Timor-Leste
Técnicas de golpe de Estado
por Abel Morais
Os acontecimentos em Díli traduzem uma clara situação de luta pelo poder, a que não é alheia a afirmação de interesses estrangeiros. Os acontecimentos na capital timorense vieram sublinhar, por outro lado, as fragilidades de um Estado que cumpriu quatro anos de existência e que se encontra entre os mais pobres do mundo, com 40% da população a viver no limiar da pobreza e um rendimento per capita inferior a 300 euros.
O que está em causa em Timor-Leste não é se este Estado tem ou não condições para ser viável, e se os seus dirigentes são capazes de ultrapassar divisões e não ceder à tentação de se transformarem em agentes de estratégias induzidos do exterior; o que se tornou hoje relevante é saber até que ponto interesses estrangeiros poderão condicionar ou determinar as orientações políticas e a acção governativa naquele país.
A dimensão da violência que principiou em finais de Abril indica que, desde o início, não estavam em causa reivindicações de ordem corporativa e social. O objectivo era o de paralisar o funcionamento das instituições, acentuar problemas reais e demonstrar a ineficácia do governo e das forças de segurança. O objectivo era, no fundo, forçar uma mudança de executivo e tornar evidente para o mundo que Timor-Leste é um “Estado frágil” – conceito empregue em documentos da política externa australiana para designar países em que Camberra protagonizou ou participou em intervenções militares (por exemplo, as Ilhas Salomão, o Afeganistão ou o Iraque) e que utiliza também para definir aquele território.
A crise política em Timor-Leste serviu para Camberra demonstrar a real possibilidade de se materializar um “arco de instabilidade” – conceito recorrente em declarações de dirigentes australianos e que define um cenário em que certos países ou regiões em torno da Austrália poderiam transformar-se em santuários de grupos terroristas ou plataformas de trânsito de droga e lavagem de dinheiro sujo; uma situação que poria em causa interesses de Camberra nessas áreas ou desestabilizar a própria Austrália.
Neste quadro, torna-se relevante citar um documento de política estratégica das forças armadas australianas, parcialmente divulgado em Maio por alguns media deste país, em que são delineadas de forma clara as intenções de Camberra em relação a Timor-Leste. A “Austrália deve prosseguir os seus objectivos estratégicos” no território, “nomeadamente negando o acesso e a influência” a interesses concorrentes. “O propósito de negar acesso e influência assenta no princípio de que nenhuma potência estrangeira deve possuir larga margem de manobra para se imiscuir em Timor-Leste, e deve ser colocado em paralelo com o propósito de a Austrália ter uma boa implantação em Timor-Leste, em particular das suas forças armadas. Os interesses estratégicos da Austrália poderão também ser assegurados se a Austrália conseguir ter algum grau de influência sobre o processo da tomada de decisões” em Timor. O documento, datado de 10 de Maio de 2001, indica que o objectivo final da actuação australiana deve ser o de garantir que actos ou palavras dos dirigentes timorenses nunca ponham em causa os interesses de Camberra. Nesta perspectiva, pode extrair-se a conclusão que o interesse em afastar Marí Alkatiri resulta do ex-primeiro-ministro timorense ser, eventualmente, um elemento ligado a estratégias concorrentes com as do governo australiano.
Afastar Alkatiri
O que se tornou evidente desde os primeiros momentos é que o objectivo central era o afastamento do primeiro-ministro, Marí Alkatiri, cuja demissão vinha sendo reivindicada por Ramos Horta e por outros sectores dentro e fora do partido no governo. Em finais de Maio, Ramos Horta multiplicou-se em declarações – a órgãos de comunicação estrangeiros, em especial australianos –, garantindo que o executivo de Alkatiri “praticamente não está a funcionar” e que “muitos” desejavam o afastamento do primeiro-ministro. Em paralelo, pretendia-se enfraquecer e dividir a Fretilin, intensificando a faccionalização e confrontando a sua liderança com movimentos de protesto político e social.
Alkatiri foi acusado de incompetência, nepotismo, corrupção e distanciamento perante os reais problemas dos timorenses. Surgiram também acusações de que o seu governo teria uma actuação repressiva e autoritária, tendo um relatório da organização Human Rights Watch, divulgado em Abril, indicado que o ministro do Interior, Rogério Lobato (um dos principais visados pela contestação), não teria controlo ou seria conivente com actuações menos claras da polícia; o relatório referia ainda o aumento dos casos de violência, tortura e violações. Ainda que não sendo peça da campanha contra o governo da Fretilin, o relatório da Human Rights Watch foi, pelo seu conteúdo, naturalmente aproveitado para aquele fim.
