Ano I - Nº 1, Setembro de 2006
Alameda Digital
Dossier Portugal no Mundo
Um “herói português”, segundo Pulido Valente

por Abel Morais

Um “herói português” está condenado ao fracasso? Para Pulido Valente, se não é uma fatalidade, é uma forte probabilidade.

Um “herói português” é alguém “quixotesco”, “inadaptado” em relação ao tempo que lhe coube viver, desajustado das preocupações e prioridades dos seus compatriotas, um indivíduo sui generis. Este é um dos pontos centrais em que assenta a narrativa de Paiva Couceiro – Um Herói Português (Ed. Aletheia, 2006), biografia política de um dos elementos marcantes da geração dos militares que consolidou a presença portuguesa em África e restabeleceu o prestígio das armas nacionais naquele continente. Couceiro é, também, um dos raros militares que, a 5 de Outubro de 1910, empunha armas contra o movimento revolucionário republicano.

Paiva Couceiro fica na história de Portugal pelo seu desempenho na campanha de pacificação de Moçambique, pela breve experiência de governador-geral de Angola entre 1907-1909 (colónia onde estivera em 1889 e onde efectuara um importante reconhecimento da província a Sul e Leste), pela direcção de movimentações monárquicas no Norte de Portugal e, na fase final da sua vida, por uma atitude crítica perante Salazar. Sobre estes aspectos, a avaliação de Pulido Valente (que não refere uma única vez a data de nascimento do seu biografado) surge como essencialmente negativa, excepção feita à passagem por Angola e, de forma subtil, às tensões com a figura tutelar do Estado Novo.

Sobre a passagem em Moçambique, Pulido Valente chega a classificar como irresponsável a actuação de Couceiro ao longo da campanha, ainda que reconhecendo-lhe sangue frio e uma clara coragem física, como ficou demonstrado em vários momentos. Pulido Valente cita uma afirmação do comissário régio, António Enes, em que este classifica a vitória de Magul – em que Couceiro se distingue – como um acto do qual não resultou o ganho “de um palmo de terra”, nem de “uma posição útil”.

O autor de Paiva Couceiro – Um Herói Português estabelece um paralelo entre o comportamento em Moçambique daquele oficial e a sua posterior actuação no Norte de Portugal, em que terá demonstrado total “irresponsabilidade”, arriscando “gratuitamente a vida das suas tropas” num e noutro caso.

Da campanha de Moçambique fica, contudo, um traço do carácter de Paiva Couceiro que Pulido Valente não deixa de sublinhar. O militar nutre genuínas admiração e preocupação para com António Enes, extremando a sua atenção ao ponto de, durante a noite, lhe ir retirar as balas do revólver, receando que, refém de dúvidas, o comissário régio se sentisse tentado ao suicídio. Neste ponto, estaria presente no espírito de Couceiro o exemplo trágico do sucedido a Silva Porto, que aquele conheceu em Angola e que – num momento de tensão com as tribos do Bié e após o fracasso de uma tentativa de mediação – se suicida, fazendo explodir alguns barris de pólvora na sua habitação. Mas a preocupação com Enes era, talvez, mais profunda e genuína, raiando uma real admiração detectável num segundo exemplo citado. “Nunca, de facto, tornaria a estimar um chefe”, escreve Pulido Valente. “Com Enes, era filial”, ao visitar “Marraquexe já fortificada, Couceiro pôs-se sempre entre ele e a linha de tiro dos rebeldes na margem esquerda”, assumindo o papel de um escudo humano, num traço psicológico que remete, possivelmente, para a sua formação religiosa e para as leituras dos místicos cristãos.

Eventualmente, falta no capítulo africano de Couceiro uma maior atenção a detalhes e uma maior informação sobre o conjunto da situação nas províncias. Em especial, no caso angolano, o género telegráfico adoptado pelo autor, apesar dos elogios quase hiperbólicos que concede ao militar que dirigiu aquela província – ou por causa disso mesmo –, teria sido importante analisar de forma mais completa a actuação do governador-geral, elogiada por Norton de Matos e pelo historiador René Pélissier, citados por Pulido Valente no presente livro.

Ainda nas relações de Couceiro com África e, em especial, sobre um texto que Pulido Valente considera como central para entender o pensamento daquele – O Triângulo Estratégico e a Aliança Inglesa, de 1906– não lhe é, todavia, dedicada mais de que uma súmula, ainda que este artigo, originalmente publicada na Revista de Artilharia, seja definido como “a completa exposição” do “sonho imperial” de Paiva Couceiro.

Mas é após a proclamação da República, em Outubro de 1910, que o “herói português” se vai manifestar com os seus aspectos negativos, se considerarmos as observações de Pulido Valente. Todo o comportamento de Couceiro – por muito criticável que fosse e sê-lo-á, sem dúvida – é reduzido a umas miríficas conspirações preparadas sem meios, num ambiente lunático, incorporando voluntários e pessoal político de duvidoso valor, conspirações iniciadas sem uma real linha condutora e, aparentemente, envolvidas numa perigosa neblina estratégica. O Couceiro da época das incursões é-nos apresentado como um medíocre conspirador e mau chefe militar, que apresenta estranhas justificações para os seus actos e que parece desconhecer ou não entender a realidade política e social do país.

