Ano I - edição de lançamento, Julho de 2006
Alameda Digital
Dossier Educação
Divagações acerca do livro de Nuno Crato “O eduquês em discurso directo – Uma crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista”

por José Lúcio

Um velho sapateiro da minha aldeia, confrontado com as agruras do seu casamento, costumava dizer filosoficamente: “nem todos são para casar, mas como todos casam eu também casei…”

Qualquer cidadão de bom senso concordaria com ele: nem todos são para tudo, nem tudo pode ser para todos.

De fora ficariam certamente os ideólogos do nosso sistema educativo, para quem esse pressuposto figura entre os axiomas de base, um dogma mais sagrado do que a Santíssima Trindade.

A falácia igualitária, a crença ingénua de que todos são para tudo, e a correspondente fé na universalidade e indiferenciação da oferta, o tudo para todos, determinaram as escolhas e orientações das políticas educativas desde há muitos anos.

Na raiz esteve o igualitarismo dos ideólogos. Porém, com o tempo, tropeçando nas dificuldades do real, os responsáveis não passaram a questionar os princípios: passaram a entender que se os homens são diferentes, contra o que deveria acontecer, compete à escola fazê-los iguais.

Estarão os leitores lembrados dos clamores à volta de um livrinho de Maria Filomena Mónica editado há uns anos, com o título “Filhos de Rousseau”.

Na altura suscitou algum alvoroço, e saíram mesmo a terreiro alguns ultrajados orgulhando-se da ascendência e reclamando desagravo (v. g. António M. Magalhães e Stephen R. Stoer, “Orgulhosamente Filhos de Rousseau”).

A mim pareceu-me significativo o alvoroço, até porque a obra não tinha preocupações de aprofundamento filosófico: no essencial, era um estudo sobre resultados, um exercício de comparação.

O que magoou os ideólogos foi a associação entre os resultados das comparações feitas (o “sucesso escolar”, sem manipulações administrativas)  e o impacto do título.

Igual polémica provocou também o “Manifesto para a Educação da República”, que em 2002 apareceu a agitar momentaneamente as mesmas águas estagnadas, perante a indiferença ou o repúdio do país oficial.

Olhando hoje para trás, parece-me mais importante constatar o silêncio e a indiferença em que as questões caíram logo a seguir; não porque tenham sido ultrapassadas (todos concordam que elas se mantêm, e são prementes) mas porque, receio bem, se passou de uma fase em que todos se interrogavam e ninguém sabia para uma fase em que todos sabem mas ninguém quer saber.

O que está tem muita força.

Na mesma linha contestatária e inconformista surgiu agora o livro de Nuno Crato “O eduquês em discurso directo – Uma crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista”, editado pela Gradiva e que tem constituído notável sucesso de vendas (sem que todavia tenha determinado o aparecimento de qualquer contestação pública, o que é significativo).

Os parágrafos que iniciam este texto não surgem obviamente em imediata relação com a obra de Nuno Crato, mas correspondem a uma tentativa mais distanciada e generalizante para compreender a problemática da educação em Portugal e mais vastamente no círculo civilizacional em que nos situamos.

Como acontece frequentemente, alcança-se uma melhor visão e uma perspectiva mais abrangente de uma dada realidade fazendo simplesmente um recuo no tempo, ou no espaço, ou na ordem das ideias.

No caso, o fundo das questões em debate está efectivamente nas fantasias filosóficas do primeiro romantismo. Daí os melindres que ressaltam nas hostes devotas quando são atingidos artigos de fé; as reacções acusam de imediato o sacrilégio, a heresia, como na episódica referência a Rousseau.

Como se vê, existe um plano em que a pedagogia oficial pode ser interrogada e surpreendida a partir dos seus fundamentos filosóficos, e outro plano em que a política de ensino pode ser questionada pela crítica dos seus métodos ou pelo debate das suas finalidades.

Os livros de Maria Filomena Mónica e de Nuno Crato, escritos com base em experiências pessoais, obras vinda de dentro, de quem está obrigado a viver no sistema, enquadram-se notoriamente entre os que reflectem sobre os métodos e os resultados, sem pretensões que os levem a longa digressão filosófica.

