A nova face do terrorismo
por Luís Atapalha
Ao mesmo tempo que as sociedades convergem cada vez mais para padrões comuns e quase uniformes, seja numa escala regional, nacional ou global, um velho fenómeno (ou instrumento) sócio-cultural está a tornar-se cada vez mais importante no que diz respeito à Insegurança – o terrorismo. Pode ser o resultado de uma reacção desesperada ou nihilística a essas mudanças ou uma táctica específica na luta para a conquista do Poder. Pode ser um meio violento de provar ou enfatizar um determinado ponto de vista político ou simplesmente uma erupção reactiva de mega-vandalismo. Em qualquer caso, pressupõe premeditação, com o acto ou actos a serem preparados previamente com a intenção de causar dolo, físico ou psicológico. E, amiúde, as autoridades têm vindo a demonstrar uma incapacidade quase total para antecipar os actos terroristas a tempo. Como já disse, é importante compreender que é impossível garantir, sem demagogia, um nível de segurança total. Mas também é verdade que é possível às organizações responsáveis pela recolha de informação de minimizar o risco de serem apanhados de surpresa. Uma boa perfomance nesse campo é geralmente conseguida, contornando a hierárquica pirâmide burocrática, saltando por cima dos níveis de decisão intermédios, aproximando o topo da rede operacional.
Muitas vezes as lacunas na recolha e análise da informação resultam dos dados retidos com o intuito de marcar pontos junto da hierarquia naquele que se julga ser a altura própria. Ou porque a informação é considerada tão sensível ou irreal pelo que, tal como uma jóia demasiado preciosa para usar é guardada no cofre, não é entregue àqueles que a poderia usar convenientemente.
Além disso, infelizmente, as ameaças terroristas estão a mudar de tal forma que cada vez é mais perigoso e difícil combatê-las. Hoje os ataques terroristas são mais letais. Até aos anos 90, a maioria das organizações terroristas tinham objectivos políticos mais ou menos definidos. Concomitantemente, tentavam geralmente afinar os seus golpes de forma a produzir apenas suficiente morticínio para chamar a atenção para as suas causas, evitando exagerar para não perder o apoios do seus simpatizantes.
A tendência para o aumento do número de vítimas reflecte a mudança nas motivações dos terroristas de hoje. Guiados por ódios culturais, religiosos ou étnicos ou por visões de um futuro apocalíptico, não têm um objectivo político concreto que não seja castigar os seus inimigos, matando tantos quantos possível, sem qualquer preocupação com a perda de simpatia.
A viragem nos motivos tem contribuído para uma mudança na forma como certos grupos terroristas se têm organizado. Uma vez que a sua base de sustentação de natureza religiosa-cultural os liberta da necessidade de uma agenda política, têm menos necessidade de uma estrutura hierárquica clássica. Em vez disso, podem estruturar-se com base em ligações soltas ou mesmo desconexas, tendo subjacentes grupos que se revêem nas mesmas causas, em díspares países. Este facto permite uma infiltração mais fácil de agentes de serviços de intelligence mas, ao mesmo tempo, torna a detecção precoce, a vigilância e a prevenção muito mais complicada devido ao carácter errático e imprevisível das acções. De qualquer modo, as malhas terroristas podem estar hoje menos interligadas e ser transnacionais mas, mais cedo ou mais tarde, terão necessidade de recorrer a uma variedade de fontes para apoio logístico e financeiro, incluindo o auto financiamento de actividades criminosas. As suas redes podem incluir organizações de fachada ou mesmo negócios legítimos bem como organizações não governamentais. Mas a maioria dos que estão envolvidos nessas actividades de suporte, para conseguir fontes de financiamento alternativas, têm de se manter militarmente relevantes, necessitando, pois, de adquirir armas, munições e outros meios logísticos. Não podem recorrer, obviamente, aos canais legais de venda mas, pelo facto de serem capazes de dispor de grandes quantidades de dinheiro, têm sempre, como recurso, as redes do crime para obter os produtos necessários. Efectivamente, os bandos do crime organizado, contrariamente aos grupos políticos extremistas, estão bem relacionados com os negociantes clandestinos de armas, com os promíscuos serviços de informação bem como com os coordenadores das transportadoras internacionais, com os lavadores de dinheiro e outros especialistas capazes de providenciar todos os recursos logísticos que antes eram disponibilizados pelos Estados activamente envolvidos na guerra fria. Mais do que os movimentos armados, de natureza política ou religiosa, os grupos do crime organizado, têm mais probabilidade de terem acesso a contactos corruptos nas Alfândegas, nos Serviços de Imigração e noutras autoridades capazes de facilitar o contrabando de armas e de produtos afins, incluindo os de tecnologia mais avançada. Os movimentos terroristas de hoje estão cada vez mais a recorrer à Internet como um eficaz canal de comunicação entres os seus cogumelos.
E ironicamente, todas essas dependências tornam-nos mais vulneráveis... |