Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
O caso Gunter Grass

por Carlos Bobone

O caso Gunter Grass é mais interessante pelos comentários que levantou do que pela revelação de um ponto sombrio na carreira do intelectual tido até aqui por impoluto. Um escritor rico e famoso, coroado com todos os louros que poderia ambicionar, traduzido e lido em dezenas de línguas, chega ao fim da sua carreira e decide revelar um ponto da sua biografia que, se conhecido mais cedo, teria constituído sério obstáculo à sua ascensão no mundo literário: a passagem pelas fileiras das Waffen SS.

Seguro da sua impunidade, pois o grande temor de quem escreve é o anonimato, ao qual ninguém poderá reduzi-lo agora, percebe-se que tenha querido fazer as pazes com o seu passado, afastando o véu com que prudentemente o cobrira. A revelação pública desse esqueleto que permaneceu escondido no armário durante sessenta anos, provocou fortíssimas dores de estômago entre as hostes dos seus admiradores e abriu um debate público sem grande sentido, em que os mais indignados encaram a possibilidade de reavaliar a obra, depois de a terem proclamado genial, e os mais compreensivos, embora incomodados, tentaram reduzir a questão a um extravio da juventude. No meio de todos os desabafos, que revelaram um inquestionável mal-estar por parte da comunidade intelectual e seus dependentes, evitou-se tocar no ponto mais sensível que fora atingido:
A reputação geral do sistema que eleva à glória ou reduz à insignificância os artistas, filósofos ou escritores.

Na famosa “sociedade aberta”, presume-se que o talento de cada um é o seu passaporte para a fortuna. Quando os que não triunfaram se queixam de conluios, bloqueios políticos ou censura, dá-se-lhes o pouco crédito que merecem os maus perdedores. Mas quando um dos que atingiram os pináculos da glória confessa publicamente que chegou aos cumes porque falseou as regras do jogo, sabendo que sem o fazer ficaria pelo caminho, ficam expostas à vista de toda a gente as perversões do meio ambiente em que se produz a literatura contemporânea.

Naturalmente, um facto político não deveria constituir obstáculo ao reconhecimento de um valor literário, mas desde o fim da segunda guerra mundial a adesão a valores igualitários, “humanistas” e pacifistas tornou-se critério oficial para a avaliação da qualidade de um escritor. Figuras tutelares da cultura europeia do pós-guerra, como Jean-Paul Sartre, produziram uma justificação para este desvio dos critérios tradicionais. A função do intelectual estava, por natureza, ligada à defesa dos valores do espírito, como a liberdade de pensamento, o primado da razão, a igualdade entre os homens. Os intelectuais que traíram a sua vocação aviltaram-se colaborando, de perto ou de longe, com a barbárie fascista, provocando a rejeição da sua atitude por parte do público, e por isso era natural que na actualidade se considerassem quase sinónimos o conceito de escritor e o de resistente anti-fascista. Esta institucionalização de um currículo político exigido aos candidatos à carreira intelectual, tornou o mundo das letras vulnerável a fraudes como a do filósofo Louis Althusser, entronizado no lugar de grande renovador do marxismo e profundo comentador das obras de Marx, que reconheceu mais tarde não ter lido. 

A infracção de Gunter Grass aos códigos morais da intelectualidade contemporânea não se poderá considerar uma fraude. Reduz-se, no fim de tudo, à omissão de um pormenor biográfico embaraçoso para quem até aqui fora visto como um modelo de escritor moderado e defensor dos valores modernos. Desde cedo acomodado à situação política vigente na Europa Ocidental depois da guerra, o autor de “O Tambor” foi um imperturbável defensor da democracia burguesa em que se instalou, empenhando-se no seu aperfeiçoamento. Fundou uma plataforma de apoio à social-democracia e tomou parte em várias campanhas eleitorais ao lado de Willie Brandt. Nunca se deixou seduzir pelo canto das sereias revolucionárias, distinguindo-se, neste ponto, da maior parte dos escritores da sua geração. Afirmou bem alto o seu lema político: Não à revolução, sim à reforma. Os motins de Maio de 1968 foram para ele importantes apenas porque mostraram da parte da juventude uma certa vontade de participação na vida política, o que Gunter Grass via com bons olhos, não porque considerasse a juventude uma camada da população particularmente interessante, mas porque sempre pugnou pelo aumento da participação cívica dos seus compatriotas, fossem eles de muita ou de pouca idade. Aprovando, pois, a explosão juvenil, afirmou constantemente que o movimento dos estudantes não tinha carácter revolucionário, sendo composto por uma maioria de jovens reformistas e uma pequena franja de revolucionários, divididos em sete ou oito obediências que se guerreavam ferozmente.

O caso Gunter Grass teve em Portugal uma repercussão modesta, se a compararmos com o alarido que despertou noutros países, em especial na Polónia, na Alemanha e na Áustria. Ainda assim forneceu o tema para umas poucas dezenas de crónicas, ficando patente que muitos dos nossos condutores de opinião se sentiam obrigados a ajustar contas com a nova faceta do escritor alemão. Alguns verberaram o moralista que exerceu o seu longo pontificado moral enquanto escondia as próprias maleita, outros defenderam-no desajeitadamente, com agressividade e em tom de desafio, dizendo que não trocam uma página de “o tambor” pela prosa dos seus acusadores. Houve também aqueles que, para nos darem a medida da gravidade que a revelação assumiu, entraram em intimidades, confessando-nos que não mais poderão ler a obra que tanto os marcou sem que uma sombra negra paire sobre aquelas páginas.

Comentários desencontrados, que dificilmente se poderiam considerar um debate sobre o assunto, mas dão uma ideia da docilidade com que se recebem na nossa terra todos os pretextos vindos de fora para reduzir a actividade cultural à sua menor dimensão.

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