O ataque à Igreja
por João José Brandão Ferreira*
Tenho vindo a afirmar há já basto
tempo que o mais importante na vida das Nações são
as ideias.
Estas são o verdadeiro motor da Sociedade.
O dinheiro, que um número cada vez maior de pessoas põe
à cabeça de tudo, segue as ideias e não estas
aquele.
A ideia, ainda hoje mais forte é a
religiosa e o terrorismo de cariz fundamentalista aí está
para desenganar os mais incautos.
Na Europa Cristã o ataque ao Poder
Temporal dos Papas, desenvolveu-se a partir dos tempos medievos e a
preocupação com as heresias foi sempre uma constante.
Até que a cristandade ocidental se cindiu após Lutero e
Calvino.
Mais, foi sobretudo a partir do século
XVIII com a introdução das ideias racionalistas e
iluministas que o ataque à Igreja se alargou no ataque à
própria religião.
A propagação destas ideias passou a
ter um movimento uniformemente acelerado a partir da Revolução
Francesa e acabou no assalto aos Estados Pontifícios, por
Victor Emanuel II, após a ocupação de Roma em
20/9/1870. Todo este ideário tinha sido rapidamente
transportado para o continente americano (onde a revolta das 13
colónias britânicas antecedeu os eventos de 1789, em
França, sendo catalizadores dos movimentos de independência
na América Central e Sul. O Papa perdeu definitivamente todo o
resquício de Poder Temporal e ficou confinado ao Estado do
Vaticano. Os países da Europa do Sul, onde se concentrava o
apoio maior à Igreja, foram os mais atacados, sendo as
monarquias derrubadas uma a uma, ao contrário do que acontecia
na Europa do Norte.
A Maçonaria moderna que deu à luz
em Londres, no ano de 1717 foi o principal veículo de
disseminação destas ideias pelo mundo, através
das suas lojas. Tal facto levou a que alguns Papas tivessem lançado
interditos e excomunhões sobre os maçons, tornando
incompatível a associação dos dois termos maçon
e católico, o que se mantém nos dias de hoje.
Portugal não ficou imune, muito antes pelo
contrário, ao que atrás se referiu. O nosso país
tinha sido um campeão da reconquista cristã e onde os
ideais de cruzada tinham permanecido até mais tarde. Durante
séculos exportámos a Doutrina de Cristo para as quatro
partes do mundo e chegámos até, a professar um modelo
lusitano de Cristianismo, o Culto do Espírito Santo, que tem
reminiscencias nos dias de hoje. Mas tal veio a modificar-se no
reinado de D. João III, com a reforma das Ordens Militares, a
introdução da Inquisição e do Tribunal do
Santo Ofício. E quando se dá a Contra Reforma, são
sobretudo teólogos espanhóis e portugueses que a
lideram.
Tais factos voltaram contra nós judeus,
reformadores e calvinistas, que razões de inveja histórica
e esbulho económico, potenciavam.
O primeiro embate sério deu-se entre
Pombal e os Jesuítas o que levou à expulsão
destes de Portugal em3/9/1759 (não esquecendo o Brasil onde a
Companhia tinha enorme influência), e os conluios
internacionais levaram mesmo o Papa a interditar a Companhia de
Jesus.
Pombal tinha sido iniciado na Maçonaria
aquando da sua estadia como embaixador em Viena de Áustria e
deu grande impulso à disseminação das ideias
“avançadas” e das lojas, em Portugal.
Não é por acaso que sendo o
representante em Portugal do “Despotismo Esclarecido” e do Poder
Absoluto do Rei, lhe tenham inaugurado, em 13/5/1934 , a maior
estátua que existe entre nós, encimando a Avenida
chamada da Liberdade.
Com a Viradeira – nome por que ficou conhecido
o reinado de D. Maria I -, Pombal caíu em desgraça e
Pina Manique perseguiu as lojas e os maçons. O susto que a
Corte apanhou com as notícias que lhe chegavam de Paris,
nomeadamente a guilhotina de Luís XVI, incentivou os cuidados
e a repressão.
Mas tudo viria a mudar com as invasões
francesas. A Família Real retirou estrategicamente para o Rio
de Janeiro e deu ordens para não se atacar os franceses. Mas
uma deputação da maçonaria foi recebê-los
às portas de Lisboa, como libertadores...
O povo revoltou-se, entretanto, e os interesses
ingleses fizeram o resto. Os franceses foram expulsos mas o país
ficou destruído. E as sementes revolucionárias ficaram.
