Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
11 de Setembro – declínio do modelo ocidental?

por Abel Morais

O 11 de Setembro assinala o momento em que o Ocidente deixou de ser temido, apesar de toda a sua capacidade de projecção do poder militar, de influência política, capacidade económica e domínio cultural. A sua concepção do mundo é o alvo e o seu modelo de sociedade deixou de ser uma referência. As suas instituições políticas, a afluência económica, o seu modo de vida deixaram de ser objecto de emulação e padrão universal. Se os EUA constituem o principal alvo deve-se à sua dimensão geopolítica, à sua tentação hegemónica e, no que respeita ao mundo árabe, ao seu alinhamento incondicional com o Estado de Israel e à estratégia de, através de eleições ou pela intervenção armada, procurarem influenciar alguns dos regimes e o equilíbrio de forças no Médio Oriente. O seu “imperialismo dos valores” deixou de ser incontestável.

  1. A vitória do Ocidente sobre a ideologia e os regimes comunistas gerou uma atmosfera de optimismo e de autoconfiança que fez esquecer todos os conflitos e assimetrias que persistiam após o crepúsculo dos Estados do “socialismo real”. O optimismo que acreditava estar-se perante o “fim da História” ignorou o facto de os interesses nacionais, as tensões regionais, o reequacionamento das alianças e novos factores ideológicos se manifestarem na realidade política internacional. A ideia de consenso e a de progresso constante nas relações internacionais não iria encontrar concretização.

  2. O declínio do comunismo não representou a vitória do modelo ocidental nem a irresistível atracção pelas suas referências. Pelo contrário, expôs as suas fraquezas. E demonstrou a actualidade e a força de atracção do Islão. Em especial de um Islão que aspira a transformar o mundo e que entende serem nefastas as influências ocidentais presentes na sua esfera de influência. Algumas das principais manifestações de um Islão radical revelam-se contra regimes ocidentalizados ou agressivamente ateus. O Islão não é único nem uniforme – há diferenças entre o modo como um norte-africano, um iraniano, um paquistanês ou um malaio vivem o Islão, como este está também atravessado por cisões, escolas de pensamento e interpretação, cismas e antagonismos – mas é um traço unificador em sociedades “onde se privilegia o clã e a família”: o mundo árabe “não é uma identidade forte e harmoniosa” (Tahar Ben Jalloun), mas o Islão serve como elemento de identidade – é a fé e a prática da religião que lhe conferem unidade. Este Islão radical é apenas a face agressiva de um movimento de contestação e distanciamento em todo o Islão face ao Ocidente.

  3. O Islão radical procura um regresso às raízes, contesta a “parcelização do dar–al-islâm em Estados-nações concorrentes e pretende o regresso à Comunidade mais vasta que permitirá realizar as condições de aplicação da sharia.” É este Islão radical – distinto das suas derivas extremas, como o salafismo e a retórica escatológica de Ben Laden – que vai abrir frentes de combate contra regimes árabes secularizados, moldados por um discurso de socialismo de Estado (Argélia, Egipto, Tunísia), e contra regimes que define como corruptos e incompetentes, ainda que revestidos de uma imagem islâmica (Arábia Saudita, por exemplo). O secularismo e o nacionalismo árabe são os adversários deste Islão. Estes são combatidos pela mobilização da opinião pública árabe, que vai expressar as suas críticas e reivindicações políticas através de instrumentos religiosos – a prática de actos de fé, o modo como se veste, como se comporta enquanto indivíduo, como actua em sociedade e as regras que moldam essa actuação. A figura do “crente” é central na estratégia de ataque às sociedades árabes desprovidas de religião. E o discurso político, conjugado com o discurso religioso, até ao momento, tem produzido resultados – veja-se a progressão do Hamas na Palestina como um dos mais relevantes casos de sucesso.