Ainda assim, não são dos que preferem esconder os problemas e escamotear o debate. O mérito deve ser-lhes reconhecido.

Nuno Crato é um professor de Matemática, e entende que deve ensinar Matemática – como seria suposto que acontecesse. A ressalva sobre o que seria suposto justifica-se, visto que, contra o que seria razoavelmente de supor, deparamo-nos com posições teóricas altamente consideradas em que o “desenvolvimento de competências” ou a “motivação dos alunos” substituem por inteiro a aquisição de conhecimentos, a prossecução de objectivos, a superação de metas, a assimilação de conteúdos.

O autor insurge-se contra a nebulosa ideológica que se instalou e oficializou entre nós, e nos governa todo o sistema educativo seguramente desde Veiga Simão.

Contesta-a apontando para os amargos frutos das experimentações contínuas em que se tem vivido desde há décadas, ousando, após começar por um diagnóstico da situação, interpelar os lugares comuns das doutrinas vigentes, atacando a pedagogia do laxismo e da irresponsabilidade, metendo a ridículo o jargão da casta, desmontando o “aprender a aprender”, o “ensino centrado no aluno”, a “aprendizagem em contexto”, e outra tralha discursiva que encobre tantas vezes o vazio.

Para terminar, duas curiosidades.

Em França, onde não são pequenas as afinidades com o caso português, um autor que Nuno Crato refere a dado passo, Laurent Lafforgue, por coincidência também professor de Matemática, tentou levar o debate notoriamente mais longe.

Também por lá a sociedade se queixa que o sistema educativo está notoriamente degradado, e que fornece sistematicamente à vida social pessoas que não sabem ler, nem escrever, nem contar, nem falar, nem escutar, nem lavar-se, nem respeitar um horário, nem admitir um conselho – ou que conjugam todos ou alguns desses predicados.

Já depois das polémicas surgidas a propósito das suas posições sobre o ensino da língua materna,  Laurent Lafforgue conduziu um colóquio subordinado ao tema “La finalité de l’école”.

Foi sobre as finalidades que foram concentradas as atenções. Eis as interrogações:
La première mission de l’école est-elle d’instruire ou d’éduquer?
“La nation fixe comme mission première à l'école de faire partager aux élèves les valeurs de la Republique”. (article 2) du projet de la loi Fillon 2004.
Les enfants vont-ils à l’école pour être éduqués? Est-ce cela que les parents attendent en premier lieu? Qui est alors chargé de les instruire? Comment et pourquoi tous les échecs scolaires trouvent-ils leur origine à l’école primaire? Quelles sont les conséquences tout au long du cursus, jusqu’aux niveaux les plus élevés de l’enseignement supérieur?

A segunda curiosidade retiro-a do programa do nosso actual governo. Escreveu-se neste a dado passo:

A escola de hoje defronta-se, entretanto, com um novo leque de desafios. Nas sociedades democráticas, abertas e complexas em que vivemos, pede-se legitimamente à escola que não se preocupe apenas com a transmissão de conhecimentos organizados em disciplinas. De um lado, há que centrar o trabalho pedagógico na aquisição de competências, que sustentem a aprendizagem ao longo de toda a vida. Do outro, há que promover a educação para os valores. Os princípios da escola inclusiva orientarão as políticas de educação especial. Será valorizada a educação intercultural e a integração dos filhos de imigrantes.

Estamos bem longe da aceitação simples de que a escola seja um lugar para ensinar e aprender.

Reconhece-se a langue de bois? A “aquisição de competências”, a “educação intercultural”, a despreocupação “com a transmissão de conhecimentos organizados em disciplinas”?

Pois é.  Não é  Nuno Crato que está a ganhar.

 

Nuno Crato
Ano de Edição: 2006
ISBN: 989-616-094-5

O ‘Eduquês’ em Discurso Directo
Uma crítica da pedagogia romântica e construtivista


Editora: Gradiva


 

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