Com a Corte distraída no remanso
brasileiro, à segunda vez a revolução liberal
triunfou no Porto. Estava-se em 1820. A revolta tinha sido cozinhada
numa loja maçónica chamada “O Sinédrio”. O
Rei voltou à pressa mas nunca mais conseguiu liderar os
acontecimentos. Jurou-se uma Constituição, a primeira,
em 1822, e o Rei deixou de governar. O país não estava
preparado para tantas novidades e o grito do Ipiranga, preparado pela
maçonaria brasileira, que tinha cativado o Príncipe
herdeiro, D. Pedro, piorou as coisas. O país dividiu-se e
começou uma balbúrdia enorme que degenerou numa guerra
civil intermitente (e nomeadamente entre a maçonaria inglesa
inicialmente encabeçada pelo Duque de Palmela, e a maçonaria
francesa onde pontuava o conde de Subserra e mais tarde o Marechal
Saldanha), que durou até 1926, mas só estabilizou a
partir da Constituição de 1933. Com o fim da guerra
civil mais cruenta que em Portugal já houve, em 1834,
abateu-se sobre a Igreja e as Ordens Religiosas um ataque em forma
que perdurou, com nuances, até à queda da Monarquia, em
1910 e que explodiu numa onda de anticlericalismo nos 16 anos
seguintes. Só a Concordata e o Acordo Missionário
assinados em 1940, devolveram a paz religiosa à Terra de Santa
Maria.
Após o Golpe de Estado ocorrido em
25/4/1974, e apesar do desvario que se lhe seguiu, a paz religiosa
não foi beliscada tendo aparentemente as forças mais
radicais se abstido de cometer os mesmos erros de épocas
passadas.
A luta
surda, porém, nunca parou, mas passou a revestir-se de formas
mais sofisticadas. E havia outras prioridades.
Em primeiro lugar foi preciso bater o Partido
Comunista que juntamente com a Igreja é mutuamente exclusivo;
depois foi preciso um esforço grande de reorganização
e recrutamento, dado que a acção do Estado Novo abalara
profundamente a estrutura das forças referidas.
Foi preciso ocupar lugares sobretudo na
Universidade, na Justiça, nos Media, nas Forças Armadas
e nos Serviços de Informação.
E durante 10 anos foi necessário fazer
face ao descalabro financeiro e urgentemente meter o país na
CEE. Ou, melhor dizendo, meter a CEE em nós.
A Igreja amolecida por 40 anos de sossego, que
casos pontuais não perturbaram, e passado o susto do PREC ,
ficou a ver o filme a correr.
Eis senão quando, as condições
se alteram permitindo aos herdeiros mais directos de Joaquim Augusto
de Aguiar (o mata frades) e de Afonso Costa (que bolsou querer acabar
com a religião católica numa geração), um
novo ataque em forma. É o que está a acontecer.
Há duas razões para isto, ao que
cremos. Em primeiro lugar o Partido Socialista – onde se concentra
a grande maioria dos filantropos antes citados teve,
finalmente, uma maioria absoluta.
E é bom não esquecer que da última
vez que tinham conseguido ser governo, o seu secretário geral
se assumia como católico.
A
segunda razão tem a ver com a aproximação a
passos largos do centenário da proclamação da
República e tal facto há-de ter que ser comemorado com
vistoso foguetório.
E como
os actuais obreiros livres da pedra não vão querer
ficar atrás dos seus correligionários que, aliás,
melhor usaram o fusil e a bomba, que o esquadro e o compasso,
começaram há muito a desdobrar-se em actividade.
A principal das quais é a instituição
do “relativismo moral”, que teve um ponto alto de implantação
desde que se liberalizaram os canais de televisão (lembram-se
que a primeira entidade a se posicionar para ter um, foi a Igreja e
ficou a vê-lo por um canudo?)
O segundo, é a destruição da
família tradicional (a insistência no referendo do
aborto, por exemplo, não é por acaso), no que têm
sido ajudados extraordinariamente pela rapaziada adepta do Maio de
68, em França e afins.
E, nos últimos anos ocorreram uma sucessão
de eventos aparentemente desgarrados no espaço e no tempo. Mas
só aparentemente. Vamos dar alguns exemplos.
No dia 20 de Outubro de 2003, foi inaugurado o
busto do Grão Mestre Gomes Freire de Andrade ,
no pequeno jardim existente na rua com o seu nome. O Exército
emprestou à cerimónia um pelotão de cadetes e o
Comandante do Corpo de Alunos.
A Concordata de 1940, foi revista durante anos e
finalmente aprovado um novo texto em 18/12/2004. Daí para cá
praticamente nada foi regulado, mas a Igreja só agora começou
a denunciar o facto. Timidamente…
Em 12/11/2005, por ocasião do Congresso
para a nova Evangelização, a Igreja promoveu uma
procissão com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima,
em Lisboa, o que já não acontecia desde 1959. O evento,
apesar do mau tempo que se fez sentir, foi um sucesso juntando
centenas de milhares de fiéis.
No dia seguinte (!), foi decretado pelo Governo a
proibição dos crucifixos nas Escolas. Coincidência?