No final de Maio era evidente a fragilidade da posição de Alkatiri, mas também se tornava visível que a estratégia para o seu afastamento não correspondia apenas a uma exigência interna e que aquele, por outro lado, conseguia ainda manter alguma margem de manobra para sobreviver à frente do governo.
A vitória de Marí Alkatiri no congresso da Fretilin (19 a 21 de Maio) não escondeu o facto de, no rescaldo dos acontecimentos de Abril, várias vozes terem criticado o seu desempenho, invocando o modo como se comportou perante a contestação dos ex-militares. Essas críticas – vindas de dirigentes com ambições políticas e de militantes comuns – encontraram sempre grande eco nos meios de informação australianos. Estes, desde cedo, insistiram no cenário de que Timor-Leste estava em vias de se tornar um Estado falhado. Ao mesmo tempo, recuperavam o rótulo de marxista para o aplicar a Alkatiri numa manifesta campanha de intoxicação, escrevendo, por outro lado, em tom de inconfidência, que “Xanana queria forçar a demissão de Alkatiri”. Naturalmente vitorioso no congresso, este tinha de ser derrotado de outra forma.
Camberra podia agora argumentar com a existência de um “problema de governação” no território, dando a entender que a presença de um forte contingente australiano era a única forma de garantir alguma estabilidade e segurança em Timor-Leste.
Em Timor, insistia-se no argumento de que Alkatiri estaria “divorciado da realidade” e não seria o líder indicado para levar a Fretilin às eleições legislativas de 2007. Declarações críticas de Ramos Horta sobre o comportamento de Alkatiri ao longo da crise dão a entender que a votação favorável deste no congresso da Fretilin reforçavam, mais do que afastavam, a necessidade do chefe do governo ser afastado. Significativamente, neste ponto da crise, surgem vozes a defender a antecipação das legislativas de 2007, com a expectativa de que uma Fretilin desacreditada visse reduzida a sua expressão eleitoral ou que a facção de Alkatiri fosse neutralizada no interior do partido, abrindo caminho a uma direcção alinhada com prioridades diferentes das prosseguidas pelo então primeiro-ministro. Declarações de Ramos Horta indicando a sua disponibilidade “para voltar ao partido” não seriam, decerto, apenas expressão de altruísmo político...
Ramos Horta fora dos críticos mais duros, insinuando que Alkatiri obtivera o “apoio do seu ‘partido’, mas não do partido” e que os 97% de votos favoráveis no congresso “não reflectem necessariamente o sentimento do resto do país”. Horta tinha-se afirmado nos últimos tempos como próximo do principal adversário declarado do primeiro-ministro, o embaixador de Timor-Leste junto das Nações Unidas, José Luís Guterres. Este, segundo a imprensa australiana de 20 de Maio, teria convidado Ramos Horta para chefiar o governo, caso ganhasse a direcção da Fretilin no congresso. Guterres acabaria, contudo, por desistir da corrida à liderança. O que não foi possível obter num congresso e de forma mais ou menos institucional seria obtido nas ruas. O resultado acabou por ser o que os media australianos tinham antecipado: Ramos Horta chefia hoje o executivo de Timor-Leste. Este facto não é, contudo, o fim de um ciclo. Este só terminará quando os timorenses decidirem, de preferência por via eleitoral, quem desejam para governar o país: a Fretilin ou um outro partido, que exista já ou que se venha a constituir.
O cerco a Alkatiri começara com as manifestações de 24 de Abril, que tiveram o seu auge no dia 28, quando alguns milhares de pessoas saíram à rua em Díli, apoiando as reivindicações dos cerca de 600 ex-militares descontentes com a política de promoções nas forças armadas, num movimento de contestação que irá abranger os ministros da Defesa e do Interior, respectivamente Roque Rodrigues e Rogério Lobato. Prosseguiu depois com o agravar da violência, com pequenos pronunciamentos, como o do major Reinado, e com manobras de bastidores que levarão Alkatiri a dizer, no final de Maio, que estava “em curso um golpe de Estado”.
As manifestações dos militares descontentes (mais de um terço dos 1400 efectivos de Timor-Leste) terão funcionado como o elemento mais importante, numa primeira fase, para confrontar Alkatiri com um nível de contestação e violência destinadas a forçar a sua demissão. E se o não fizesse, o presidente Xanana Gusmão teria os argumentos para o fazer.
