Ano I - edição de lançamento, Julho de 2006
Alameda Digital
Dossier Educação
Proemio

por Carlos Bobone

Uma revista que se lança a disputar fatias da atenção dos cibernautas deve trazer consigo, logo à partida, a forte marca que a assinale como produto consumível ou rejeitável, de preferência um rótulo pronto a ser digerido sem esforço. Na falta de uma sigla autocolante que possamos afixar para comodidade e economia de tempo do leitor, aquilo que lhe pomos à disposição é um resumo dos pontos de vista com que tencionamos contribuir para a crítica da cultura contemporânea.

Se quisermos caracterizar a cultura do nosso tempo, encontraremos nas declarações das figuras públicas um indício dos valores propostos à admiração geral: a diversidade, a aceitação do outro, o são convívio entre diferentes tradições, o universalismo, o pacífico intercâmbio de experiências. Na boca de políticos, diplomatas e negociantes, tanta afabilidade, tanta abrangência, tão boa disposição, não são de admirar. Mas quando passamos a manifestações mais independentes da cultura – ciclos de conferências, cursos livres, teses ou ensaios, inquéritos sociológicos – e encontramos os mesmos temas, então já podemos acreditar que estamos na presença das grandes aspirações da época contemporânea. O período mais glosado da nossa história, o dos descobrimentos e da expansão ultramarina, é hoje glorificado enquanto momento de “contacto de culturas”, o que mostra como se encontra bem cotada a pacífica aceitação das diferenças, seja ela real ou idealizada. A simbiose entre as aspirações dos políticos e as dos intelectuais pode ser o feliz sinal da chegada a uma era superior da consciência universal ou o triste sintoma da submissão do pensamento a critérios de popularidade e correcção formal, muito impróprios de quem trabalha no domínio das ideias.

A adopção da postura de consensualidade não se pode fazer sem o sacrifício de boa parte das características que dão vida e cor a uma sociedade. E por isso temos à vista a contradição flagrante entre aquilo que se recomenda e aquilo que verdadeiramente se sente. 

Observando os movimentos culturais que o mundo contemporâneo se orgulha de ter gerado, encontramos um  comportamento bem pouco ortodoxo, segundo os cânones actuais. Aí contemplamos o espectáculo da afirmação de ideias, gostos e sensibilidades por meio do combate a tudo o que se lhes atravesse à frente. As grandes escolas de pensamento ou criação artística do nosso tempo, longe de se darem as mãos e seguirem o seu caminho numa idílica harmonia, opuseram-se, desprezaram-se, cobriram-se de escárnio, recusaram-se a reconhecer estatuto cultural aos seus semelhantes. Futuristas menosprezaram cubistas, neo-realistas olharam de alto surrealistas, existencialistas e positivistas lógicos excluíram-se mutuamente do campo da produção filosófica, enquanto as várias escolas da psicanálise se enredavam na complexa teia de dissidências, expulsões e rompimentos que acabam por constituir o essencial da história desta ciência.

Esta observação toca num ponto que a cultura contemporânea só com grande repugnância consegue encarar. Facilmente se reconhece que estamos na presença de um aspecto basilar do pensamento do nosso tempo que carece de séria revisão: o medo de reconhecer que não é fácil conciliar o diverso, que o problema não reside apenas na boa vontade, mas está na própria natureza das ideias. Daí decorre a recusa de enfrentar uma das condições essenciais do desenvolvimento das ideias, das crenças e da ciência: A natureza exclusiva de qualquer conclusão que o pensamento humano consiga alcançar. A aceitação de uns princípios implica a rejeição de outros. Não se pode perfilhar uma teoria sem se repudiar a oposta, não se pode aderir a um postulado ético sem se sentir repugnância pela sua violação, não se pode acreditar em duas afirmações contraditórias. É aqui que se encontra o grande obstáculo à fusão acrítica de todos os credos, sonhada por idealistas desejosos de tudo reduzirem à bondade ou maldade das intenções humanas..