  4. A mobilização e crescimento deste Islão radical resultam da incompetência dos regimes árabes e do fracasso dos projectos nacionalistas e socialistas. Estes foram regimes que não acompanharam as transformações sociais nem souberam responder à transição de sociedades rurais e tradicionais, na sua organização interna, para sociedades modernas. Esta é a chave para o controlo total da sociedade, com o argumento de garantir a sua coesão e identidade. No plano ético, os programas sociais e o discurso que os acompanha de protecção das comunidades e de apoio às famílias confere-lhes uma superioridade e um grau de identificação significativo nessas comunidades onde a sua presença se faz sentir. A um Estado inoperante ou corrupto vai sobrepor-se um Islão radical que interage fortemente com a sociedade, providenciando o discurso de uma nova legitimidade, de um novo projecto de sociedade, e, no plano prático, os serviços públicos necessários à colectividade. A sua relação é directa com o indivíduo e as entidades básicas da sua socialização: a vila ou a escola e – mais importante – a Universidade em meio urbano, onde um jovem pode sentir-se desenraizado, sem propósito ou perspectivas numa sociedade em crise. E nas sociedades árabes, a balança demográfica tende para o lado da população jovem, o que significa um vasto universo de recrutamento. Estão criadas as condições para um “sistema social completo que abrange todos aqueles que aceitaram o Islão”, a comunidade dos crentes, a umma, considerada o alvo de todos os ataques do Ocidente. E que exige uma mobilização sem fronteiras para enfrentar esse risco. Veja-se o sucedido na guerra da Bósnia (1993-1995), quando se formaram verdadeiras brigadas internacionais para lutar ao lado dos chamados muçulmanos bósnios, etnicamente eslavos.

  5. A elaboração de um novo discurso, a falência do modelo de Estado laico e socialista – importado do Ocidente – e a falta de perspectivas quer nos países de origem quer nos países de acolhimento, funcionam a favor da legitimação dos críticos dos regimes árabes e do modelo ocidental. Desta realidade emerge um Islão fortaleza cultural – homogéneo e absoluto – que se sobrepõe ao relativismo cultural e ético do Ocidente. O que, no Ocidente, é visto como um acréscimo civilizacional mede-se no Islão radical como factor de declínio. Tudo o que é ocidental é menosprezado, criticado e repudiado. Só as aquisições técnicas e o investimento tecnológico são preservados, mas não o argumento doutrinário que lhe serve de suporte: o conceito de progresso na definição iluminista. Por outras palavras, é incorporado o conceito de sociedade da informação, de revolução tecnológica, alguns instrumentos económicos, mas aquilo que hoje caracteriza as atitudes sociais que moldam o comportamento e referências quotidianas é totalmente recusado. Neste sentido, o Islão radical é pré-moderno. No restante, demonstra entender muito bem as características da modernidade.

  6. A unidade da comunidade de crentes não é real. A disputa genealógica em torno da sucessão do Profeta e o conflito entre xiitas e sunitas é disso prova, sendo que “a unidade da comunidade muçulmana foi, ao longo dos séculos, percorrida por aquele debate dinástico ao ponto de o vocábulo empregue ainda hoje para significar ‘Estado’ em árabe traduzir melhor a ideia de genealogia, dinastia, al-dawla, do que o Staat hegeliano.” Outros factores traçam divisões e antagonismos no Islão, em especial em aspectos de doutrina, mas na actual conjuntura nota-se um esforço para apresentar a comunidade dos crentes como algo dotado de identidade própria e uniforme. Face ao Ocidente.

  7. O Islão radical e a sua deriva terrorista desprezam o Ocidente, o que legitima a actuação violenta. Por factores civilizacionais e pela natureza dos actuais conflitos militares. O que torna irresistível o recurso à violência e o justifica em si mesmo. É certo que a supremacia do arsenal ocidental possibilita vitórias expressivas e rápidas – ainda que o custo de uma ocupação continue a ser pago pela indispensável infantaria –, mas não preclude o cenário de conflitos assimétricos: onde o recurso a agentes químicos, biológicos ou a detonação de bombas incendiárias em meios de transporte colectivo à hora de ponta ou a metamorfose de um avião, com centenas de inocentes a bordo, num míssil táctico, ganham um novo significado. No período da Guerra Fria, como tem sido sublinhado, a lógica da destruição mútua, a possibilidade de guerras por procuração, as doutrinas de dissuasão e o princípio da coexistência pacífica evitaram o choque directo entre os dois blocos ideológicos. Actualmente, o objectivo do Islão radical é o choque total, contínuo e final com o Ocidente até à sua irradiação. Um objectivo que se pode prosseguir com actos terroristas, como o 11 de Setembro, nos EUA, ou o 11 de Março, em Espanha, ou o 7 de Julho, na Grã-Bretanha ou, mais tarde ou mais cedo, em conflitos mais próximos de um cenário de guerra convencional ou de guerrilhas.