Ao que se apurou foram contabilizadas 12 escolas públicas onde
restavam crucifixos…
O ataque à relação da Igreja
com a sociedade tem, outrosim aumentado: a sua intervenção
de âmbito social é cada vez mais delimitada; as
facilidades à imprensa regional – onde a Igreja tem grande
implantação, são cerceadas; o número de
capelães militares não pára de diminuir; as
escolas de ensino católicas são olhadas de soslaio,
tendo a campanha culminado agora com as incríveis regras com
que se pretendem agrilhoar a acção dos capelães
hospitalares. Pouco antes tinha sido nomeado para Presidente de uma
obscura Comissão da Liberdade Religiosa, o cidadão Mário Soares.
O Dr. António Reis, actual Grão
Mestre, afirmou num recente colóquio sobre as intervenções
militares contra o Estado Novo – o que se julga ser a primeira vez
que tal acontece em público, que Carmona e outros conhecidos
maçons que colaboraram com o regime instaurado por Salazar,
foram como que banidos do grémio. Há poucos dias, numa
reportagem da TVI (grupo Prisa) sobre a Maçonaria, justificou
a manutenção do sigilo sobre a identidade dos membros
da agremiação com o argumento de que a mesma é
ainda hoje perseguida pela Igreja?!
Já há dois anos, contudo, o
Parlamento tinha votado uma nova Lei sobre o Protocolo do Estado,
onde se deu clara preferência a cargos eleitos por sufrágio
directo em detrimento das instituições nacionais. Nela
saíram diminuídas as Forças Armadas, a
Magistratura, a Diplomacia e a Igreja. O herdeiro da Casa Real passou
a ilustre desconhecido.
No entanto, o grande escritor Aquilino Ribeiro,
em tempos afamado carbonário e “compagnon de route” do
Costa e do Buiça ,
foi transladado há poucas semanas, com pompa e circunstância
para o Panteão Nacional. O elogio foi feito pelo celebrado
jornalista António Valdemar, ao que consta, grau 33 do GOL.
Tem sido curioso assistir à estratégia
do Primeiro Ministro; recém chegado a estas lides, tem sido
hábil. Obrigado a gerir equilíbrios, dentro do PS vai
governando economicamente à Direita para contentar os
moderados e porque o estado das finanças não permite
mais demagogia; e entrega a gestão dos costumes e da ideologia
à esquerda para satisfazer os mais canhotos. Quando se trata
de pôr em prática algo mais ousado, manda primeiro barro
à parede misturado com algum fumo de camuflagem, para testar
reacções. Em seguida aparece um “cão de fila”
qualquer a dar a cara. Se a reacção é mais
forte, deixa desgastar o dito testa de ferro e quando acha oportuno
intervém e passa a dialogante e promotor de compromissos, onde
se tenta recuar no acessório sem abrir mão do
essencial.
A
hierarquia da Igreja já mordeu este anzol várias vezes.
Aliás andam tão distraídos
que até se deixaram surpreender, há meses atrás,
por uma cerimónia maçónica à porta
fechada, dentro da Basílica da Estrela, aquando do funeral de
um irmão ilustre …
As
ideias, de facto, andam à frente. Mas é preciso
assumi-las, defendê-las e propagá-las.
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[1] A primeira condenação da Maçonaria
foi feita através da Bula “In eminenti”, de28/4/1738,do
Papa ClementeXII, confirmada pela Bula “Providas”de 20/4/1880,do
Papa Leão XIII.A posição actual da Igreja está
expressa nos canones 684, 2335 e 2336 do C.I.C. [voltar]
[2] A primeira Loja foi fundada em Lisboa,em
1733,pelo escocês Gordon. [voltar]
[3] O Governo proibiu todas as “sociedades
secretas”,em 1935. [voltar]
[4] Processo Revolucionário em Curso [voltar]
[5] Conhecido, na gíria, como os “suissante huitards”. [voltar]
[6]
General, vulto proeminente da Revolta Liberal, em 1817. Foi
enforcado em S. Julião da Barra. [voltar]
[7]
Citoyen, no francês. [voltar]
[8]
Autores materiais do assassínio do Rei D. Carlos I e do
Príncipe D. Luís Filipe, em 1 de Fevereiro de 1908. [voltar]
[9]
Grande Oriente Lusitano. O grau 33 é o mais elevado (que se
conhece), no Rito Escocês Antigo e Aceite, a que os maçons
podem atingir. [voltar]
[10] É de salientar que a viúva desse
ilustre irmão, o Dr. Nunes de Almeida, afilhados enquanto
casal de Melo Antunes, é actualmente adjunto do Secretário
de Estado Adjunto do Ministro da Administração
Interna, respectivamente José Magalhães e Rui Pereira. [voltar]
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* TCor/Pilav (Ref) |