Ano I - edição de lançamento, Julho de 2006
Alameda Digital
Dossier Educação
CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ALBION
Educação na Grã-Bretanha: uma decadência anunciada

por Rafael Castela Santos

A educação britânica, em tempos excelente, vem em queda livre de há 30 anos a esta parte. Várias razões terão contribuido para isso. Em primeiro lugar a eliminação progressiva das Grammar Schools, equivalentes aos Gymnasia alemães, onde se ministrava uma educação secundária de tipo clássico (latim, grego, história, inglês, matemáticas e física). Apesar de continuarem a existir, são menos de 10% os alunos que as frequentam.

No seu lugar e fundamentalmente pela mão do labour (não esqueçamos, um partido que assenta as suas raízes nas facções cromwellianas igualitárias dos levelers e dos diggers), introduziu-se o modelo já hoje praticamente institucionalizado das “comprehensive schools”. Neste tipo de escolas os alunos estudam matérias disparatadas e por certo carentes de bagagem clássica.

Todos os anos se sucedem na imprensa britânica comparações com os exames de acesso à universidade de há 20 ou 40 anos e a diferença é de pasmar. O dado inegável é que o nível de entrada na universidade baixou. E muito.

Ainda que o fracasso escolar não alcance o dos piores países da Europa ocidental em termos educativos (Espanha e Portugal), também não lhe fica muito à frente. Há, ainda assim, uma plêiade de alunos que abandonam os estudos sem que tenham completado os níveis mínimos de formação e que se concentram em certos bairros urbanos e suburbanos. Nestes há uma desmesurada proporção de pessoas a viver de benefícios estatais, o que em alguns casos afecta já cinco gerações consecutivas, visto que a gravidez adolescente é muito frequente em alguns destes locais. É aquilo a que em terras de Albion chamam “the gyro check generation”, em alusão ao cheque semanal da segurança social.

Junte-se a tudo isto a importação da péssima pedagogia do americano Dewey com a outcome based education, uma promiscuidade sexual entre os adolescentes britânicos (estimulada pela educação sexual obrigatória) que situa já a idade da primeira relação sexual abaixo dos 13 anos e a endémica falta de autoridade dos professores e teremos uma ideia de para onde se caminha no Reino Unido.

Se o produto que chega à Universidade britânica, que todavia e apesar de tudo continua a ser das melhores da Europa, não é muito bom, a Universidade acaba por ressentir-se. A partir dos anos 70 improvisaram-se muitas Universidades que antes eram Politécnicos. A educação britânica, que sempre pecou por elitista desde a época da Reforma anglicana – conforme analisaram autores clássicos como Cobbett -, tornou-se um pouco mais aberta, embora à custa da diminuição da qualidade. Em muitos destes sítios os níveis habituais em Oxford, Cambridge, University College de Londres ou Edimburgo – por exemplo – nunca se chegaram a atingir.

Cabe à Universidade britânica o privilégio de não ter padecido a infecção da ilustrada francesa, que com o seu sistema de aulas de magistério espartilhou o ensino. Apesar de tudo, nestas ilhas, o aluno é incentivado a aprender por si próprio, a ter que investigar, pensar e a raciocinar e não apenas a memorizar e a debitar apontamentos que em muitos casos são de duvidoso valor.

Fosse como fosse, a educação na Grã-Bretanha há já muitas décadas que desliza em plano inclinado.

Uma formação clássica, sobretudo baseada no Trivium e no Quadrivium, mantém-se insuperável. Mas, claro, gera cidadãos verdadeiramente formados, livres, com conhecimentos de disciplinas humanísticas, aqui chamadas “liberal arts”. Estes cidadãos são bastante menos manipuláveis do que o produto fragmentado e relativista gerado pela moderna Universidade e pelas Comprehensive Schools. Mas estes, certamente, interessam mais aos neotrabalhistas e também aos neoconservadores.

Mas será que existe alguma diferença substancial entre eles?

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