Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
Editorial

por Carlos Bobone

“Portugal no Mundo” é um tema caro às várias famílias espirituais que povoam a terra lusa. Cada qual terá o seu entendimento quanto aos caminhos que Portugal deve trilhar para fazer a sua afirmação no seio das nações, mas a unanimidade forma-se quando toca a definir, ambiciosamente, a influência que somos chamados a exercer no concerto dos povos.

Aqueles que se prezam de pensar com realismo acreditam que, mesmo actuando dentro das mais terrenas ambições, Portugal pode sobressair no meio dos outros, fazer-se notado, ser admitido nos círculos mais selectos e pertencer ao grupo dos que verdadeiramente são ouvidos. Os que vivem submersos na política pensam que o país se engrandecerá na exacta proporção das missões internacionais em que tome parte. Os analistas com pretensões de sociólogos acreditam que o nome de Portugal começa a ser proferido com respeito fora das nossas fronteiras, graças ao assinalado êxito de uma dúzia de portugueses com prestigiadas carreiras internacionais, aclamados pela superioridade que lhes foi reconhecida nos campos da pintura, da música, da arquitectura, do desporto ou da ciência. Atribuem estes triunfos à “abertura de Portugal ao exterior”, nos últimos anos, e prevêem que o país continue a cobrir-se de glória, dada a abundância de talentos que tem revelado ao mundo. Os que opinam na àrea económica, menos optimistas, entendem que a grandeza do país e o seu prestígio externo se medem pelo número de centros decisórios de grandes empresas que tenham sede dentro das nossas fronteiras, e vêem na preservação ou até no aumento desses centros, o maior desígnio nacional.

Num outro comprimento de onda, os adeptos do luso-tropicalismo acreditam que o povo português está especialmente vocacionado para o convívio com as culturas extra-europeias, podendo pois servir de guia e modelo a uma nova ordem de relações internacionais.

Há quem pense que a missão histórica de Portugal está, no essencial, cumprida, restando apenas dar a conhecer os traços que a civilização portuguesa deixou espalhados pelo mundo. Nos gabinetes universitários ou nas salas de conferências vão-se produzindo estudos sobre o “impacto português na civilização” da Índia, da China, do Japão ou do Sião, e recolhendo dados sobre as ramificações da língua portuguesa nos dialectos africanos, americanos e asiáticos. Este trabalho, em que se ocupam centenas de investigadores, não tem o carácter de um inventário “post-mortem”, mas sim o de um contributo paciente e trabalhoso para o reforço da presença lusa na civilização universal. Reunindo e relacionando os elementos de uma tradição dispersa dá-se força, consciência e coerência aos herdeiros da mesma.

No pólo oposto ao dos que pretendem dar por encerrada a missão histórica de Portugal, encontram-se os que acreditam estar para vir ainda o ciclo português da História Universal. Veneradores místicos da cultura portuguesa, elevam os nossos maiores escritores à categoria de profetas e esperam confiadamente a chegada da nova era prevista por Camões, Padre António Vieira e Fernando Pessoa. Não conhecendo limites às ambições nacionais, estão convencidos de que nos cabe a instauração de um novo período, espiritual e justo, nas relações entre os povos, conforme a profecia de Júpiter nos “Lusíadas”: “E por eles, de tudo, enfim, senhores, / Serão dadas na Terra leis melhores”.

De um tão variado caldo de culturas não pareceria possível tirar conclusões unânimes, mas a verdade é que realistas e místicos, literatos e economistas, convergem na orientação dos seus esforços, parecendo conduzidos pela voz de comando que se pode ler na “Mensagem”: “E outra vez conquistemos a distância / Do mar ou outra, mas que seja nossa”.

Entretanto, alheios a estratégias políticas, estudos eruditos, consciências sociológicas ou expectativas messiânicas, milhares de emigrantes vão espalhando pelo mundo a matéria viva de que se constitui a “arte de ser português”, na sua versão mais concreta e despida de subtilezas culturais.

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