Sin novedad en el Alcázar, mi general
A Epopeia de Toledo
por José Luís Andrade
A 27 de Setembro passado, comemoraram-se 70 anos sobre a libertação do Alcácer de Toledo depois de um trágico e épico cerco de inumana resistência. Coincidência ou não o Instituto Cervantes, órgão da representação diplomática espanhola em Portugal resolveu fazer-se instrumento de uma iniciativa ibérica partidária. Com uma procaz desfaçatez apresenta como promotores de uma intitulada exposição A guerra civil espanhola e os correspondentes de guerra, as insuspeitas Fundações Pablo Iglésias e Mário Soares, ferramentas do jacobinismo socialista, apostadas descaradamente em re-escrever a História. Conhecendo o que se passa em Espanha e por cá, sobre a liberdade de expressão e a última Guerra Civil de Espanha, já nada espanta. Mas se o silêncio da oposição persiste, resultado provável do seu intrínseco desprezo pela Cultura e do seu acossado complexo político esquerdizante, isso ainda mais nos obriga a que a indignação e o amor pela Verdade nos leve a afirmá-la. Gostaría de falar do Mito da dita chacina de Badajoz mas a efeméride fez-me abordar outro dos episódios mais marcantes, do ponto de vista político e humano, da Guerra Civil Espanhola.
Foi em Toledo, com o Alcázar praticamente à vista, que morreu o português Joaquim Sousa Oliveira, sargento do Tercio e comandante do destacamento que protagonizou a primeira acção militar da GCE . Às primeiras horas da tarde do dia 17 de Julho de 1936, uma secção de guardias de Asalto e alguns polícias, chefiados pelo Tenente Zaro, dos Serviços de Informação e Segurança, procedeu a uma busca nas instalações da Comissão Geográfica de Limites, por ordem do delegado do Governo em Melilha. Aí se encontravam reunidos os Tenentes- coronéis Bartomeu, Seguí, Gazapo, Zanón, Medrano, dois capitães da Guardia Civil, vários tenentes e alguns falangistas. Um dos tenentes, o legionário, Júlio de la Torre, perante o aparecimento de Zaro, conseguiu escapulir-se sorrateiramente e, por telefone, ligar para o mais próximo quartel da Legião, solicitando ajuda. Pouco depois chegou o Sargento Oliveira que, com os seus homens, e incentivado por La Torre, facilmente dominou as forças do Governo as quais, sem perceberem muito bem o que se passava, resolveram aderir à rebelião ali, de imediato, declarada.
Contrariamente ao que é hábito pensar-se, com base nas notícias propaladas durante a Guerra, quando do Levantamento, os cadetes da Escola Militar de Toledo encontravam-se de férias, com excepção de 8. No entanto, persistindo no equívoco, as poesias laudatórias dedicadas à gesta do Alcázar designam amiúde os defensores por Cadetes, quase por antonomásia.
As primeiras forças a manifestarem-se pelos revoltosos foram os cerca de 600 guardias civiles da região que aceitaram cumprir a ordem de concentração dada pelo seu comandante, o Tenente-coronel Romero Bassart e que, juntamente com alguns oficiais em estágio na fábrica de armas próxima, se colocaram sob as ordens do Coronel José Moscardó Stuart, circunstancial Governador Militar e Director da Escola Central de Ginástica do Exército. Este, após uma tentativa de resistir entrincheirado no perímetro exterior da cidade, resolveu mandar recolher toda a tropa fiel (e alguns reféns que preventivamente detivera ) ao abrigo da fortaleza do Alcázar e dos edifícios adjacentes onde já se encontravam centena e meia de soldados da Academia de Infantaria, Cavalaria e Intendência e recrutas das equipes de ginástica. Com o avolumar da reacção dos apoiantes da Frente Popular, alimentada por uma inesgotável torrente de milicianos vindos de Madrid, quer as famílias dos revoltosos quer os seus mais notórios simpatizantes civis procuraram igualmente refúgio no velho Alcázar, dando origem a um total de cerca de 2 000 pessoas incluindo homens, mulheres e crianças. A resistência heróica daquelas gentes, nos meses que se seguiram até ao seu resgate em 27 de Setembro, foi seguida por todo o mundo, à medida que o Governo de Madrid se assanhava cada vez mais contra o Alcázar e as colunas de Yagüe, posteriormente substituído por Varela, marchavam sobre Toledo, numa luta contra o tempo.
