Ano I - edição de lançamento, Julho de 2006
Alameda Digital
Dossier Educação
A História e a Perenidade da Pátria

por Manuel Ferreira Patrício

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É um velho problema o da utilidade da História. Desde o tempo de Heródoto que se discute. Serve a História para alguma coisa?

Era eu adolescente quando pude ler o romance de Aldous Huxley Sem olhos em Gaza (Eyeless in Gazza). Romance muito filosofante, como era o estilo de Huxley. Eu gostava. A dado passo, vejo-me envolvido na discussão entre dois personagens do romance – que li há muitos anos ... e já não leio há muitos anos ..., pelo que não posso aqui dizer quais eram ... – sobre a utilidade da História. Se bem me lembro, como dizia Vitorino Nemésio, o próprio Huxley tomou a sua posição, que era a de que a História é completamente inútil. Li, fui tocado, concordei! Portador daquela verdade estridente, fui comunicá-la ao meu pai. Que reagiu mal; muito mal. Estava a ver que pagava algum preço físico pela minha nova convicção. Foi-me útil a reacção paterna. O meu pai sabia a História que tinha aprendido na escola primária. Que era alguma, naquele tempo. A sua reacção, genuína, fez-me pensar. Fui pensando ao longo de muitos anos. Acabei por discordar do Huxley e concordar com o meu pai. Aliás, poucos anos volvidos eu era professor do ensino primário e vi-me a ensinar História de Portugal às crianças. Consolidou-se-me nessa experiência a convicção, firme agora para o resto da vida, de que a História é útil e necessária.

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O desenvolvimento cultural geral e filosófico em particular também me conduziu a reflectir com alguma profundidade sobre a natureza, necessidade e utilidade da História.

Em primeiro lugar, aprendi – com Hegel e com Heidegger, principalmente – que devemos distinguir entre história e História. A história é propriamente o que acontece – com maior rigor,  o que aconteceu, mas tudo o que está a acontecer ... já aconteceu, sai instantaneamente do presente para o passado, verdadeiramente não está aqui, está a sair daqui. Por seu lado, a História é o conhecimento da história, a sua rememoração e compreensão.

Ora, como acaba de se tornar patente, não se pode compreender nada da realidade, não se pode estudar nada, sem a História, porque tudo o que é real e existe tem história, é história. Só três exemplos muito particulares: de Darwin para cá, a Biologia é História, porque a biologia é história; de Einstein para cá, a Física (e a Astrofísica ...) é História, porque o mundo físico é história. De Hegel e de Heidegger para cá, a Filosofia é História – em particular a Metafísica é História –, pois a onda milenar do filosofar é história.

Tudo, no fim de contas, é História, porque tudo é história. A própria História é História de história. Tudo é História e esta é História de história.

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O meu propósito é reflectir um pouco sobre um problema que considero importante: “a História e a perenidade da Pátria”.

Somos muito pouco rigorosos a falar, ou seja, a utilizar a língua, a começar pela nossa. Para falar da Pátria, ocorre-nos logo falar da Nação, do País, do Estado. Tudo conceitos diferentes.

Eu já defini assim Nação: é comunidade de nascidos, comunidade biológica de nascidos. O lugar não é decisivo. Os judeus existiram durante quase dois milénios sem território nacional. Todavia, lemos no Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva ( Editorial Confluência): “Nação é conjunto de cidadãos de um Estado, que vivem, portanto, no mesmo território, sujeitos a um governo comum e ligados por leis e interesses também comuns”.

País é a denominação de um sítio, um espaço, um território, um lugar. Neste sentido, direi “eu sou de Portugal”. Este de é um determinativo de lugar. Se eu disser “eu sou português”, isso não significa necessariamente que eu nasci e vivo no território, no espaço físico planetário, que tem o nome de Portugal. O de pode ainda designar uma comunidade humana; nesse caso, Portugal não designará apenas o sítio mas uma entidade humana colectiva, de natureza afectiva, psíquica, espiritual. O de aqui significa pertença: pertenço a Portugal, sou um dos elementos humanos dessa entidade, essa entidade é que me possui a mim – pelo afecto, pelo amor, pelo espírito, por uma longa história ... -, essa entidade é que é o meu verdadeiro senhorio.

Estado significa outra coisa, distinta de todas as outras de que estamos a falar. Exprime a organização política da Nação. A natureza dessa entidade é Poder. A comunidade fez emanar de si o Poder, que ganhou corpo no Estado. A comunidade nacional impôs esse Poder a si própria: reconhece-o e sujeita-se-lhe. A humanidade exterior de igual modo reconhece esse Poder e articula-se com ele no exercício comum e partilhado do poder. Porque há outros Estados. Segundo Hegel, a criação de um Estado é o acto pelo qual um povo acede à História. Acto transcendente e de significado transcendente, como se vê.