O que não é suficientemente problematizado é se a conjuntura nacional que se vivia desde o início do século não teria, forçosamente, de produzir um resultado daqueles. A monarquia estava desacreditada e tornara-se alvo de todas as chacotas e insultos – deixara de ser uma referência para a mobilização nacional; o exército era uma instituição desprestigiada – pouco dada a combater, segundo alguns autores, e mais dada a preocupações corporativas e à organização das carreiras políticas dos seus generais; a propaganda republicana criara uma atmosfera de terrorismo social e intelectual que tornara inevitável a ostracização de qualquer segmento político fora do seu quadro ideológico.

Pulido Valente também não é suficientemente claro sobre o que valia Couceiro. Política e intelectualmente. As suas relações com D. Manuel II, que o autor sugere nunca terem sido boas nem sintonizadas politicamente, mereciam uma explicação mais aprofundada, como mereciam também um tratamento mais exaustivo as suas influências ideológicas e a sua visão da monarquia a restaurar – ou não: “Couceiro declarou publicamente não querer a restauração da monarquia, mas apenas o fim do ‘despotismo do Governo Provisório [republicano] (…). Não por acaso, a bandeira que adoptou era a azul e branca, mas sem as armas reais” (Rui Ramos).

É dito, em diversos momentos do livro, que o Couceiro conspirador se encontrava quase sozinho, espécie de D. Quixote da monarquia, mas, em boa verdade, as ligações e o grau de mobilização que valia o nome do militar nunca é propriamente explicado. Pulido Valente tece, de alguma forma, uma atmosfera opaca em torno daquele, mas é, todavia, evidente quer em Um Herói Português, quer em outras leituras, que o conspirador da Galiza conseguia mobilizar o que era mobilizável (e as ideias não são responsáveis por aqueles que as adoptam), que tinha contactos, por poucos ou inseguros que fossem, que tinha amigos e aliados. E tudo isto é minimizado ou até reduzido à caracterização dos pinocas ou à incompetência e amadorismo conspiratório, o que parece excessivo.

Profundamente anti-britânico na época do Ultimato, aparece como claramente “anglófilo” (a expressão é de Pulido Valente) ao escrever  O Triângulo Estratégico e a Aliança Inglesa, tendência que se voltará a manifestar nos atritos com Oliveira Salazar. Pelo meio, fica “o pior da época”, quando escreve O Soldado Prático (obra dos anos 30), ainda que Pulido Valente tenha de admitir que o essencial desta tem mais a ver com a “formação da ‘alma portuguesa’, a ‘alma do criador de Império’ ou do soldado prático” do que com “o elogio genérico” aos regimes de Mussolini e Hitler.

Outro exemplo: a presença das doutrinas do Integralismo Lusitano na escrita de Couceiro é “completa”, segundo Pulido Valente, em A Monarquia Nacional, mas pouco mais é dito sobre a questão. Como também não existe nenhuma referência a detectáveis influências de Oliveira Martins em alguns aspectos das propostas de Couceiro, como as suas sugestões para as colónias ou a ideia de um salvador autoritário, sustentada por aquele em determinada época e que o militar parece tentado a tomar-se como essa incarnação da figura providencial.

O antagonismo entre o velho militar e Salazar é uma questão que merecia mais detalhe, até para se entender como algumas figuras e grupos monárquicos migraram para o Estado Novo e outros se mantiveram de fora.

O que incomoda, sobretudo, em Paiva Couceiro – Um Herói Português é o tom, por vezes, quase diletante com que se referem certos aspectos da biografia do militar e como são referidos episódios ou figuras do período. Por exemplo, menciona-se Sinel de Cordes, dizendo-se tão-só que era um desconhecido quando concorre a deputado numa lista que Couceiro também integra. Se era um desconhecido antes desta alusão, continua tão ou mais desconhecido porque nenhuma outra informação é dada sobre aquele que foi ministro das Finanças, conjurado em vários golpes militares e, designadamente, do 28 de Maio!

Fica uma dúvida: quer Pulido Valente provar que os “heróis” do passado são – e eram-no já no seu tempo – figuras serôdias e anacrónicas, “extravagantes” e ingénuas, desligadas, no caso de Couceiro, da verdadeira forma de praticar política e entender a sociedade em que se moviam? Ou que os representantes dessas outras direitas “antes do salazarismo e mesmo dentro do salazarismo”, de que fala na introdução ao título em apreço, nunca tiveram competência política e capacidade de acção para influenciar o que quer que fosse ou pudesse ter sido decisivo? Que as suas referências ideológicas e a sua actividade e mobilização estavam, inexoravelmente, minadas pela construção doutrinária e pela actuação de Oliveira Salazar? – Mas nem isto é pensado além de umas banalidades sobre a visão do mundo de Salazar, que caberia “perfeitamente entre Coimbra e o Vimieiro”, mais o “meio século de imobilidade, isolamento e miséria” a que aquele teria obrigado Portugal. É uma conclusão de vulgata adequada ao receio de analisar o Estado Novo – nas suas diferentes épocas e circunstâncias internas e externas – que fica bem no actual estado das ideias em Portugal.

Para um historiador, é pouco.

Vasco Pulido Valente
Ano de Edição: 2006
ISBN: 9896220417

Um Herói Português
Henrique Paiva Couceiro (1861-1944)


Editora: Alêtheia Editores


 

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