  8. A tecnologia não é um obstáculo. Mísseis rudimentares podem ser melhorados para constituírem um factor de intimidação suficiente, como sucedeu no conflito entre Israel e as milícias do Hezbollah libanês, mais barato do que qualquer arma de última geração. Os acontecimentos na fronteira israelo-libanesa sugerem que, a prazo, algumas das situações hoje caracterizadas como de clara hegemonia podem sofrer modificações que afectem o equilíbrio de forças em vários pontos do globo. Vive-se um período que os analistas militares caracterizam como o da democratização dos meios de destruição; há a possibilidade de conflitos assimétricos deixarem de sê-lo a prazo, com consequências imprevisíveis ou indesejáveis. É possível imaginar novas formas de dissuasão e de coexistência, como é também plausível o cenário de novas guerras de longa duração, com custos políticos, materiais e humanos elevados. Pode chegar o dia em que as forças não convencionais sentirão estarem em condições e com os meios necessários para um confronto directo com as forças convencionais, tecnologicamente sofisticadas ou não.

  9. Os media fazem parte das guerras do presente e são um veículo de propaganda essencial. Os meios de informação são hoje um instrumento de combate. Ocupam o espaço da batalha e esta deixou de estar circunscrita e reservada aos seus intervenientes. Um dos primeiros e mais significativos exemplos desta intrusão foi a Guerra do Vietname, em que os media americanos transformam em vitória a completa derrota do Vietcong na ofensiva de Tet, criando uma tensão insuperável entre a Casa Branca e a opinião pública americana, que levou à retirada dos efectivos do terreno e a uma derrota político-estratégica dos EUA. Hoje, uma acção terrorista pode seguir-se quase em directo e conhecer-se no imediato os seus efeitos. Isto foi claramente entendido pelos grupos terroristas que utilizaram a Internet para divulgar as suas acções – em especial as de forte recorte bárbaro, como execuções de reféns. Prática hoje afastada devido aos efeitos contrários que estariam a verificar-se, mas persistem as mensagens audiovisuais e áudio dos dirigentes da Al-Qaeda, aperfeiçoando uma prática comum entre os pregadores islâmicos desde a década de 60 para a disseminação dos seus sermãos, usada com grande eficácia pelo ayatollah Khomeiny no combate ao regime do Xá.

  10. As batalhas não se travam apenas na frente de combate, em conflitos assimétricos ou na esfera da agitação e propaganda. O espaço da tecnologia é concebido como meio de acção e alvo. Esta é uma época em que o acesso à tecnologia torna vulnerável a própria tecnologia presente nos equipamentos militares e na rede de infra-estruturas em que assenta o quotidiano nas sociedades pós-industriais, tornando-as vulneráveis. Deixaram de existir alvos civis ou militares, alvos prioritários e secundários, alvos lógicos e alvos protegidos – a sociedade e tudo o que a constitui é o alvo; não há frente de batalha e retaguarda; no espaço e no tempo formou-se um contínuo conflitual.

  11. O Ocidente tem a tecnologia, mas está a perder a alma e as suas referências civilizacionais; a tecnologia, sem alma, não passa de um agregado frio de materiais. O Islão não domina ainda toda a tecnologia, mas preserva as suas referências civilizacionais e não perdeu a alma. O conflito não é entre civilizações – é entre civilização e anti-civilização.

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(1) L’Islamisme Radical, Bruno Etienne, Ed. Hachette, Paris, 1987; cf. Islamic Fundamentalism, cap. 1, Dilip Hiro, Ed. Paladin, Londres, 1988
(2) L’Islamisme Radical, Bruno Etienne, Ed. Hachette, Paris, 1987
(3) Islamic Fundamentalism, Dilip Hiro, Ed. Paladin, Londres, 1988
(4) Islamic Fundamentalism, Dilip Hiro, Ed. Paladin, Londres, 1987
(5) The Death of Deterrence, Gabriel Kolko,  em http://www.atimes.com  <consultado a 31 de Agosto 2006>
(6) The Iranian Labyrinth, Dilip Hiro, Ed. Nation Books, Nova Iorque, 2005

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