Ano I - edição de lançamento, Julho de 2006
Alameda Digital
Dossier Educação
O totalitarismo laicista e a liberdade de aprender e ensinar

por Pedro Guedes da Silva

No mais das vezes disfarçada de jornalismo de causas, temos vindo a assistir um pouco por toda a Europa mas sobretudo na Península Ibérica a uma tremenda ofensiva laicista, que beneficia em larga escala das políticas de comunicação e show-off de Zapatero e Sócrates. Foi assim que assistimos à novela da anunciada retirada dos crucifixos das escolas e, não sendo bastante, do questionar da presença da figura do Capelão nos nossos hospitais. E cumprindo à risca uma tradição de pacatez cívica que – a meu ver - pouco abona em nosso favor, a tudo assistimos na paz dos anjos, sem esboçar alvoroço ou a mais mínima resistência.

Fazemos mal. E se o digo é porque faço por estar atento aos ventos que sopram de Espanha, que nisto do totalitarismo laicista é uma espécie de locomotiva que tempos depois arriba a Santa Apolónia. Atentemos nos exemplos mais recentes:

Pelas Espanhas, a “polémica dos crucifixos” nas escolas públicas chegou com toda a força à Andaluzia, mais propriamente ao Colegio de San Juan de la Cruz de Baeza (Jaén). Nessa escola, há sensivelmente dois anos tomada por militantes do PSOE e da Izquierda Unida, determinou a nomenklatura que todos os crucifixos ou demais símbolos religiosos fossem retirados. Antevendo o pouco acolhimento da medida, foram os pais convidados a assinar um documento solicitando aos responsáveis escolares a execução do que já antes havia sido determinado – e foi justamente aqui que os problemas começaram: a esmagadora maioria dos encarregados de educação não apenas se recusaram a assinar a missiva como se mostraram frontalmente contrários às alegadas virtudes da dita.

Apesar do fraco apoio recolhido, o facto é que o ano escolar de 2005/2006 arrancou sem que a simbologia religiosa pudesse prejudicar a aprendizagem da pequenada, perante os protestos da comunidade educativa – pais e professores. Restava à associação de pais solicitar que o cumprimento ou não da medida fosse objecto de votação no Conselho Escolar; democratas de toda uma vida, os responsáveis não autorizaram a sessão eleitoral.

A partir daí, sucederam-se os conflitos: aproximando-se o Natal, os pais dos alunos pediram que, conforme era tradição, se organizasse no âmbito das actividades complementares da escola pequenos “teatrinhos” representando um belén viviente y un belén de figuras. Nada feito, resposta que motivou um protesto de mães. Tiveram então que entrar ao barulho os pais dos pequenos, por certo possuidores de maior capacidade de argumentação perante D. Fernández Deblas – assim se chama o fundamentalista laico de serviço. Mas para que se tenha uma melhor noção do que realmente pretendem estes profissionais do laicismo, teríamos que aguardar pelo passado dia 10 de Maio, data em que os professores da referida escola organizaram uma visita à Igreja de San Andrés, actividade extra-curricular que foi… censurada. E assim tem sido, sem que se vislumbre um final feliz.

Como é evidente, estamos a falar de uma escola pública pelo que até poderíamos conceder que, à falta de bom-senso, esta censura fosse aceitável na medida em que alguém se sentisse ofendido. Podemos imaginar que na maior parte das ibéricas terras o choque de deparar com um crucifixo numa escola seja nulo, mas, ainda assim, podemos aceitar a premissa. O que já não podemos aceitar de modo algum – por manifestamente intolerável – é que se pretendam consagrar as mesmas dificuldades a instituições de ensino particular ou cooperativo. E nesse quadro, julgo ser útil recordar o que sucedeu recentemente em Pozuelo de Alarcón, arredores de Madrid, onde algumas centenas de “vecinos" se viram forçados a sair à rua em manifestação, reclamando o direito a educarem os seus filhos dentro dos princípios que entendem ser os mais apropriados para o efeito – ainda que esses princípios choquem com os mandamentos da laicidade desmiolada. Em causa estava um estabelecimento privado – o Colégio Monte Tabor - projecto educativo de orientação católica e que de tal modo se mostrava de interesse público que o Ayuntamiento entendeu justificar-se a atribuição de um terreno para edificar o colégio.

Ora, bastou isto para que os equivalentes espanhóis da República e Laicidade - com a ajuda do poderoso grupo PRISA – tenham deitado mãos a uma campanha visando a liberdade de educar de acordo com critérios que não os seus, recorrendo a expediente burocrático diverso junto de múltiplas instituições por forma a atrasar a construção das instalações. Alegavam os estimáveis senhores que o novo projecto educativo incorria num sem número de irregularidades, dos quais se destacavam (por certo pela sua perigosidade) dois, a saber: os estudantes estariam divididos por sexos; e, não menos grave, a entidade instituidora do colégio solicitava no acto de matrícula 1750 euros por aluno o que, para o fundamentalismo laico, "condiciona la admisión de los niños a que los padres den dinero a la fundación católica". Crimes hediondos!

Tudo isto para concluir o seguinte: se de algum modo se pode entender (e até aceitar) que a escola pública conviva mal com a simbologia fundacional da nossa civilização, é de todo intolerável que o Estado - ou, para piorar o cenário, grupos de pressão sem qualquer representatividade que não a jornalística ou a de associações de extrema-esquerda com boa aceitação nos media – pretenda intrometer-se nos métodos de ensino ou regimentos internos de escolas privadas (nas quais ninguém é obrigado a matricular-se…) desde que estas, como se afigura lógico, cumpram com as obrigações legais assumidas perante o Ministério da Educação e a comunidade, mesmo que ensinando por cartilhas que retirem da Tradição o que melhor possa servir a circunstância.

Ainda que poucos disso se tenham dado conta, estamos já num novo estádio do campo de batalha. E nesse quadro, mais do que insistir numa guerra que só muito dificilmente poderia ser ganha por falta de tropas activas e disponíveis, importará hoje, sobretudo, defender sem tréguas a liberdade de manter e criar alternativas à escola pública e às loucuras da Avenida Cinco de Outubro. A bem dos nossos filhos e das gerações vindouras.

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