A Encruzilhada da Universidade Europeia
por Jorge Azevedo Correia
A relação entre Academia e Pólis é complexa em todas as sociedades. A própria existência autónoma da Academia se deve, em grande medida, à existência desse conflito, através da morte de Sócrates às mãos do Poder Civil.
A Filosofia Política Clássica possui como elemento central da sua doutrina o aproximar dessas duas instituições, a ideia de que a Política não poderia ser legítima sem a Filosofia, a busca da Verdade. Desta relação provinha a sede de justiça que se prolongou no tempo e que é característica dos fenómenos políticos no Ocidente, em que Revoluções, Reformas e suas antíteses, comportam sempre uma conotação filosófica e um reflexo na estrutura da sociedade.
É neste sentido que, ao observarmos uma profunda alteração na estrutura da Universidade, devemos compreender o caminho que trilhamos. É possível assim mapear os eventos e escolhas e nos conduzirão a um destino, contribuindo assim para a aferição da desejabilidade, ou não, destas alterações.
A Universidade contemporânea apresenta um conjunto de alterações em relação à forma como se apresenta na sua concepção tradicional.
Ponto primordial no ensino universitário tradicional é a forma como este se estrutra face à theoria. Ao invés do que se passa nas nossas universidades actuais, a teoria é o ponto central do ensino universitário do passado. A Universidade actual demitiu-se do ponto central da sua actividade, a compreensão da realidade, para que tradicionalmente dirigia todas as suas forças. Observe-se a proliferação de matérias técnicas nas Universidades e a equiparação do Ensino Politécnico ao Ensino Universitário e ver-se-á que a pressão que se coloca no Ensino Superior é de carácter produtivo. A concepção da Universidade como de pendor essencialmente Técnico, tão ligada ao Marxismo e à concepção de Universidade estalinista (a Universidade como elemento de um processo produtivo, vocacionada para a criação da sociedade perfeita), parece ter triunfado onde menos se esperaria. A Universidade técnica rege-se sobretudo pelo critério da utilidade social. Os sucedâneos da universidade soviética revelam-se na nossa sociedade através da ideia de que a Universidade serve os intuitos da criação de emprego e da economia. A conclusão deste facto é a passagem de um ensino que lida com as questões do pensar, para uma momento em que o Ensino Superior lida com a prática. Só pensando os fenómenos das Artes, da Política, da Filosofia ou a Saúde, numa enquirição que remeta para o que é Bom, se torna possível a acção. O problema é evidente, mas parece mal resolvido nas nas nossas sociedades que, fruto do marxismo dos anos 70, continuam a crer que a técnica providenciará o melhor amanhã. Como exemplo ilustrativo dessa incapacidade da Técnica imaginemos um psicólogo que desempenha a sua acção sem possuír uma ideia do que é a saúde mental de um doente e poderemos compreender a extensão do problema da concepção tecnológica que se apodera da Universidade. É como ter um médico que conhece todas as acções e reacções do corpo-humano, tendo capacidade para as alterar a seu bel-prazer, mas que se encontra incapacitado de aferir o que é doença e o que é funcionamento natural do corpo que deveria tratar.
A incapacidade de uma acção coerente torna-se evidente!
Exemplo semelhante desta nova concepção de Universidade é a forma como esta pretende servir os indivíduos, ao não cumprir as suas funções. É o caso das Universidades que se regem por um sistema de quotas raciais, ou por seus sucedâneos encapotados, que se consubstanciam na atribuição de bolsas para indivíduos de origens étnicas minoritárias, mas que apresentam resultados académicos menores que os da etnia maioritária. Esta concepção, aparte de todas as considerações sobre a meritocracia e a filosofia da “inclusividade” que subjaz a estas medidas, conduz à perspectiva de que a Universidade tem um papel a cumprir que não se prende com a formação académica dos discentes, mas com uma experiência de engenharia social. A sociedade persiste, desta forma, na ideia de que a Universidade não cumpre senão uma função que lhe é destinada pelo Estado. As implicações deste facto são particularmente relevantes no que respeita ao futuro da ideia de Universidade e na forma como esta se encontra absolutamente subvertida, uma vez que a Educação, em particular a Educação Superior, não poderá ser nunca uma escola de conformidades sociais (por mais colorido e exótico que possa ser o panorama social). Isso representaria o fim da academia, o fim da ideia do espírito humano que se eleva acima do convencional (político, social, económico). Ao tornar a Universidade um subdepartamento da sociedade cerceia-se qualquer esperança na regeneração ou na melhoria da comunidade, uma vez que esta assume uma lógica replicadora de valores com o propósito de se eternizar. A Universidade de hoje não estuda com dúvida... apenas realiza com fé!
