NOVA FRENTE
Os Papa-discursos
por BOS
O rebotalho eclesiástico zurziu o Papa depois que este pronunciou uma lição que ninguém leu. Parece que o Frei Bento Domingues ficou indignado. O discurso de Regensburg não teve decerto a profundidade teológica dos artigos que o frade costuma estampar no «Público».
Sobre esta questão actualíssima importa dizer o seguinte. Uma coisa é ser-se pró-americano. Não sou. Está a vista a chafurdice que os bushistas implantaram no Iraque. Outra bem diferente é tomar o partido dos muçulmanos. Também não o faço. Onde alguns apoiam a causa palestiniana, que até seria legítima, só vejo hoje fundamentalismo islâmico.
Mas voltemos à cangalhada de paisanos clericais. Imagino um concílio convocado por eles na Quinta da Atalaia ou noutro palco de fé. Discursos, orações, entrevistas. Passam a pente fino dois mil anos de Igreja e chegam a uma conclusão magnífica: — a única coisa que escapa é o Padre da Lixa. Divirto-me com o título das moções: "Cristo, o primeiro marxista", "Por uma Igreja socialista", e por aí fora.
Tudo isto me traz à ideia aquele personagem de Gogol que nasceu de sapatos, chapéu-de-chuva e já funcionário público. A parteira, ao ver o rebento, caiu para trás, chocada. E aqui deu-se o acto sublime: em vez de ser a parteira a sacudir o recém-nascido, foi este quem lhe teve que dar duas palmadas. O Frei Bento, o Torgal, o Manuel Martins, também já nasceram assim. Nenhum seminário, nenhuma faculdade de Teologia, por mais progressista, produz aventesmas tais. Não. Eles já nasceram todos assim, de sapatos e batina e prosápia balofa, católicos progressistas a maldizer o Papa e a tradição, poucos crentes no sagrado mas cheios de fé no multiculturalismo. |