VISTO DE MADRID
Um basco muito espanhol
por JLLencastre
Dom Pedro de Churruca, basco, nascido em San Sebastián, marquês de Aycinena, embaixador reformado, a quem tenho o prazer e a honra de conhecer, decidiu escrever as suas memórias para repor a verdade de muitos factos e situações que ele considera incompletas ou incorrectas, bem como relatar as suas andanças pelo mundo enquanto diplomata contando-nos, também, alguns aspectos da sua vida particular.
Com apenas 18 anos de idade foi requeté voluntário durante a Guerra Civil no “Servicio de Enlances Motorizados de Frentes y Estados Mayores” que dependiam directamente do Quartel General de Franco. Esta unidade tinha uma característica única que era o facto de todo o equipamento, motocicleta incluída, serem custeados pelo próprio, excepto as primeiras vinte e cinco motocicletas e respectivo equipamento, que foram oferta da “Comunión Tradicionalista”. A unidade compunha-se de 250 motocicletas, mais 12 com “sidecar”.
“Aquello era como un regreso a la Edad Media, cuando los caballeros aportaban su corcel, sus armas y sus armaduras”.
Ao finalizar a guerra, no dia seguinte ao “Desfile de la Victoria”, escrevia o “Diario Vasco”:
“Las unidades motorizadas (Enlances Motorizados) han hecho un recorrido durante la campaña de seis millones de kilómetros, habiendo varias motos que han recorrido más de 200.000 Kilómetros, siendo cuatro mil el término medio de los Kilómetros recorridos cada mes, por unidad. (...) En sus heroicos servicios por la patria estos soldados sufrieron durante la guerra un 30 por 100 de bajas!”
Destacado em Roma, já como diplomata, às ordens de seu pai, à data embaixador de Espanha em Itália, este apresenta-o a Monsenhor Montini (futuro Paulo VI) a quem diz que seu filho havia sido requeté voluntário. Monsenhor faz um gesto de desagrado e muda de assunto. Numa das várias notas que o autor acrescentou ao meu exemplar pode ler-se o seguinte:
“El 10 de Julio de 1944, Monseñor Montini, “Sustituto” en la Secretaría de Estado del Vaticano, se reunió con Togliatti, Ministro Comunista del Gobierno Italiano (sin cartera) para intentar crear una alianza entre comunistas e demo-cristianos. Es dudoso que el Papa Pío XII conociera estas “maniobras” políticas de Montini, dado que, muy pocos anos después (1949) excomulgó a los comunistas y sus simpatizantes”
É sabido que este senhor, aquando da sua vinda a Fátima, não passou por Lisboa para não ter que se encontrar com Salazar. E que, durante o seu magistério, recebeu em audiência os terroristas do MPLA, se não me engano.
Quando é colocado na Embaixada de Espanha em Portugal, é embaixador Nicolás Franco, com quem mantém excelentes relações. Dele conta algumas “petites histoires“ como, por exemplo, esta:
Nicolás Franco era de uma impontualidade total coisa já de si grave, mais grave ainda no mundo dos diplomatas. Certa vez tinha audiência com Salazar e, chegando atrasado uma hora, desculpou-se – em espanhol porque nunca se deu ao trabalho de aprender português – com um furo no seu automóvel ao que Salazar lhe respondeu que, da próxima vez, lhe mandaria o seu que nunca furava.
Dom Pedro tinha um relacionamento assíduo com os condes de Barcelona e com a sua “corte” o que o leva a queixar-se de que no Estoril o consideravam “franquista” e em Madrid “juanista”. Diplomaticamente, sem no entanto abdicar das suas convicções, - monárquico e franquista - lá conseguiu ir gerindo a situação, durante os anos em que viveu em Portugal.
Aproveita o autor neste capítulo para declarar a sua admiração por Salazar e das tentativas que fez para conhecê-lo pessoalmente, coisa que nunca conseguiu, bem como o que lhe gostou Portugal e as suas gentes. “Los siete años que pasé en Portugal fueron de los mejores de mi vida”.
Em finais dos anos 70 é nomeado chefe de Protocolo da ONU, onde as suas relações com Kurt Waldheim não são as melhores. Este senhor, logo no primeiro encontro que têm, diz-lhe que sabe que tem vários títulos nobiliárquicos mas que ele tem proibido o seu uso na ONU. Em seguida informa-o que terá direito a um automóvel oficial que geralmente é utilizado por sua mulher! E, para terminar em beleza este primeiro encontro, informa-o que o regulamento da ONU o inibe de continuar a utilizar o passaporte diplomático. “!Qué panorama para un diplomático con treinta y un años de carrera a sus espaldas!” queixa-se o autor.
Só em 1980 lhe é dada a categoria de embaixador, – na Hungria - depois de vicissitudes e atropelos diversos a que foi sujeito e que relata com bastantes pormenores. Infelizmente, não ocupará o cargo por muito tempo quer pelo falecimento de sua mulher, quer pela sanha persecutória que os socialistas, à época no governo, lhe movem.
Terminará a sua carreira de diplomata como cônsul em Pau, onde assistirá à prisão de 3 polícias do “Grupo especial de operaciones”, juntamente com um inspector da Polícia
A mim quer-me parecer que seriam elementos do GAL, embora o autor não o diga.
Os outros capítulos do livro abordam a sua infância e as estadias, enquanto diplomata, na Argentina, no Perú, em Inglaterra bem como o trabalho realizado no Ministério em Madrid.
A revista “Razón Española”, no seu número 118 de Março/Abril de 2003, inclui um artigo, assinado por Mario Soria, referente ao livro.
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Pedro de Churruca
Marqués de Aycinena
De soldado a embajador (2ª edição)
Editora: Biblioteca Nueva
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