Fugindo da mais corriqueira realidade, a cultura em que nos encontramos inseridos afirma-se pronta a acolher todas as crenças, mas para chegar a esse fim criou um novo figurino de crente, pelo qual exige que todos sejam formatados. Trata-se do crente que acomoda a sua fé aos tempos modernos, que vive uma fé dos nossos dias, mesmo quando esta lhe fala da grandeza da eternidade e da pequenez do presente. O objectivo ambicionado é o da construção de uma sociedade povoada de crenças várias mas inócuas, sem consequências profundas para os seus aderentes, sem incompatibilidades, convivendo num ameno caldo de cultos exteriores. É uma cultura mais apropriada para diplomatas do que para gente frontal, mas encontra bom acolhimento em todo o tipo de instituições onde se cruzem pessoas de origens variadas, pois assim se irá vivendo com tranquila indiferença pelo que vai no espírito de cada um.

Numa demonstração de zelo universalista, o governo português mandou espalhar pelas paredes de todo o país a mensagem suprema: “Defenda a diversidade. Imagine um mundo onde todos fossem iguais”. Dificilmente se poderia encontrar melhor prova de incompreensão do que é o fenómeno da diversidade cultural. Não se fomenta a diversidade por encomenda nem por recomendação superior. As sociedades que acolhem diferenças culturais fazem-no porque no seu seio se cruzam grupos de cidadãos convictos de que o seu modo de viver, pensar e agir é o mais puro e verdadeiro, e o dos outros o errado. Se estas pessoas aderissem à diversidade, perdendo a convicção que as identifica, deixariam de ser diferentes. Cultivar a diversidade pela diversidade é promover o folclore, as tradições meramente exteriores, sem a convicção que lhes dá vida. A aceitação de todas as diferenças culturais implicaria a anulação da personalidade do aceitante, que teria de se despojar de todos os valores morais para que nada chocasse ou ofendesse as suas convicções.

A sociedade da tolerância usa todos os meios para coagir os cidadãos a um moderado grau de adesão às múltiplas crenças disponíveis no mercado. Aquele que ultrapassa a esfera do culto ritual e tenta transpôr para a sua vida pública ou particular a inspiração da sua crença, depressa ascende ao estatuto de fanático, fundamentalista e intolerante.   
         

Não parece plausível que se possa continuar a viver por muito tempo acorrentado a tão flagrantes contradições. Uma cultura prudente, domesticada, obcecada com a preocupação de não ferir susceptibilidades e de não produzir senão textos que possam ser incluídos em tratados internacionais, será certamente substituída por outra em que se possa manifestar um genuíno e não medroso respeito pelas civilizações alheias, em que se possa afirmar aquilo que se aceita e se repudia no modo de viver dos outros.

As Trapalhadas da Educação - A Paixão transformada em Pesadelo
A Insegurança nas nossas escolas
A História e a Perenidade da Pátria
Divagações acerca do livro de Nuno Crato “O eduquês em discurso directo – Uma crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista”
Um ano a falar de Educação Sexual nas escolas portuguesas
Impacto económico das nossas insuficiências educativas
A Encruzilhada da Universidade Europeia
O totalitarismo laicista e a liberdade de aprender e ensinar

Uma Questão de Perspectiva: Portugal no limiar do Século XXI - Algumas notas sociais e políticas

Zhakar Israel!
Timor-Leste: Técnicas de Golpe de Estado
70 anos de Mitos
CPE - Consequências de uma derrota política em França
O tiranossáurio excelentíssimo

A Família está em Crise!
Inter-Rail

A Ribalta das Sombras
Reflexões sobre o Imagine

Valência: Papa defende a Família
Calcutá: Miséria Sorridente

Madrid
Grã-Bretanha
Buenos Aires

Proemio
Ecos da blogosfera
Capa

Ficha Técnica Publicidade Contactos Apoie-nos
Nacional Internacional Sociedade Cultura Religião Dossier Educação