Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
Roma e o Choque das Três Civilizações

por Jorge Azevedo Correia

Tempos houve em que a Santa Sé ditava o avanço dos grandes assuntos mundiais. A “agenda mundial” era ditada pelo ritmo de encíclicas, apologias, questões teológicas. A importância da Igreja é menor nos nossos dias, menos escutada pelos “poderes que estão”, mais questionada pelos poderes em questão.

Não interessa remexer nas razões do decréscimo do Poder da Igreja. É suficiente observar todos os ataques que esta sofre, disfarçados de notícias de jornal, de jornalismo de causas, de humanismo laico, de defesa dos direitos humanos, para verificar de que forma é o último baluarte de uma civilização que se perdeu... e que foi nossa.

A Igreja é simplesmente um trunfo demasiado apetecível para todas as propostas de civilização dos nossos dias pelo peso moral que acarreta. Poucas são as casas onde ainda se diz a palavra Verdade sem cinismo ou carácter provisório.

Nos últimos dias, porém, temos visto um exultante apoio às declarações do Papa Bento XVI por parte da “direita que temos”. Abrir um qualquer blogue “neoconservador”  ou “liberal” (as duas formas da autoproclamada “direita” a que temos direito neste Portugal) revela imediatamente um apoio fervoroso às declarações do Sumo Pontífice, tornado figura “pop” ou líder histórico de um conflito civilizacional que não existe senão em pós-modernas mitificações dos que vêem raças nas religiões ou dos que apenas no outro, e na confrontação com este, se sabem definir. A “direita” parece reocupar o seu lugar ao aliar-se à Igreja... A capacidade de criar esta doce ilusão é um feito do “marketing” e habilidade jornalística “direitista” que há muito, e muito vantajosamente, se declarou extinta.

Quem quer que se tenha dado ao trabalho de ler a palestra do Papa na Universidade de Regensburg perceberá com facilidade quem seriam os destinatários de tal prédica e não perceberá, por certo, a aclamação dos sectores da “direita moderada” sempre disposta a desfraldar as bandeiras “da liberdade de costumes” e do “estado e moral laica”.

Bento XVI não apontou o dedo a pessoas, mas a um erro presente na Civilização Islâmica e na Civilização Moderna, que se consubstancia na incapacidade de assumpção do legado filosófico e racional grego-clássico, quebrado pelo nominalismo de Guilherme de Occam e pelo movimento anti-filosófico islâmico.

Por um lado a Civilização Islâmica que fez da submissão a algo que não pode compreender (a filosofia é o instrumento que permite o entendimento) a razão última da sua existência, por outro lado a Civilização Moderna incapaz de ver unidade nas várias esferas da existência humana (como se o papel do marido, pai, cristão, trabalhador, governante, pudessem ser conflituantes entre si). Esta anarquia do Ser, apologética de contradições, não gera apenas “esquizofrenia paranóide” na identidade moral de cada um (o homem pode ser criminoso e captor de si mesmo, sem que isso represente um qualquer lapso ou erro de conduta).

O problema não se coloca apenas no domínio da moralidade pessoal, mas no domínio da moralidade pública. Que sociedade moral poderá emergir de indivíduos sem uma clara noção de Justiça?

Sobre esta problemática a “direita a que temos direito” não emitiu o seu parecer, nem lhe pareceu necessário contrariar o ataque a suas premissas desenvolvido por Bento XVI.

O ponto central da “paixoneta” da “direita” pelo Papa é a defesa dos Direitos Humanos e a posição pró-democrática que tem vindo a ser desenvolvida nos anos mais recentes. Assiste-se desta forma a uma tentativa exógena de fixação e subordinação das doutrinas cristãs ao aparato intelectual jacobino, dominado por declarações abractas, decisões duvidosas de tribunais de licitude duvidosa e instituições internacionais de forte cariz progressista ou marxizante. A maior parte das ditaduras não acabaram com a Igreja... nacionalizaram-na, subordinaram-na a parlamentos e presidentes, a princípios que não os seus, passando a dominá-la, aproveitando o factor simbólico para os seus propósitos. São esses ardorosos defensores do Papado, quem vê no Sumo Pontífice um “social-democrata vestido de branco”. São esses os que sendo “republicanos, laicos e socialistas” não hesitaram em afirmar que a eleição deste Papa representava um enorme retrocesso no caminho da Igreja Católica para o Futuro (como se este não chegasse a todo o momento às nossas vidas). Falam como se pertencessem à Igreja porque desejam que esta lhes pertença. Por acharem que esta já lhes pertence, como braço religioso do domínio do humanismo secular, estranham que o Papa considere os erros do Islão e os da sociedade laica. Onde está a surpresa de um Papa católico?

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