A Frente Popular desde bem cedo havia percebido a necessidade imperiosa de tomar as instalações onde os sublevados se haviam entrincheirado, em Toledo. A presença do exército de África no Vale do Tejo é considerada uma ameaça directa a Madrid. O experimentado General Riquelme foi então encarregado de estabelecer uma linha de defesa que impedisse o avanço dos revoltosos. Mas, perante a sua incapacidade de dar corpo eficaz às múltiplas forças militares e milicianas fiéis a Madrid, Riquelme foi rapidamente substituído pelo Coronel Salafranca. Este, tirando partido dos seus bons contactos em Madrid, conseguiu receber de imediato reforços de vulto, incluindo numerosa artilharia e carros blindados e uma mítica e glorificada Columna Fantasma (comandada pelo Capitão Uribarri, da Guardia Civil) que se havia, no entanto, mostrado incapaz de ocupar Guadalupe, onde o povo, reunido à volta do presidente do Município (socialista) e do Capitão Gómez Cantos, da Guardia Civil, se entrincheirara no burgo para defender o Santuário. O próprio Riquelme havia estado no cerco a Guadalupe mas com o aproximar de um pequeno destacamento de socorro (seguido de uma coluna) resolvera voltar para a segurança do seu Comando.
Com uma manobra brilhante, Yagüe conquistou Talavera, destroçando as forças que impediam o acesso a Madrid pelo Sudoeste. O caminho parecia estar livre, como reconheceu o chefe miliciano Líster. Perante tamanho desaire, o governo de Giral caiu e este foi substituído por Largo Caballero que, acumulando a pasta da Guerra, demitiu Salafranca e nomeou para o seu lugar o Coronel José Asensio Torrado. Mas Madrid ignorava que, ponderando vários contornos do enquadramento do conflito que não apenas os estritamente militares, Franco já havia decidido, mesmo antes da queda de Talavera, abrir a tenaz que se fechava sobre Madrid. Evidenciava assim a mesma linha de pensamento que o levaria pouco depois a recusar a chefia conjunta das Forças Armadas e do Estado, a não ser que fosse riscada a condição que impunha como limite de validade da nomeação o período de duração da guerra; Franco dava mostras de entender que a acção militar era apenas um instrumento e um vector de uma estratégia mais abrangente e duradoura.
Com a gesta do Alcázar a dominar a actualidade informativa espanhola e internacional, o Comandante Supremo do exército do sector, Asensio Torrado deixou o Tenente-coronel Burillo a comandar o dispositivo governamental da frente de Talavera para se lançar ele mesmo no ataque ao Alcázar que, como já dissemos, se estava a tornar num verdadeiro pesadelo para o governo de Madrid, símbolo da sua impotência e, ao revés, da heroicidade dos sublevados. A 9 de Setembro, aquele que viria a ser o homem chave na defesa governamental de Madrid, o Major Vicente Rojo, consegue estabelecer uma curta trégua para se entrevistar com Moscardó no Alcázar, para o instar a render-se, a solicitação da Junta de Defesa de Toledo. Cumpridas as formalidades, Rojo ao despedir-se do seu amigo e camarada de promoção, o Capitão Emílio Alamán Ortega que o convidava a juntar-se aos sitiados, retorquiu-lhe:
Não devo nem quero faltar à minha palavra. Quanto mais não seja, tenho a minha família em Madrid. A sua segurança depende do que eu faça. A minha sorte está lançada. Mas resistide sem vacilar. Sois os melhores e ganhareis. Adeus. Viva Espanha!
Entretanto, Yagüe, mesmo em inferioridade numérica, mas com melhor espírito combativo, decide atacar as linhas frentepopulistas e, em dois passos, conquista Maqueda. Asensio Torrado regressa precipitadamente ao seu comando e envia o derrotado Burillo para Toledo com instruções para tomar o bastião rebelde a qualquer preço.
