Uma língua com futuro?
por Pedro Guedes da Silva
Terminados na História - com excepção de uma ou outra aventura norte-americana - os períodos das grandes conquistas territoriais, o repensar dos elementos da Geopolítica e do interesse real dos Estados aqui entendido no âmbito das balizas da realpolitik, se aplicado ao caso português, facilmente colocará a promoção e o ensino da língua portuguesa no mundo em lugar de destaque no capítulo das grandes opções estratégicas nacionais, pelo retorno que tal empresa pode trazer dentro de anos, seja em influência, em visibilidade, em resultados económicos ou mesmo como mero elemento de conforto à que foi em tempos idos entendida como missão civilizadora de Portugal no mundo.
Isto constatado, e não me parecendo ser temática de grande controvérsia, julgo ser igualmente pacífico considerar que Portugal tem neste propósito ainda um longo caminho a percorrer. Com efeito, basta conhecer a estratégia espanhola nesta área – com a acção do Instituto Cervantes e dos seus “centros-modelo”, projecto caríssimo mas que dá inequivocamente frutos -, para considerar que entrámos na corrida com umas quantas voltas de atraso. Entregue a uma lógica que tudo submete ao mercado, o país está pouco disponível para grandes missões que não se traduzam no imediato em mais matéria e dificilmente compreende o sentido de oportunidade de reforçar orçamentos para o ensino da língua - já de si tão maltratada por cá.
Ora, não se afigurando possível aumentar os meios disponíveis, nomeadamente o instrumento orçamental, seria ao menos essencial, como facilmente se compreende, estabelecer uma estratégia clara, rentabilizar as ferramentas existentes – usando-as e, sobretudo, colocar todos os envolvidos a remar para o mesmo lado; mas, originais que fazemos por ser, colocamos antes pequenas pedras no caminho, sabiamente deitadas aqui e ali para que quase tudo fique na mesma.
E é exactamente neste quadro que vamos tomando conhecimento de que nem quanto à estratégia a seguir há entendimentos suficientes, com representantes de professores e das comunidades portuguesas a denunciar a existência de uma guerra surda entre os ministérios da Educação e dos Negócios Estrangeiros. Ao que parece, se o ensino do português no estrangeiro é competência do ME, já a promoção da língua no mundo é tutelada pelas Necessidades, através do Instituto Camões – e se o MNE quer ficar com tudo, a Educação faz por manter o que ainda possui. No meio desta confusão tipicamente nossa, por certo arquitectada por técnicos competentíssimos directamente saídos de uma qualquer jota partidária, onde haveria lugar a uma visão de conjunto e a cruzar experiência e competências em vista de melhores resultados, tenta separar-se administrativamente o que naturalmente se interliga, posto que na realidade o português – ou qualquer outra língua - se ensina de múltiplas formas e no âmbito de mais do que uma tutela: seja através do ensino do português como segunda língua estrangeira no ensino secundário dos programas oficias dos nossos parceiros europeus, seja pela existência de “colégios portugueses”, seja nas universidades estrangeiras ou pela realização de cursos específicos de “português oral para negócios” que eventualmente o Instituto Camões possa vir a promover num qualquer canto mais discreto da Ásia. No meio desta confusão de competências que se anulam ao invés de se somarem, imagino que já existam por cá umas quantas comissões de sábios a estudar novas alterações e ajustamentos aos quadros normativos recém-alterados. É quase sempre assim. De caminho, enquanto nós divagamos, discutimos, apreciamos e votamos na especialidade, nuestros hermanos vão fazendo o seu serviço, chegando cada vez mais insistentemente relatos de que marcam pontos inclusivamente nas nossas tradicionais áreas de influência, que é como quem diz: os cães ladram e a caravana passa.
Os resultados, esses, estão à vista. Aqui há dias, numa revista cor de rosa dessas que nos chegam às mãos numa qualquer sala de espera, dizia a este respeito o Senhor D. Duarte:
“Há falhas perigosas. Em Timor, Guiné Bissau e Moçambique, a língua está em risco por um motivo muito simples. No há livros. Através da Fundação D. Manuel II, instalei uma tipografia em Baucau, em Timor. Que eu saiba, nunca foi usada pela Embaixada portuguesa. Só pela União Europeia, para produzir livros em tectum, e pela Austrália, que os edita em inglês.”
Lido o testemunho, verificado o desleixo, parece-me não ser necessário dizer muito mais. |