Foi por este caminho que Xanana enveredou, em Junho, recorrendo à chantagem com Alkatiri – ou este se demitia ou seria o presidente timorense a abandonar o cargo. Xanana forçava uma “contagem de espingardas” e de mobilização popular que, na presente conjuntura, o primeiro-ministro da Fretilin não podia ganhar. Ainda que Alkatiri tivesse optado pelo confronto, a “guarda pretoriana” das forças estrangeiras presente no território impediria qualquer desenlace que não fosse a concretização dos cálculos políticos de Xanana e dos seus aliados. Mas, se Xanana sai vitorioso nesta batalha, o mito que se foi gerando em torno da sua figura começa a abrir fendas, tornando-se claro que o actual presidente é parte interessada e interveniente nas várias equações políticas que se fazem e farão no futuro próximo no território, começando a desaparecer os aspectos quase míticos que se criaram à sua volta nas últimas décadas. Por outras palavras, Xanana deixou de ser um nome indiscutível para todos os timorenses.
O princípio da contestação
A contestação dos 600 militares - que começam a organizar-se ainda em 2005 - tem como origem a política discriminatória de que se consideravam alvo. Em Janeiro de 2006 apresentam um documento ao comandante das forças armadas, brigadeiro-general Taur Matan Ruak, em que pedem o fim daquelas discriminações.
Em finais de Fevereiro realizam uma concentração junto à presidência timorense. Pedem a intervenção de Xanana e a substituição das chefias militares, em especial de Matan Ruak e do seu adjunto, o coronel Lere Anan Timor – ambos próximos de Alkatiri –, que consideram responsáveis pela discriminação dos efectivos consoante a região de onde eram naturais. Segundo os ex-militares, eram favorecidos os naturais da região oriental da ilha em detrimento dos oriundos do enclave de Ocussi e do sector ocidental, mais próximo da Indonésia; este factor influenciava também a política de recrutamentos; por último, a ligação ou não à resistência durante a ocupação indonésia era um terceiro factor a provocar divisões entre os militares. O governo exigiu o seu regresso aos quartéis, o que não se verificou. Em consequência, acabaram por ser afastados das forças armadas em Março.
O governo tentou reduzir a dimensão dos protestos de Abril, tendo então o próprio Ramos Horta garantido que poucos dos 600 ex-militares participaram nas manifestações, sendo estas protagonizadas por grupos de jovens e elementos ligados aos partidos de oposição à Fretilin.
Mas a importância dos meios mobilizados não deixa dúvidas quanto à dimensão das manifestações e aos receios do que poderiam representar para os vários dirigentes políticos. Sabe-se, por exemplo, que, no dia 28 de Abril, Xanana e Alkatiri foram levados para local seguro para garantir que nada lhes sucederia. Mais tarde, já com as forças australianas no terreno, estas vão garantir a segurança de Xanana, de Ramos Horta e outros, mas não de Alkatiri nem dos dirigentes de relevo na Fretilin.
Os ex-militares aumentam, entretanto, o tom da contestação, exigindo um dos seus líderes, o tenente Gastão Salsinha, que as forças armadas sejam desarmadas por uma “comissão internacional que inclua elementos das Nações Unidas e timorenses” até que seja apurada a responsabilidade pelos acontecimentos em Díli. Salsinha queria ainda que os envolvidos fossem julgados “para decidir quem é culpado e quem é inocente”.
Em resultado dos confrontos de final de Abril terão morrido mais de 60 pessoas, segundo Salsinha, enquanto o governo admitirá apenas cinco mortos e 77 feridos, além da realização de mais de cem detenções. Outras estimativas, divulgadas por figuras da oposição, apontam para mais de uma centena de mortos.
Um comandante da polícia, o major Alfredo Reinado – que durante a crise abandonou Díli, estabelecendo-se numa localidade próxima, com cerca de 30 elementos da sua unidade, argumentando que era necessário proteger os refugiados naquela zona –, garantia, em várias declarações, que o governo mentia quanto ao número de vítimas. O total de mortos seria, na verdade, o referido pelos revoltosos e não o admitido nas declarações dos elementos do governo.
Alfredo Reinado vai revelar-se, em Maio, como um dos centros de oposição ao governo, envolvendo-se os elementos que o acompanhavam em vários confrontos com as forças que permaneceram leais a Matan Ruak. Reinado foi surgindo ao longo da crise como uma das figuras apoiadas pela Austrália, o que levará muitos neste país a considerarem-no um peão dos interesses de Camberra. O facto de a mulher de Reinado ser funcionária na embaixada dos Estados Unidos, em Díli, é também apontado como elemento a comprovar estranhas cumplicidades por trás das críticas do militar timorense ao executivo de Alkatiri.