Perante a iminente chegada das tropas de Franco, as forças de Madrid em torno de Toledo dividiram-se em duas: uma deveria impedir a progressão das colunas que eventualmente avançariam sobre a cidade, a outra, dentro da cidade, teria de tentar, a qualquer custo, tomar a Fortaleza. Estas tropas, constituídas essencialmente por comunistas, incentivados pelo enviado especial de Stalin, Mikhail Koltsov, ficaram sob o comando do Tenente-coronel Burillo. Rebentaram minas , bombardearam desesperadamente (inclusive com Cloroactofenona) os sitiados com aviões e artilharia, chegando a regar à mangueira as ruínas da Academia com milhares de litros de gasolina para os queimar vivos , três horas antes das tropas do Major Mohamed Ben Mizzian entrarem na cidade. Tudo tentaram para destruir aquele símbolo da revolta, desde a coacção mais canalha como a exercida sobre Moscardó com a ameaça de assassínio do filho Luis até à utilização de um sacerdote colaboracionista para os desmoralizar e convencer a entregarem-se. A outra força, que se propusera cortar o passo à coluna de socorro aos sublevados, foi totalmente desbaratada pelas tropas de Varela que atravessaram o Guadarrama sem dificuldades. Toledo havia-se efectivamente transformado num pesadelo para a Frente Popular.
Quando às 7 da tarde do dia 27 de Setembro, a secção de Regulares do Tenente Lahuerta Ciordia transpôs os muros do Alcázar, logo seguida pela V Bandera da Legião, às ordens do Capitão Tiede, os gritos de Viva España! podiam ouvir-se até em Nova York. Com efeito, a epopeia representada por este episódio da revolta foi determinante no conquistar das simpatias internacionais para a causa dos sublevados pela mediatização, alimentada, paradoxalmente, pelo próprio governo da Frente Popular que numa desastrada gestão do caso, por várias vezes anunciou a capitulação dos sitiados. A maioria dos católicos e não-esquerdistas da Europa e da América acabou por identificar como sua a causa dos sitiados de Toledo. Para Franco, responsável pela decisão de mudar o rumo das colunas de África, a epopeia de Toledo foi a sua consagração definitiva, conveniente trampolim para a sua afirmação como leader incontestado dos sublevados.
É digna de nota a anedótica condenação à morte, precedida de julgamento à revelia, do Coronel Moscardó por rebelião, desumanidade e instintos perversos; não se esqueceram de lhe aplicar, igualmente, uma multa de um milhão de pesetas por haver arruinado um edifício, património do Estado espanhol!
Quando questionado se sentia sinceramente que tudo estava Sin novedad en el Alcázar, a celebérrima frase que dirigira ao General Varela, no dia seguinte ao da libertação, Moscardó afirmou:
Assim o creio e assim o cri então. O Alcázar e eu não fizemos mais que cumprir o nosso dever. Para a fortaleza e para o soldado, a artilharia, que só deixou pedra sobre pedra, era de somenos; as insónias, a fome, a sugidade, as minas e o filho cujo sacrifício foi inevitável… O Alcázar foi para mim e para todos os que se colocaram voluntariamente sob o meu comando, a ocasião única de dar a vida pela nossa honra e pela de Espanha. Uma vez no Alcázar só isto importava e aquele que voltasse atrás teria que considerar-se cobarde e traidor.
Sim, ao terminar o assédio, a Honra estava intacta, e não restam dúvidas de que podia dizer-se com toda a propriedade Sin novedad en el Alcázar.
Uma gesta histórica ímpar , o episódio da resistência do Alcázar de Toledo foi mote de inúmeras obras literárias. E se a resistência ao assédio militar da Frente Popular foi factualmente conseguida, não é menos verdade que a insistência no assédio histórico, por parte dos herdeiros daquela amálgama esquerdista continua, numa despudorada tentativa de re-escreverem a História.
