A ribalta das sombras
por J. Luís Andrade
Há muito que sobre a maioria das sociedades ocidentais se vem exercendo uma diáfana pressão intelectual, dominada por uma abstrusa convergência de esquerdismo sem fronteiras e liberalismo niilista. A super-estrutura cultural é hoje maioritariamente controlada por forças anacionais, ou mesmo anti-nacionais. Sobretudo após os anos 50, a construção sustentada de uma autêntica estratégia gramsciana permitiu-lhes constituírem-se em referência incontornável primeiro para, depois, assumirem um domínio alargado, quase hegemónico. Dominados pela intolerância do uniformismo igualitarista, os sectores que a controlam desde há muito que procuram cercear a nossa liberdade de informação (e formação). Impõem linhas de censura e comportamentos standard que, como temos constatado, só têm conduzido à mediocridade e ao desinteresse (e ao desgaste) de grande parte de nós. Paradigma disso mesmo é o actual panorama do Cinema e do Teatro português que, de subsídio em subsídio e de fiasco em fiasco, se vão arrastando por salas às moscas, numa atitude de despudorado autismo.
Persistentemente, os senhores da Cultura têm vindo a desenvolver políticas de desmontagem e desagregação dos valores tradicionais, considerados por eles inquinados pela Religião e entraves ao progresso. Prenhes de ignorante arrogância, esses presumidos netos de Rousseau, sobrinhos de Freud e filhos de Marx influenciam hoje grande parte das decisões que nos governam quer através dos areópagos que controlam quer pelo temor reverencial que inspiram nos seus adversários mais timoratos. Cheios de si, esquecem no entanto que não é possível aproveitar as potencialidades e recursos de uma sociedade, subalternizando os grupos que não estão no Poder e impondo-lhes critérios de hegemonia sem alternativa. A ausência de dialéctica estimulante e a consequente baixa entropia intelectual provoca a estagnação quando não o afundamento cultural. A condenação ao oblívio das camadas não alinhadas ou menos conformistas acaba sempre por conduzir ao monolitismo de pensamento e à ausência de estímulos culturais verdadeiros. Programas televisivos como o fenecido Acontece e o de uma tal Ana Dias são exemplificativos dessa realidade vesga e tacanha. A promoção da Kultur é efectivamente uma permanente feira de vaidades, onde só um bem delimitado conjunto tem entrada. Procurando aguentar-se em circuito fechado, tentam passar a ideia da maior abertura de espírito e tolerância não prescindindo de convidar, por vezes, um ou outro outsider,porventura mais sequioso de visibilidade pública ou de consideração social, como forma de iludir a imagem manifestamente restrita do círculo. Não é por acaso que nos media com mais impacto cultural os protagonistas são sempre os mesmos apenas rondando os papéis e as circunstâncias. As relações entre eles evoluem em espiral, aumentando o seu Poder potencial através da simples regra do coça as minhas costas que eu coçarei as tuas... |