As alternativas a esta situação também não parecem lá muito luminosas.
Se temos desse lado uma Universidade Socializante, que tem como fito a prossecução de fins sociais, temos do outro lado a Universidade que prossegue fins e interesses privados. Este posicionamento não é exacto, uma vez que ambas as propostas de Universidade não são opostas! Elas são uma e a mesma proposta, de Universidade e de Sociedade, embora sob ópticas diferentes. O carácter lucrativo de uma universidade de finalidades privadas, resulta numa concepção de Universidade peculiar, em que a qualidade de um projecto educativo é aferida pela capacidade de gerar receitas. Tal tendência pode resultar na negação da essência própria de cada instituição. O exemplo dos colleges das universidades britânicas de maior prestígio patenteia bem a forma como esta concepção privatista do ideal universitário se desenvolve. Os colégios de menor dimensão reclamam constantemente que os alunos são um sorvedouro de dinheiro e que o melhor que teriam a fazer seria fechar as portas, passando a funcionar apenas com alunos externos (que se deslocam para palestras e conferências). Tudo isto resulta num sistema peculiar de financiamento dos pequenos pelos grandes colégios, mas, mais importante, resulta na renúncia de um projecto educativo concreto, em troca de uma estabilidade financeira que sacrifica as finalidades aos meios.
As tentações são grandes quando as universidades visam fins económicos. Rapidamente nos apercebemos que a avaliação não lhes está imune, nessa linha de raciocínio. Se observarmos as taxas de aprovação de algumas faculdades privadas não podemos deixar de indagar se estas não são mais o reflexo das necessidades de tesouraria das instituições que um espelho verdadeiro dos conhecimentos adquiridos pelos discentes. A existência de taxas suplementares para exames de “segunda época”, ou a não existência de um limite máximo de matrículas a uma determinada disciplina, são reveladoras de sistemas educativos, no mínimo, peculiares, que visam tudo menos qualidade. Não há uma linha condutora em ambas as posições e a sua contraditoriedade reforça a ideia de que o factor exógeno ao projecto educativo, a necessidade de captação de receitas, assume uma predominância que roça o desrespeito pela função que seria a sua principal preocupação.
É assim que não surge como uma surpresa a intromissão de empresas privadas na formação académica dos alunos. Uma Universidade que em vez de fornecer os elementos para a formação do enquadramento mental da realidade se preocupa com o preenchimento de uma função social ou com a competitividade no mercado de trabalho, resulta evidentemente na submissão do ensino a interesses privados. Não se estranha, por isso, a moda corrente de empresas privadas que leccionam cadeiras nas universidades, com o intuito de aproximar os alunos do mercado de trabalho. O que parece estranho é a forma como ninguém questiona esta relação incestuosa... Quando as empresas privadas comandam a ciência não há dúvida de que o erro ou a estagnação intelectual pode ser por eles induzida, de forma a proteger os seus interesses. Quer pela manutenção de uma tecnologia como mainstream do conhecimento técnico, evitando a disseminação de conhecimentos que conduzam à obsolescência das suas tecnologias, ou pela condução de programas académicos por parte de gente inabilitada para tal, quer pela limitação do modelo científico à funcionalidade de um serviço de horizontes limitados como são a obtenção de lucros que faz parte do núcleo estrutural de qualquer empresa. Quando a qualidade de um projecto académico é aferida pela capacidade de gerar receitas para a instituição e para os seus utilizadores...
De uma forma ou de outra o que se passa nas Universidades do mundo ocidental é um processo de proporções inimagináveis. Com o intuito de colocar a instituição ao serviço das populações, os seus propósitos fundamentais estão a ser sacrificados. Os resultados poderão ser catastróficos, caso o fenómeno não se inverta.
Para mais, o predomínio do elemento técnico não comporta uma reflexão que possibilite a compreensão melhor do mundo ou os seus significados mais profundos. A Técnica permite a recolecção de mais e mais elementos, de mais e mais recursos, mas, como no mito de Hércules, não é minimamente indicativo do que fazer com essa força e para que finalidades estas devem ser reconduzidas.
É esse o paradigma a que a Universidade contemporânea se submete e que será definidor da estrutura de sociedade em que viveremos nas próximas gerações.
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