Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
Os Portugueses e o Oriente: grandeza e incúria

por Miguel Castelo Branco

A presença portuguesa no Oriente é tema apaixonante. É, tão só, o marco separador de duas eras, como lembrou Toynbee - antes e depois da viagem do Gama, antes e depois do contacto directo entre as galáxias ocidental e oriental – em suma, qualquer que seja a carga emocional e semântica com que se utilizem os termos, o advento da globalização, da mundialização e da universalização. Para o Oriente houve um antes e um depois dos Portugueses. Os outros – ingleses, holandeses e franceses – chegaram depois, geraram novas dinâmicas, mas o traço matricial dessa relação foi riscado pelos nossos navegantes, soldados e mercenários, missionários, mercadores e tratantes, piratas e aventureiros. Do Cabo a Nagasáqui, do Mar Vermelho ao Mar de Timor, o século português da Ásia deixou raízes que perduram para além do esboroar das feitorias, das fortalezas, dos templos e dos estaleiros. Estivemos em todo o lado, dominámos as rotas pela guerra ou pela persuasão, estabelecemos pontes e contactos entre povos asiáticos que se ignoravam, estabelecemos a circularidade do mercado mundial e lançámos as bases perduráveis daquilo a que hodiernamente chamamos Relações Internacionais e Direito Internacional Público, para além das tão na moda “relações inter-culturais”, antropologia comparativa e “diálogo inter-religioso”. Há uma dimensão sombria no choque entre civilizações, hoje tão exacerbado pela historiografia anglo-saxónica, sobretudo aquela que tratou de diabolizar, exagerando-a, a componente religiosa da nossa expansão. Ora, se na evangelização portuguesa houve, não o duvidemos, uma forte componente joaquimita – milenarista e redentorista, bem presente na visão de D. Manuel I – tal permitiu, sem paradoxo, desvelar a unidade da humanidade na multiplicidade dos povos, crenças, substratos culturais e linguísticos. Os outros, calvinistas e puritanos, exclusivistas e sem anelo predicador, ativeram-se ao trato comercial antes de lançarem os caminhos de ferro e o telégrafo. Se das colonizações britânica e holandesa nasceram estados, da colonização portuguesa nasceram comunidades de afecto. Não se trata  de um mero topos, este de enfatizar o carácter distintivo das relações portuguesas com as ásias: Ásia do Sul ou sub-continente indiano; as Indias Orientais/ sudeste asiático; o extremo-oriente. Em primeiro lugar, posto não existir correspondência directa entre o “Estado Português da Índia” e a presença portuguesa, poderemos falar de uma presença multímoda, fluída, quase informal, tão diferente daquela praticada pelas companhias dos povos comerciantes. Tivemos o cartaz, praticamos o monopólio, tentando destruir a concorrência. Tudo isso é claro, mas estávamos em todo o tablado pois contávamos com fidelidades regionais que extravasavam largamente o interesse diplomático, comercial e político da coroa. A língua portuguesa era língua franca, “portugueses” eram todos os que professassem a fé católica, amigos e aliados todos os que aceitassem, enriquecendo, um quinhão nessa comunidade continental de comércio, favores, acolhimento e protecção. As “lusotopias” não eram da Coroa: eram das comunidades que se formavam, cresciam e prosperavam na liberdade dos concelhos, na unidade religiosa das igrejas e na entre-ajuda das misericórdias. Estas lusotopias resistiram aos ventos e tempestades da história. Teimosamente, mantiveram a língua, os costumes, a memória da linhagem: na Birmânia, no Sião, na Malásia, na Indonésia há populações que orgulhosamente afivelam o nome de Portugal. Os outros passaram. Nós ficámos, estamos lá, sem subsídios, sem apoios e sem estímulo do Portugal distante, abúlico e “europeu”, um Portugal que regrediu para uma visão tardo-medieval da esfera de contactos internacionais: a Antuérpia e Bruxelas, a costa da Guiné e pouco mais. Disse há tempos o Professor António Vasconcelos Saldanha que Portugal é, para os asiáticos, uma “potência histórica”, com tal luminosa expressão pretendendo definir o peso e permanência do nome de Portugal na diversidade de sentidos que apontámos. Querem hoje fazer crer aos portugueses jamais terem estado na Ásia, ou, pior, fazer crer que a “Ásia Portuguesa” se limita a Goa, Macau e Timor. Tamanho disparate tem criado atritos diplomáticos e reduzido ao limite da caricatura a verdadeira expressão da presença portuguesa nas Ásias. Felizmente, a “Ásia Portuguesa” está bem para além das Portas do Cerco, do bazar de Díli e dos ananizados limites de Goa. Pede-se hoje, no limiar de um século que será o século chinês, que os decisores de Lisboa abram os olhos e consigam tirar partido dessa imensa vantagem que foi, é e será se o quisermos, a grandeza do nome de Portugal em terras da Ásia.

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