E a Pátria, o que é ? Não é fácil defini-la. Basta procurarmos a sua definição nos nossos melhores escritores. Procuremo-la em Pascoaes: “Uma Raça independente, sob o ponto de vista político, é uma Pátria” (Arte de Ser Português, Edições Roger Delraux, Lisboa, 1978, p. 21). Procuremo-la em Agostinho da Silva: “Pátria é o lugar em que se nasce” (Educação de Portugal, Lisboa, Ulmeiro, 1970, p. 19). Procuremo-la em Fernando Pessoa, que escreveu assim no Livro do Desassossego: “Minha Pátria é a Língua Portuguesa” (Lisboa, Ática, 1982, I vol., p. 17). Esta definição veio a tornar-se a coluna vertebral, em rigor a espinal-medula, do pensamento de Agostinho da Silva sobre a Pátria, o que transparece nestas suas palavras: “(...) considero português todo aquele que se exprime na nossa língua (...)” ( Agostinho da Silva – Lisboa, ICALP, p. 163). Exprimir quer dizer: falar, sentir e dizer o que sente, pensar e pôr em palavras o pensamento, desejar e verbalizar íntima e externamente o desejo, querer e levar desde as entranhas ao limite extremo da acção, naquela língua, a substância de fogo da decisão, ter a experiência mais alta e fascinante do divino, em tudo o que é dizível naquela língua e do que nela é já indizível tendo-a sempre como a referência, a marca, do limite. Exprimir-se nessa língua, falar nessa língua, não é nada do banal e superficial papaguear, palavrear, do suposto, quotidiano e tributável conhecer ou dominar uma língua. Daí que, no sentido pessoano do termo – e, evidentemente, agostiniano, ... – exprimir-se na Língua Portuguesa seja pertencer a uma mesma Comunidade do Espírito, onde residem e a que presidem os que a fundaram e melhor a serviram, os seus e nossos Pais, onde residimos nós, seja pertencer à mesma Pátria. A esta luz é que devemos ler as palavras retumbantes de Camões, que em tudo o que é   essencial a nós se  antecipou: “ Esta é a ditosa Pátria minha amada!” (Os Lusíadas)

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Regressemos à reflexão sobre a História e a história. À nossa. Temos a considerar a História (e a história) do País, da Nação, do Estado, nos seus vários aspectos. Há, por sobre tudo isso, a História (e a história) da Pátria, pois que também o Espírito é, na fundura da sua essência, história, nele pulsam o tempo e o evo, nele se articulam e compatibilizam, com-vivem, com-existem, com-são, o Tempo e a Eternidade. A meu ver , a expressão História-Pátria, que é normalmente entendida como História da Pátria, talvez mais profundamente signifique  Pátria-como-História, Pátria-no-seu-ser (h)(H)istória. Ora, é esta uma aprendizagem tão alta que me parece a mim que dela não se pode prescindir. Sob pena de nos nadificarmos enquanto Comunidade Espiritual, que é aliás o que está a acontecer(-nos).

O século XIX, que foi aquele em que Hegel criou a sua obra, não foi hegeliano. O sentido da (h)(H)istória, que tão fulgurantemente resplandece na filosofia do genial filósofo, vê-se dissolvido na construção marxista do materialismo histórico, que faz da história mero processo, de onde desaparece o rosto do homem concreto, singular, e das Comunidades Espirituais criadas pelo homem concreto, como é o caso da Pátria. A par da concepção marxista se desenvolveu a concepção positivista, outra forma de dissolução da (h)(H)istória, da sua redução a processo abstracto, impersonalizador, sintetizada na “lei dos três estados”.

O peso conjugado destas concepções caiu sobre o sistema educativo português nas últimas décadas, reduzindo pode dizer-se que a zero o espaço dedicado à História de Portugal. Esta é talvez a origem principal dos graves problemas de identidade que minam por dentro a nossa juventude; este é talvez o ovo do seu niilismo larvar. Os nossos jovens não sabem quem são, nem de onde vêm. Como poderão saber para onde vão, como poderão viver segundo uma ideia, um ideal, que colectivamente lhes aponte o sentido e direcção do futuro? Pugno por uma ideia elevada, aberta e generosa de Pátria. Vejo a pluralidade das Pátrias em harmonia e universal convergência com a Pátria Humana. Tudo em mim responde emocionalmente ao apelo de Pessoa e Agostinho da Silva: Nossa Pátria é a Língua Portuguesa. Proclamo, pois, nesta hora em que tanto se fala politicamente em melhorar a educação portuguesa, que a perenidade da Pátria Portuguesa exige uma política a sério da Língua Portuguesa e de promoção do ensino da História-Pátria (à escala lusófona, e bem inserida no Mundo, evidentemente!...).

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