalha. Geralmente organizam-se visitas com os voluntários que quiserem participar a vários sítios como as leprosarias, nas imediações da cidade.

Informações úteis:
Os custos da viagem, estadia e alimentação são suportados por cada voluntário. Os preços são mais baixos por isso não fica muito caro. Existem vários sítios para dormir, com preços reduzidos, mas nem sempre são perto da Casa Mãe. Monika’s House é uma espécie de pensão que acolhe essencialmente voluntários o preço é de 300 Rúpias (1€ = 50 Rúpias) e fica na rua da Casa Mãe. A água da torneira não é potável, e é necessário confirmar se as garrafas de água mineral que se compra estão fechadas. Não são obrigatórias nenhumas vacinas mas os medicamentos para a malária são importantes.

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