| Reflexões sobre o Imagine
por J. Luís Andrade
Imagine there's no heaven,
It's easy if you try,
No hell below us,
Above us only sky,
Imagine all the people
living for today...
Imagine there's no countries,
It isn’t hard to do,
Nothing to kill or die for,
No religion too,
Imagine all the people
Living life in peace...
Imagine no possessions,
I wonder if you can,
No need for greed or hunger,
A brotherhood of men,
Imagine all the people
Sharing all the world...
You may say I'm a dreamer,
But I’m not the only one,
I hope some day you'll join us,And the world will live as one |
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Imagine que não existe nenhum paraíso,
É fácil se tentar.
Nenhum inferno sob nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo dia de hoje...
Imagine que não existe nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada por que matar ou por que morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...
Imagine nenhuma propriedade,
Eu pergunto-me se você consegue,
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.
Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não sou o único.
Espero que algum dia se junte a nós,
E o mundo viverá em uníssono. |
O poema Imagine de John Lennon apresenta uma proposta anarquista sobre uma matriz ideológica do tipo niilista. Falaciosamente, sugere como ideal desejável aquilo que na realidade não é mais do que um homem abstracto e irreal. A proposta de Lennon insere-se nas correntes de opinião, cujo desenvolvimento se acentuou a partir da Revolução Francesa. Com a queda do Antigo Regime e da nacionalização das monarquias, ao homem Eurocêntrico é-lhe então dito que já não é igual perante Deus mas também perante os outros homens. Tentam convencê-lo que de sujeito passaria a actor e de que, provavelmente, até já poderia dispensar Deus. Os mais radicais, os inspiradores de Lennon, substituíram Deus pelo Homem abstracto e adorador da razão. Hipocritamente, em nome da liberdade, tentaram por todas asa formas substituir-se à Igreja na condução moral dos povos mas afinal, apesar de mais de dois séculos de investida, não o têm conseguido. Ao considerarem o indivíduo isoladamente abstracto, fora das suas complexas relações de grupo, acabaram por condenar a Fraternidade. Citando Fernando Pessoa “ o anarquismo, ... todo esse lixo de teorias simpáticas, que se esquecem que teorizam para a humanidade de carne-e-osso, foram divinizações da mentira. E foram essa cousa a que Carlyle chama a pior espécie de mentira - a mentira que se julga verdade”. Se bem que saibamos hoje pela etologia, pela sociobiologia ou pela simples observação empírica da realidade que, de facto haverá sempre uns mais iguais que outros, não é menos verdade que a adesão colectiva à ficção do Imagine continua a empolgar algumas camadas da sociedade.
Se o resultado histórico mais recente veio demonstrar uma supremacia incontestável do capitalismo nas relações económicas intra e inter estados e o fracasso das tentativas para o substituir por outras formas de produção, ele trouxe também a afirmação persistente, da ideia nacional como comunidade fraterna, solidária e protectora. Não é pois surpresa que, quando no fim do século XX, a mundialização do capitalismo começou a ameaçar a soberania dos Estados-nação, a Nação tenha aparecido como um refúgio e o seu eventual desaparecimento seja percebido como uma terrível e desestabilizante ameaça para a coesão colectiva e para as condições de existência dos mais fracos. É essa pertença que dá ao indivíduo um outro estatuto que não o de simples produtor/consumidor ou utente de serviços.
Apesar dessa constatação, as elites políticas e culturais que nos dominam continuam a anunciar o fim das nações como uma necessidade para o desenvolvimento normal dos povos. É por exemplo o caso da Europa em que a exacerbação das interrogações sobre as identidades nacionais e a sua preservação no contexto actual está sem dúvida relacionada com a sugestão de que as novas formas de vida económica exigem a constituição de conjuntos mais vastos que os Estados-nação. O escondido mas real complexo de inferioridade de alguns europeus face ao EUA, bem como a generalizada crença materialista no progresso ilimitado favorecem a convicção de que é desejável a criação de espaços políticos meta nacionais. O ideal comunitário da União Europeia proclama insistentemente que o conceito de Nação é obsoleto e limitativo da tão desejada afirmação europeia. Mas a realidade é que a entidade supranacional, União Europeia, se pode ter transformado num espaço jurídico, económico, financeiro, policial, monetário, continua a faltar-lhe todo o património simbólico através do qual as nações, põem à disposição dos indivíduos uma memória e um interesse colectivos, uma fraternidade e uma protecção com provas dadas.
O voluntarismo, consciente e militante, que tem sido praticado nas elaborações identitárias, acaba por demonstrar que elas não decorrem espontaneamente de simples reorganizações de espaço político, cultural ou económico. Não engendram, ipso facto, um sentimento de identidade comum, entre os indivíduos que nelas participam ou que elas estão sujeitas. Criações como o Euro, por exemplo, não constituem em si mesmas, qualquer Ideal. No actual estado de coisas, os europeus parecem estar tão providos de identidades nacionais, quanto desprovidos de identidade europeia. Parece-me que a integração política se vislumbra como cada vez mais remota quedando-se a comunidade europeia como um conveniente espaço de inter-ajuda.
O tão celebrado Imagine, na sua aparência de candura, boa-vontade e filosofia barata, acaba por esconder uma insidiosa utopia cujas terríveis e desastrosas consequências a História já se encarregou violentamente de evidenciar. |