Ano I - edição de lançamento, Julho de 2006
Alameda Digital
Dossier Educação
A Insegurança nas nossas Escolas

por J. Luís Andrade

Para a maioria das pessoas, o conceito de Segurança implica um ambiente estável e relativamente previsível no qual um indivíduo ou um grupo possa prosseguir os seus objectivos sem medo de distúrbios ou agressões. As Autoridades tendem a avaliar o nível de segurança pela análise dos dados obtidos através da participação efectiva dos incidentes. Mas, na realidade essa apreciação é enganadora já que, amiúde, por falta de confiança no sistema punitivo, as pessoas já nem se dão ao trabalho de apresentar queixa. A percepção do nível de Insegurança é muito mais importante para a correcção das eventuais vulnerabilidades que a artificial estatística das ocorrências ilegais registadas.

A actual Escola pública, para além da reconhecida inépcia do ponto de vista do Ensino, transformou-se num depósito de delinquentes, como bem lhe chama a Doutora Fátima Bonifácio. Já se banalizou a agressão a professores, a alunos e a funcionários, por parte de outros professores, de outros funcionários mas sobretudo por parte de jovens marginais e/ou das suas famílias. Insultados, coagidos e agredidos, na ausência das mais elementares medidas de segurança e sem poderem contar sequer com a solidariedade do próprio Ministério, a maioria dos professores mete baixa, deprime-se, desmotiva-se e assume, para sobreviver, o cinismo do politicamente correcto. Sob o síndrome da avestruz, demite-se do seu papel disciplinador e abdica, por temor, impotência ou laxismo, do seu legítimo poder coercivo.

O papel das forças encarregadas da prevenção e repressão do crime e da desordem encontra-se muitas vezes fragilizado pela falta de orientação e apoio da própria tutela. A credibilidade das polícias é extremamente vulnerável à ausência de solidariedade das altas esferas públicas muitas vezes formadas por gente que não se consegue libertar da matriz ideológica dos anos 60, normalmente assente num substrato que oscila entre o marxismo pacifista e o socialismo mata-frades. Além disso, a complexidade e inovação das novas ameaças e riscos, bem como a sensação de perigo ou, pelo menos, de desconforto crescem de dia para dia, como uma bola de neve, amplificadas, eventualmente, pela tónica alarmista que alguns meios de comunicação social dão ao assunto. É fundamental analisar e tentar perceber as razões profundas das percepções de medo e insegurança. É por demais evidente que o medo que os elementos de normalidade da Escola têm quer ele corresponda ou não à realidade dos factos, provoca uma alteração substancial nas suas actividades e formas de vida, com trágicas consequências para a coesão colectiva do grupo.

Assente nas premissas de uma pedagogia naïf, piegas e anti-natural, a Escola pública, paga com os nossos impostos, preocupa-se a retirar crucifixos, a censurar e impedir a Escola Cultural mas faz ouvidos de mercador à mais que provada falência do modelo de ensino. Quando os Estados Unidos abandonavam já a metodologia pedagógica que quase os levou à falência cognitiva, os habituais iluminados desta lusa terra, caudilhados por Roberto Carneiro, resolveram empreender a desmontagem do princípio hierárquico para o substituir pelo consensual, colocando os alunos, e até elementos do back-office, a participar na gestão da escola. Confundem-se os sujeitos de todo o processo, seres humanos em idade de formação e crescimento, com parceiros de decisão, para, porventura, mais facilmente justificar a fraqueza e demissão dos adultos.

Minada a Autoridade esvaiu-se a disciplina e dissolveu-se todo o tecido estruturante que enformava a Escola. Os próprios professores, a começar nos Conselhos Executivos ou seus substitutos, ou porque foram moldados na crença dos princípios falaciosos do Bom Selvagem, em que a culpa é sempre diluída na intrínseca maldade da sociedade ou porque acabaram por interiorizar um complexo de culpa, têm discursos e práticas contra toda e qualquer forma de exercício de autoridade. A impunidade, a pusilanimidade, a permissividade e a irresponsabilidade grassam. Castigar um aluno ou tão somente propor a sua integração numa escola mais apropriada ou preparada para o seu desajustamento pode ser motivo de desespero e inconsequência.

A marginalidade continua a aumentar, o ensino é cada vez mais ineficaz e todo o sistema nos parece um absurdo paradoxo de Zenão. Sente-se nele uma manifesta opressão intelectual, dominada por uma abstrusa convergência de esquerdismo sem fronteiras e liberalismo niilista. Há décadas que os senhores da Cultura e da Educação têm vindo a desenvolver políticas e acções de desmontagem e desagregação dos valores ditos tradicionais, considerados por eles inquinados pela Religião e entraves ao progresso. Prenhes de ignorante arrogância, os presumidos netos de Rousseau, filhos de Marx e sobrinhos de Freud que influenciam grande parte das decisões que nos governam, implementaram a sua visão utópica e falaciosa da nova sociedade sem cuidar de saber nem das consequências nem da precisão dos próprios conceitos.

Há que fazer algo rapidamente se queremos ainda inverter o plano inclinado em que tem vindo a escorregar o nosso sistema de ensino. Urge, por exemplo, retirar do controlo das forças ideológicas que manipulam o orwelliano Ministério a Federação das Associações de Pais, instrumento imprescindível para fomentar a mudança.

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