O governo reconhecia, entretanto, a necessidade de reorganizar as forças armadas e mudar os procedimentos no interior destas, sendo nomeada uma comissão, com elementos dos órgãos políticos, Igreja Católica e organizações não-governamentais, para investigar as queixas dos 600 militares e propor soluções. Várias vozes em Díli sugerem que, mais do que uma reorganização, é indispensável uma total reformulação das forças armadas, da sua composição e uma redefinição das missões para que devem estar vocacionadas. Argumenta-se ainda que nunca fez sentido agregar os veteranos da resistência e os novos militares treinados pela Austrália e por Portugal.
Devido ao clima de insegurança, a maioria da população de Díli deixou a cidade, refugiando-se nos arredores, em instalações da Igreja Católica ou dirigindo-se para localidades onde tinham família. O êxodo acentuou-se, segundo testemunhas oculares, a partir do momento em que se constatou que os familiares dos agentes de segurança e das forças armadas estavam a deixar a capital. De acordo com as declarações de um elemento da ONU em Timor, dois terços da população de Díli abandonaram a cidade e o seu regresso processava-se de forma lenta, no final de Maio, atendendo aos surtos de violência que se faziam sentir na capital. Em finais de Junho, era referida a existência de mais de 145 mil deslocados em todo o território.
Esta situação de instabilidade vai determinar o envio de forças australianas e portuguesas, entre outras, para o território e o prolongamento da actual missão das Nações Unidas em Timor-Leste por mais um ano.
Novos e velhos problemas
O sucedido em Díli indicia que a realidade política e social timorense contém em si uma potencial bomba-relógio, resultante de condições internas e externas.
Além da fragilidade das instituições, há a somar a “dolarização” da economia, que transformou um dos países mais pobres do mundo num daqueles onde o custo de vida é também mais caro; e a discrepância entre o estilo de vida de muitos quadros estrangeiros (que estão a colmatar a ausência de pessoal timorense qualificado) e o da generalidade da população.
Tem sido dito por elementos ligadas às missões das Nações Unidas em Timor que a organização abandonou demasiado depressa a nova nação, deixando-a entregue às suas limitações e conflitos e não participando o suficiente processo de criação e consolidação do Estado e das estruturas sociais.
Talvez não fosse por acaso que, em 1998, Xanana pedia à Indonésia um período de transição de cinco a dez anos antes da organização do referendo para a independência.
Existe ainda uma evidente tensão política entre a Fretilin e vários sectores de uma sociedade onde 95% da população – para o total de um milhão de pessoas – é predominantemente católica, a que se somam velhas e novas tensões no interior do partido, aliadas às clivagens que subsistem entre quem fez a resistência e não a fez, quem permaneceu em Timor e quem esteve no estrangeiro.
A este quadro, juntam-se agora os representantes de estratégias exógenas, e não é de excluir que linhas de ruptura tradicionais na sociedade timorense não venham também a manifestar-se, não só nas tensões entre kaladis (ocidentais) e firakus (orientais), mas que antigas práticas de lealdade intervenham num conflito longe de terminado.
Hoje, como no tempo da presença portuguesa, o Estado continua a ser o principal empregador, não existindo muitas outras perspectivas de trabalho. Por outro lado, permanece por reconstruir parte da infra-estrutura do território destruída em 1999, antes da retirada indonésia, e os fundos provenientes da exploração do petróleo e do gás natural não fizeram ainda sentir os seus efeitos numa sociedade que permanece rural e orientada para uma economia de auto-subsistência. Uma sociedade onde tardam a surgir investimentos em áreas que possam motivar quem procura emprego – todos os anos chegam dez mil novas pessoas ao mercado de trabalho e Timor-Leste mantinha, no final de 2005, a taxa de natalidade mais elevada no mundo: 7,8 nascituros/mulher.
No plano externo, há interessados no fracasso de Timor-Leste, dispostos a políticas de desestabilização social e política. A Indonésia pode ser um desses actores, mas declarações e actos dos governantes australianos ao longo do tempo indicam que, nos cálculos de Camberra, um Timor-Leste viável não é a perspectiva mais do seu agrado. Ou melhor, a viabilidade de Timor-Leste é ou não aceitável para Camberra consoante a sua capacidade para influenciar os acontecimentos no território.
Na presente conjuntura, atendendo ao passado da Fretilin e ao modo como certos confrontos foram resolvidos no interior e fora de Timor, não é de excluir que, à medida que o combate político se intensifique, e apesar da presença de forças estrangeiras, não possam surgir situações de confronto aberto. Ou que problemas genuínos – como o caso dos ex-militares – não sejam utilizados para novas acções de desestabilização interna. E que persistam os ciclos crónicos de violência que têm marcado a história de Timor-Leste, com todas as consequências daí decorrentes.
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