Acabemos de vez com
este tradicionalismo
por Manuel Azinhal
Surge-nos
frequentemente um tradicionalismo que revela uma curiosa similitude
com o progressismo, a que constitui uma espécie de contraponto
simétrico. Reproduz no entanto o mesmo esquema mental na visão
da história e das sociedades humanas, invertendo os termos
valorativos. Para uns o bom está no fim, para outros estava no
princípio. Para uns temos caminhado sempre no rumo de um
futuro radioso, para outros temos caído cada vez mais fundo,
degrau a degrau.
Estes tradicionalistas
caracterizam-se pela crença numa mítica tradição
concebida como uma idade do ouro primordial, de que a civilização
mais e mais se foi afastando, em consequência de uma queda
ocorrida em momento incerto do passado. A decadência resultou
do abandono da tradição, e tudo na nossa época
sofre com esse afastamento. Atingimos assim uma idade das trevas, que
teremos que suportar até que chegue o fim do ciclo.
Consequentemente,
perante essa predeterminação dos tempos, o que cada um
deve fazer é preocupar-se com o espiritual, o aperfeiçoamento
interior, a imunização contra o espírito do
tempo. Chega-se assim ao elogio da contemplação não
se sabe bem de quê, e ao desprezo de toda a acção,
tida de antemão como inútil.
Os progressistas, em
geral nascidos do viveiro de milenarismos e profetismos que assolaram
a Europa bem antes de se terem revestido das roupagens racionalistas
e científicas com que se adornam, também acreditam na
existência de um sentido da história, subjacente à
marcha da humanidade. Para eles as sociedades humanas caminham
inelutavelmente na via do progresso, entendido como um avançar
constante rumo a um qualquer paraíso terreno. É
flagrante o paralelismo com o pensamento tradicionalista mencionado –
vendo uns no fim da linha o que os outros colocam no início.
Nota-se todavia um
óbvio ilogismo no comportamento dos progressistas. É
que se acreditam no carácter inevitável da marcha da
história seria de esperar que se poupassem a esforços,
e nada fizessem para influenciar o seu
andamento. Se tudo está fatalmente destinado a acontecer de
forma previamente determinada, segundo leis que são
cognoscíveis mas que não estão dependentes das
vontades dos sujeitos, então o melhor seria esperar sentados.
Reside neste ponto a minha principal perplexidade perante o frenesim
dos crentes no materialismo histórico, por exemplo. Mas,
diga-se a verdade, não são eles os únicos
militantes. Em geral os progressistas sempre arderam de zelo em fazer
o que podem pela aproximação das sociedades aos ideais
que eles mesmos conceberam como representando o tal aperfeiçoamento
progressivo que traduziria a marcha inevitável da humanidade.
Talvez tenham falta de confiança no prognóstico, mas
não lhes tem faltado historicamente o empenho em fazer
coincidir a realidade com os desejos.
Diferentemente, os
tradicionalistas que comecei por referir adoptam uma atitude muito
mais lógica. Se tudo tem que ser assim, deixemos que aconteça.
Não está na nossa mão. Esperemos sentados.
A atitude é mais
lógica, mas causa no plano político a maior das
impotências. A bem dizer, indiferença assumida ou
simplesmente lamentosa. A verdade é que essa atitude mental
acarreta a passiva aceitação do que está, a
capitulação fatalista perante todos os males que se
apontam.
É preciso
reconhecer os graves danos que semelhante filosofia provoca nas
fileiras que deviam ser as nossas, aproveitando a crise de confiança
nos próprios valores que fizeram a glória do Ocidente.
O pessimismo desmobilizador, o derrotismo, o individualismo paradoxal
dos seus seguidores, redundam na descrença radical perante o
combate político.
Importa desmascarar a
superficialidade desse pretensioso tradicionalismo, que mais não
é do que uma vulgata de certas correntes orientais, obviamente
mal digeridas, por vezes baseadas em leituras apressadas de alguns
autores que mereciam melhor sorte. É um orientalismo de bazar,
semelhante a tantos que invadiram o Ocidente.
A posição
criticada é incompatível com a tradição
ocidental, para quem a acção do homem é que
modela o mundo. O valor de um homem ou de uma cultura está nas suas
realizações, não nalguma obscura essência
metafísica. É pela construção histórica
concreta que temos que combater. Precisamos de homens de pensamento e
de homens de acção, e ainda mais daqueles que reunirem
as duas qualidades. O modelo do sábio oriental não é
o nosso. A reflexão não pode ser o pretexto para um
exercício gratuito, meramente contemplativo, desligado de toda
a acção transformadora do mundo, construtora de cultura
e de história.
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