Centro Histórico de Macau - Património da Humanidade
por Jorge A. H. Rangel *
Foi no dia 15 de Julho de 2005 que a UNESCO aprovou a designação do Centro Histórico de Macau como património mundial, permitindo a concretização justa de uma velha aspiração de muita gente ligada à cidade da costa da China que Portugal administrou até Dezembro de 1999. Culminou-se, desta feita, um longo processo iniciado no dealbar da década de 80, quando o então Governador Vasco de Almeida e Costa mandou preparar uma bem fundamentada proposta para submeter à apreciação daquele organismo internacional. Não tendo merecido a concordância da República Popular da China, ela foi sucessivas vezes reformulada, durante os mandatos dos Governadores Joaquim Pinto Machado e Vasco Rocha Vieira, até que, após a transferência de poderes em Macau, quiseram as próprias autoridades chinesas patrocinar a versão final da proposta e fazer saber do seu grande interesse em que ela fosse aceite, considerando-a mesmo prioritária no conjunto de outras propostas por si formuladas.
Apesar do muito que se perdeu, por incúria dos homens ou por inclemência do tempo, sentiu-se, na década de 80, a urgência na definição de uma política consistente, que permitisse proteger o património arquitectónico e cultural, numa altura em que a expansão imobiliária conhecia um rápido desenvolvimento e aumentava a pressão sobre as zonas mais velhas e nobres da cidade. Criou-se então um novo organismo público – o Instituto Cultural de Macau, onde se integrou a Comissão para a Defesa do Património, com competências reforçadas e apoiada por um departamento próprio, ao qual foram facultados recursos muito mais alargados.
Mais importante ainda foi a identificação, pela via legislativa, dos monumentos, sítios e conjuntos a preservar, a que se seguiram acções de sensibilização junto da população em geral, mas especialmente dirigidas à juventude, para a consciencialização de toda uma comunidade para o esforço colectivo de valorização do precioso legado de muitas gerações que, naquele espaço único, protagonizaram o mais fecundo e duradouro encontro entre o Oriente e o Ocidente.
O legado é português e chinês, complementado com elementos de muitas outras origens, constituindo um testemunho visível de pluralismo cultural. O Centro Histórico de Macau reflecte bem este intercâmbio de formas, estéticas e valores, numa coexistência continuada e com uma dinâmica que se prolongou até aos nossos dias, a ponto de as praças, as ruas e os edifícios manterem, em larga medida, as suas funções e vocações tradicionais.
A inscrição do Centro Histórico de Macau na Lista do Património Mundial foi já a 31a. da República Popular da China, que, com pragmatismo, tem sabido reconhecer aquela que é a verdadeira mais-valia de Macau: a sua ligação ao grande mundo lusófono, com o qual aquele país quer manter relações privilegiadas. Vem a propósito lembrar que foi sediado na cidade de Macau o secretariado permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, cuja 2a. edição ocorrerá no corrente ano, sendo também ali realizados, no mês de Outubro, os I Jogos da Lusofonia, congregando atletas seleccionados pelos Comités Olímpicos daqueles Países para competirem em dez modalidades desportivas, tirando proveito dos magníficos recintos construídos para os IV Jogos da Ásia Oriental, disputados em Macau no ano passado.
Macau é, desde 20 de Dezembro de 1999, uma Região Administrativa Especial da República Popular da China e a sua população pode orgulhar-se do papel desempenhado por este velho entreposto comercial e cultural na História da China e do mundo. A presença de Portugal deu-lhe características singulares, físicas e humanas, e possibilitou-lhe um relacionamento especial com a Europa e com os territórios onde chegou o abraço armilar luso. Por isso, a cidade continua a acolher grandes reuniões internacionais, algumas das quais ligadas a organismos portugueses, como o Congresso da Associação Portuguesa de Imprensa, em Dezembro de 2005, e o Encontro Anual da Associação das Universidades de Língua Portuguesa, em Junho do ano em curso, e instituições locais, académicas, culturais, sociais e económicas mantêm uma presença activa em acontecimentos relevantes do mundo lusófono, querendo assumir a sua herança civilizacional e compreendendo o contexto útil que permitiu o seu desenvolvimento, com uma ambição e uma capacidade que tiveram sempre uma dimensão muito superior à sua limitada geografia.
O Centro Histórico de Macau abrange todo o tecido urbano que vem dos primórdios da cidade, englobando praças e largos, como os da Barra, do Lilau, de Santo Agostinho, do Senado, da Sé, de S. Domingos, da Companhia de Jesus e de Camões, as ruas adjacentes e uma sucessão de monumentos integrados neste espaço, como o Templo de A-Má, anterior ao estabelecimento dos portugueses, dispondo de vários pavilhões dedicados a diferentes divindades e representando exemplarmente a diversidade da cultura chinesa nas suas vertentes confucionista, budista e tauista; o Quartel dos Mouros, edificado em 1874 na Colina da Barra com elementos arquitectónicos de influência mourisca; o Lilau, que foi um dos primeiros bairros residenciais típicos dos portugueses de Macau; a Casa do Mandarim, complexo residencial tradicional construído no século XIX para alojar uma importante figura literária chinesa; o Seminário e Igreja de S. José, base histórica da acção missionária na China e no Japão; as Igrejas de S. Lourenço, Santo Agostinho e S. Domingos e a Sé Catedral, recordando a pujança da acção missionária no Oriente; o Teatro D. Pedro V, o primeiro teatro de estilo ocidental na China, construído em 1860; a Biblioteca Sir Robert Ho Tung, o Edifício do Leal Senado, com o seu rico Salão Nobre e uma linda biblioteca que teve por modelo a do Convento de Mafra; a Casa de Lou Kau, velha residência de um abastado mercador chinês; o Templo de Sam Kai Vui Kun, situado no antigo bazar chinês; a Santa Casa da Misericórdia, fundada pelo primeiro Bispo de Macau, em 1569; o pequeno templo de Na Tcha, mesmo ao lado das Ruínas de S. Paulo, o ex-libris de Macau; a chamada Casa Garden e o seu jardim envolvente; o Cemitério Protestante, onde estão sepultadas muitas figuras ligadas à Companhia Inglesa das Índias Orientais e um exemplo do cosmopolitismo da cidade; a Fortaleza da Guia com a Capela e o Farol, o primeiro edificado na costa da China; um troço das Antigas Muralhas de Defesa da cidade, construídas a partir de 1569; e a Fortaleza do Monte, que foi a principal estrutura defensiva, levantada pelos jesuítas entre 1617 e 1626.
Nesses monumentos está espelhada uma História multissecular que caberá às novas gerações respeitar e assumir. A inclusão de Macau na Lista do Património Mundial constitui também uma homenagem a essa História e representa para as autoridades locais a assunção duma responsabilidade perante o mundo, de conservação do património deixado aos jovens de hoje, naturalmente apostados na edificação da sociedade do futuro, mas sabendo que não haverá porvir estável sem memória e sem reconhecimento.
(*) Presidente do Instituto Internacional de Macau.
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