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(1) Em jeito de curiosidade e simbolismo, acrescentemos que foi igualmente um legionário português, o sargento João Correia, o primeiro combatente insurrecto a entrar em Badajoz, à frente de um destacamento do Tercio. [voltar]
(2) É de realçar que Moscardó, mesmo quando confrontado, a 23 de Julho, com a execução do seu filho Luis, que fora o ignóbil instrumento da chantagem com que o chefe das milícias da Frente Popular em Toledo, Candido Cabello, o pretendera forçar a entregar o Alcázar, nunca exerceu qualquer represália sobre estes detidos. Luis Moscardo seria assassinado um mês mais tarde junto à Sinagoga do Transito, juntamente com cerca de setenta detidos, como represália por um bombardeamento efectuado, pasme-se, pela própria aviação governamental que errara o alvo e acertara na rua de Zocodover. [voltar]
(3) O Comandante da Academia de Infantaria, Cavalaria e Intendência e, por inerência, o Governador militar da cidade era, na altura, o Coronel José Abeilhé que se encontrava ausente, tendo o 2º comandante, o Tenente-Coronel Antonio Valencia, assumido as funções. Por antiguidade, Moscardó assumiu o cargo que, em circunstâncias normais, pertenceria a Abeilhé. [voltar]
(4) Segundo Alfredo Martínez Leal que em El asedio del Alcázar de Toledo dá a lista nominal, eram cerca de 1.100 elementos das forças militares e de Segurança Pública, incluindo 664 guardias civiles e 24 das forças de Asalto, Seguridad y Vigilancia, 45 professores e alunos da Escola de Ginástica, 146 comandantes e oficiais (alguns aposentados) e 8 cadetes da Academia Militar que se encontrava desactivada, pelas férias do Verão e cerca de 660 civis, incluindo 108 que seriam militarizados, 4 Irmãs da Caridade, enfermeiras, e a sua madre superior Josefa, o Governador Civil, Manuel González López, que apesar de pertencer à esquerda republicana preferiu refugiar-se com a sua família e, como reféns, cerca de uma dúzia de militantes de partidos de extrema-esquerda. [voltar]
(5) A coluna dita Fantasma, oriunda de Valência e comandada pelo Cap. Manuel Uribarri Barutell, era constituída por cerca de 2.600 homens, a maioria dos quais do Exército regular e, como tal, enquadrada por oficiais e sargentos profissionais em batalhões e companhias. Apenas uma escassa minoria era composta de milicianos. Na tentativa frustrada de ocupação de Guadalupe, lugarejo pequeno mas de grande relevância histórica e religiosa, foi ainda assim reforçada com elementos do destacamento de Orencio Labrador. [voltar]
(6) Uma das acções mais brutais do assédio foi o rebentamento de uma mina escavada por debaixo do Alcázar , com uma carga colocada de 5 toneladas de TNT. Miraculosamente apenas causou a morte de cinco pessoas, tendo os sobreviventes rechaçado com sucesso o ataque subsequente de quatro batalhões de guardias de asalto e milicianos, comandados pelo major Barceló. [voltar]
(7) O pintor Luís Quintanilla, fanático militante da causa frentepopulista e autor de um livro intitulado Los rehenes del Alcázar (Os reféns do Alcazar), nem por um momento pensou neles quando propôs ao Cor. Alvarez Coque, juntamente com o comandante Salvador Sediles (antigo cap. de Artilharia e ex-deputado, comandante do grupo de milicianos intitulado Aguilas de la Libertad) e o cap. de Artilharia Salinas Garcia, que se lançassem gases asfixiantes sobre a fortaleza. Para o efeito, apresentaram-lhe dois cidadãos franceses, de nomes, Dorien e Duran, representantes de uma indústria de gases de guerra. [voltar]
(8) Captando uma declaração radiofónica da militante comunista Margarida Nelken incitando as forças do governo a tomar o Alcazar, os jornalistas do Rádio Club Português aperceberam-se de que, afinal, ao contrário do que o Governo de Madrid dizia, aquele reduto não havia sido conquistado. Radiodifundiram então a notícia o que levou Franco, provavelmente, a inclinar-se ainda mais para Toledo na sua marcha para Madrid. De igual forma, difundiram as notícias dessa resolução as quais foram captadas pelos defensores do Alcazar. A gaffe da comunista contribuiu sem sombra de dúvida para aumentar a esperança de salvação dos resistentes. [voltar]
(9) Na realidade, a defesa numantina do Alcázar não foi caso único na GCE. Embora com resultados díspares, Simancas, em Gijón, Oviedo, Santa Maria de la Cabeza, Guadalupe, Teruel, Huesca, Saragoça e outras mais foram exemplos de resistências heróicas. Como reconheceu então o dirigente anarquista García Oliver:
Nesta guerra está-se a dar um fenómeno que consiste em que os fascistas quando são atacados em cidades aguentam muito e os nossos não aguentam nada; (os fascistas) cercam uma pequena cidade e ao cabo de dois dias tomam-na. Nós cercamo-la e ficamos ali a vida inteira. [voltar]
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