Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
Estórias com História - Imigrantes em Lisboa

por Joana Ludovice de Andrade

Entre os turistas da Baixa, as tradições do Castelo e a história da Muralha Fernandina (o que resta dela), ficam os prazeres proibidos do Intendente e a mescla de povos e cheiros do Martim Moniz. Dois cancros urbanos, quer pelo caos arquitectónico quer pela falta de segurança. Espaços obscuros de contrastes, linguagens e costumes longínquos.

Trabalhar no Martim Moniz

São 9 horas da manhã e Sudhir já está na sua atravancada loja no Centro Comercial da Mouraria, no coração do Martim Moniz mas que bem podia estar em Kuala Lumpur. Chegou a Portugal com a mulher e os filhos há seis anos e abriu o seu estabelecimento há cerca de três. Este hindu de 43 anos orgulha-se de levar uma vida pacata e conformada, apesar da falta de segurança que caracteriza a zona. Ganha o sustento da família com a ajuda da mulher que vai tomando conta da loja de artigos variados (nome pomposo para bugigangas) enquanto Sudhir “espia” as lojas vizinhas. A mulher, de sari colorido e feições tímidas, mantém-se calada e cabisbaixa, como todas as indianas na presença dos maridos, não esboça sequer um sorriso. Pelo contrário, Sudhir fala pelos cotovelos num português “macarrónico” e demasiado gestual, assume o papel de cicerone, orgulhoso com a atenção que lhe é dada.

O indiano caminha à frente com a segurança de quem conhece os cantos à casa e inicia a visita guiada. Mostra as lojas demorando mais ou menos tempo conforme a empatia com os donos, apresenta amigos e familiares (neste pequeno grande mundo todos se conhecem), vai promovendo produtos (provavelmente com vista a receber alguma comissão).

As cores berrantes dos artigos contrastam com a falta de iluminação do sítio e ferem os olhos, os cheiros acres e doces atingem o nariz e fazem dor de cabeça; no entanto, esta forma de comércio não deixa de ser sedutora. Os cabeleireiros africanos, os óculos de sol  paquistaneses, as vendas a retalho dos chineses, os supermercados com produtos nunca vistos, com odores nunca sentidos... um universo paralelo de um Portugal quinhentista onde raças, religiões e culturas se misturam sem noção dos cenários terríveis na maior parte dos seus países de origem.

O medo de Sudhir não advém das diferenças daqueles povos, que vivem nas mesmas condições, mas sim da criminalidade ligada à droga e à prostituição. O comerciante admite que a cautela no tráfico aumentou dentro do centro comercial desde que a polícia começou a fazer rusgas de surpresa pelo Martim Moniz. Sudhir considera, no entanto, que a polícia está mais preocupada com os “pobres coitados que não conseguem tratar dos papéis” do que em apanhar os traficantes e proxenetas que ameaçam os comerciantes e afugentam os potenciais clientes. Fala com algum rancor e preocupação do dia 13 de  Fevereiro, data em que houve uma operação liderada pela PSP com a colaboração do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) e na qual detiveram o seu cunhado “só por causa de uns telemóveis” (um dos pobres coitados a que provavelmente se referia antes).

Sudhir, o comerciante falador está, apesar de tudo, contente com a sua vida, diz não pedir mais nada e todas as noites agradece a Ganesha (deus Hindu da felicidade) num templo improvisado em sua casa.

Viver no Intendente

A D. Rosa e o Sr. Joaquim vivem na Av. Almirante Reis e são casados há 53 anos. Sempre viveram naquela zona e portanto assistiram à sua gradual decadência. O que era uma zona pacífica da cidade transformou-se num calvário. O governo acabou com os principais centros de tráfico de droga, no Casal Ventoso e na Curraleira, e os traficantes acabaram por se mudar para o Intendente. O que antes era uma zona pacífica, apesar de triste, com os seus prédios bonitos e premiados deixados à degradação e sujidade pela população envelhecida, passou a ser uma zona de completa exploração humana de tráfico de prazeres. O Intendente é hoje cenário para as circunstâncias mais deprimentes; pessoas a injectarem-se em paragens de autocarros, desgraçados a cair aos bocados por todo o lado, prostitutas e proxenetas, violência doméstica, etc. Uma realidade muito clara da desgraça da toxicodependência.

A D. Rosa diz que ainda lhe custa muito dormir com o som, constante e ensurdecedor, das sirenes das ambulâncias e carros da polícia. Tem medo de sair à rua, até mesmo durante o dia, pois já a assaltaram e agrediram várias vezes. Este casal de idosos acha que a polícia “não tem mão neles” (drogados). O Sr. Joaquim explica que “são muitos e não têm  nada a perder, só querem o dinheiro para a dose”. A D. Rosa conta que agora a “nova moda são as seringas, já não usam facas para nos ameaçar”.

Como este casal há muitas outras pessoas que vivem apavoradas com o cenário criminoso desta zona, sentem-se revoltadas com as autoridades e com a câmara que consideram não ter feito nada por aquela população.

Almirante Reis

O fenómeno começa agora a espraiar-se pela Almirante Reis acima, com maior impacto nos Anjos, onde a “Sopa dos Pobres” atrai um sem número de sem-abrigo, alcoolizados e drogados. As lojas de mobiliário, controladas pela comunidade ismaelita, começam a ressentir-se da vizinhança e a lamentar amargamente a sua pouca sorte.

Caminhando para o Chile, nó central da mais recente imigração brasileira que substituiu e desalojou a ucraniana, as ourivesarias dos parses, vão melhorando a segurança das lojas, inquietos com a agitação dos novos vizinhos.

A integração cultural

Com um tecido urbano em permanente mutação e degradação, os espaços vão-se modificando cultural e economicamente, deixando impotentes de pasmo os antigos residentes que, sem alternativa de mudança, lá vão sobrevivendo num ambiente que lhes é cada vez mais estranho. Sinais dos tempos e da mudança…

A entrada incontrolada nos espaços tradicionalmente mais abertos e deficitários de mão-de-obra, como é o caso dos países da dita União Europeia, arrasta todo um conjunto de novos problemas que, directa ou indirectamente, afectam a segurança global das populações. Quase sempre o insucesso na inserção no tecido social dessas sociedades leva à marginalidade e, por vezes, quando as comunidades expatriadas são significativas, à auto-exclusão. Esta evolui, com facilidade, para a ghettização, com toda a conhecida panóplia de comportamentos e atitudes reactivas que fazem gala em buscar noutras sub-culturas marginais inspiração e energia. Com o equívoco apoio demagógico de quem não quer perceber o fenómeno, provocando condicionalismos de auto-sensura na análise do problema…

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