O drama dos tempos modernos
por J. Luís Andrade
Volvidos estes anos sobre o hediondo crime perpetrado por terroristas nos Estados Unidos, a maioria dos analistas da nossa Nomenklatura continua ainda a tentar encontrar razões para explicar o sucedido. Grave falha de segurança dos aeroportos e imprevidência dos serviços de informação americanos!, clamam uns; operação sofisticadíssima que poucas organizações no Mundo seriam capazes de levar a cabo, dizem outros. Com toda a probabilidade, não foi nem uma coisa nem outra, o que afinal ainda agrava mais o impacto do incidente, contribuindo negativamente para a percepção que o cidadão comum ocidental tem da sua segurança, ou melhor, da sua insegurança. É óbvio que foi necessário um exímio e bem controlado plano (não as balelas falaciosas que agora nos pretendem impingir) mas, se exceptuarmos o nível conceptual e organizacional, quer os recursos financeiros quer os técnicos envolvidos não foram de grande monta.
Uma reflexão mais fria e profissional, ter-nos-ia permitido recordar que uma das primeiras regras que enquadram o conceito de Segurança é que esta é inatingível a 100%. Em qualquer actividade há sempre uma dose de risco envolvida. Este pode ser minimizado, transferido (é o negócio dos seguros) ou controlado, actuando-se, para isso, sobre os alvos a proteger ou sobre as ameaças potenciais. Esta última é, geralmente, uma competência de quem tem a prevenção, a monitorização e a contenção das actividades perigosas nas quais se incluem as práticas terroristas. Mas, em última análise, nenhuma estrutura será capaz de garantir a neutralização de todos os actos criminosos que venham a ser projectados, sobretudo nas actuais circunstâncias da tão publicitada globalização. Apertar ainda mais as regras e procedimentos da segurança interna e da de circulação, aumentar restrições e controlos apenas conduzirá, in extremis, a um dispêndio exagerado e acéfalo de recursos que tanta falta fazem noutras áreas. E isto sem considerar a complexidade de acções e reacções que uma sociedade excessivamente securitária iria provocar, com todo o cortejo de defensores radicais dos direitos e liberdades fundamentais, com o aumento da xenofobia, com a bunkerização dos ricos e poderosos, com a limitação do comércio e do acesso à informação, etc.
Não é possível amar o próximo sem amar a Deus…
Desde o princípio da Idade Moderna que quem controla a superstrutura das nossas sociedades nos tem vindo a dizer que Deus será irreversivelmente enterrado qualquer dia e que a Glória era, afinal, uma galdéria e o Herói o seu proxeneta; ensinam-nos, com o Materialismo e o Relativismo, que o grande impulsionador social é apenas o Ouro.
Mais uma vez, os alicerces do Mundo Ocidental moderno, fundados sobre os ensanguentados caboucos da Revolução Francesa, estão a ser abalados de forma extrema. Durante os dois últimos séculos, na maior parte das sociedades ditas avançadas, foi propagandeado como meta lançar sobre toda a humanidade os inefáveis mantos de Fraternidade, Igualdade, Liberdade, Justiça, Direitos, Paz universal, apagando Deus. Muitos, os mais fracos, foram presa fácil do embuste e deixaram-se intoxicar pela miragem de um mundo ideal em que poderiam vir a ser servidos pelos antigos senhores ou, na pior das hipóteses, ser convidados para beber chá nos seus palácios, secretamente idolatrados. Desfeita a confiança, a esperança deu lugar à revolta e ao rancor.
Estamos, provavelmente, a pagar pelas promessas incumpridas de Eldorados livres, democráticos, abastados que através da Europa e, principalmente, a partir do seu filho predilecto — os E.U.A., desde há muito temos vindo a inculcar por esse mundo fora. Postos perante a dura realidade de descobrirem que, na prática, apenas foram peões utilizados numa Guerra de Sombras que não lhes dizia respeito, essas sociedades, despeitadas, manifestam hoje a sua reacção, insurgindo-se perante os que consideram ser os responsáveis objectivos pelo seu frustrado futuro. E acontece que as culturas de que falamos não se revêem como filhas de Marx, nem como sobrinhas de Freud nem, muito menos, como netas de Rousseau, pelo que Deus, Glória e Herói têm um significado que, no nosso Mundo, há muito se encontra deslocado ou perdido. Também não foi por acaso que o Ocidente foi atingido naquilo que é uma jóia da realização humana, as modernas torres de Babel, construídas pelos novos Prometeus, símbolos de um atraente, mas igualmente arrogante, modelo de progresso e desenvolvimento.
mas também não é possível amar verdadeiramente a Deus sem amar o Homem
Como é óbvio, esse estado de espírito é facilmente aproveitado pelos fundamentalismos religiosos e políticos que, apocalipticamente, apresentam o Ocidente cristão e a suas imagens de marca culturais como a incarnação do Mal. Não é despiciendo notar que, mesmo os que lamentam sinceramente os actos terroristas cometidos nos E.U.A., não mostram qualquer simpatia ou solidariedade para com aquele país ou o Ocidente. E o radicalismo leva facilmente à convicção de que, só a oferta da própria vida, em holocausto, poderá trazer algum significado às existências terrenas dos mais desesperados. Mas não é possível por esse pretenso amor a Deus provocar o massacre de tantos e tantos inocentes. Os dirigentes religiosos que o fomentam não são mais que frustrados rancorosos. Não é possível amar a Deus sem amar igualmente a sua maior criação – o Homem, não o Homem abstracto do existencialismo mas o homem concreto - o nosso próximo. O desprezo total que os terroristas têm mostrado pela vida dos seus semelhantes apenas os conduzirá à justa destruição e aniquilamento. Instrumentos de inconfessáveis propósitos, não passam de pobres títeres nas mãos dos seus mestres e controladores.
Dá-se protagonismo às Nações Unidas mas ignora-se pusilanimemente o facto de muitas das suas estruturas operacionais serem elas próprias um albergue de radicais e ex-terroristas, definitivamente retirados ou em repouso momentâneo. Embrulhada em voluptuosas roupagens de Fraternidade, Liberdade e Igualdade universais esta política é apenas, todos o sabemos, cinicamente baseada numa estrita lógica de Poder e dos interesses dos grandes lobbies que pretendem governar o Mundo. Se não decidirmos empreender uma cura ou catarse que passe pela tomada de consciência de novos valores e abordagens que levem à resolução das raízes do ódio e do desespero, então o problema só tenderá a agravar-se. Infelizmente, como temos podido verificar, os métodos para aterrorizar não são complicados e os recursos, sobretudo os necessários para actos de bio-terrorismo, não são difíceis de conseguir. O Mundo aprendeu, dolorosamente, que até as grandes potências, como os E. U.A., são, afinal extremamente vulneráveis. |