Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
Portugueses na Grã-Bretanha nestes tempos de ferro

por Rafael Castela Santos

O actual perfil da imigração portuguesa é um assunto novo. Ela não surpreende nas grandes cidades como Londres, Birmingham ou Manchester, por exemplo. Sempre existiu uma razoável comunidade portuguesa, geralmente de profissionais qualificados. E também não é  surpresa encontrar restaurantes portugueses em cidades de tamanho médio um pouco por toda a Grã-Bretanha.  O que já surpreende é o súbito fluxo migratório em locais tão invulgares como Merthyr Tydfill, em tempos a capital britânica do carvão e que hoje em dia é uma localidade secundária. Nesse lugar meio perdido nos vales do País de Gales, começam a surgir automóveis com matrícula portuguesa e verificamos que estes imigrantes têm mais a ver com os que partiam, nos anos sessenta, para França, o Luxemburgo ou a Alemanha. São mais pobres, são jovens e fogem da crise económica que atingiu Portugal nos últimos anos. Estes portugueses aceitam trabalhos pouco qualificados, em matadouros, fábricas, quintas e nos campos. Uma característica destes portugueses é que muitas vezes se organizam em grupos itinerantes que vão de quinta para quinta ou de zona rural para outra zona rural. Alguns destes grupos itinerantes encontram-se na fronteira entre o sul da Escócia e o norte da Inglaterra.

Curiosamente, na página web da Embaixada britânica em Lisboa faz-se a promoção indirecta deste tipo de contratação temporária. Porque temporários são muitos dos trabalhos que os portugueses estão a aceitar em terras de Sua Majestade.

Para além destes trabalhos no Sul do País de Gales, outra micro-comunidade portuguesa parece estar a organizar-se na zona de Suffolk, Norfolk, na East Anglia, e até também um pouco mais a norte, em Lincolnshire. E também já se nota a presença de portugueses nas Channel Islands. Evidentemente que Londres, como grande cidade que é, continua a exercer uma grande atracção mas a nossa presença começa a estar ali mais diluída.

Nas fábricas e nos campos ingleses os portugueses alinham e misturam-se com trabalhadores dos países de leste e, por outro lado, com brasileiros, angolanos e moçambicanos que, muitas vezes com passaporte comunitário português, conseguem permanecer num espaço multirracial de lusofonia. Todos eles sofrem amiúde os abusos de quem os obriga a trabalhar para além do que a lei permite e por menos dinheiro do que a lei determina.

A nível oficial a Inglaterra mantém a cantilena de sempre, fala do Portugal seu velho aliado a quem chama frequentemente "o mais velho servidor aliado"; quer dizer, Portugal mantém sempre o seu papel  de lacaio de Inglaterra. E como não poderia deixar de ser, vai ocultando a realidade dos Tratados de Methuen, vai-se intrometendo continuadamente na soberania portuguesa, vai controlando e envenenando Portugal de forma discreta através de determinadas sociedades, traindo Salazar e o Império português pelas costas e outras habilidades.

De momento, para a Inglaterra, o português mais famoso é Nadia Almada, um transexual que há alguns anos foi uma das estrelas do programa Big Brother, numa Grã-Bretanha onde os trabalhadores chegam a ser insultados com nomes depreciativos que se aplicam a asiáticos e aos de raça mais escura, como comentava recentemente uma dos novos imigrantes portugueses. Muito embora, em boa verdade, as ilhas britânicas sejam uma das sociedades que melhor aceitam as diferenças raciais e onde a maior parte dos não-nativos britânicos são aceites sem qualquer problema. Talvez seja isso. Uma sociedade inglesa que glorifica um transexual português e uma sociedade inglesa que atacou bares e pubs portugueses quando a selecção de Portugal se impôs à selecção inglesa no último mundial. E uma elite inglesa que se regozija por continuar a utilizar Portugal como sempre o tem feito. E onde imigrantes portugueses têm de ganhar o pão em terras inglesas enquanto Portugal sofre o sufoco da imigração descontrolada de Trás-os-Montes ao Algarve.

Talvez seja isto: uma Europa que se baseia na usura e que não quer nem pode solucionar o problema da imigração ilegal. Ou, pior ainda, será a usura que manda na política, ou (des)política da imigração?

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