Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Tradição e Modernidade
O ataque à Igreja

por João José Brandão Ferreira*

Tenho vindo a afirmar há já basto tempo que o mais importante na vida das Nações são as ideias.

Estas são o verdadeiro motor da Sociedade. O dinheiro, que um número cada vez maior de pessoas põe à cabeça de tudo, segue as ideias e não estas aquele.

A ideia, ainda hoje mais forte é a religiosa e o terrorismo de cariz fundamentalista aí está para desenganar os mais incautos.

Na Europa Cristã o ataque ao Poder Temporal dos Papas, desenvolveu-se a partir dos tempos medievos e a preocupação com as heresias foi sempre uma constante. Até que a cristandade ocidental se cindiu após Lutero e Calvino.

Mais, foi sobretudo a partir do século XVIII com a introdução das ideias racionalistas e iluministas que o ataque à Igreja se alargou no ataque à própria religião.

A propagação destas ideias passou a ter um movimento uniformemente acelerado a partir da Revolução Francesa e acabou no assalto aos Estados Pontifícios, por Victor Emanuel II, após a ocupação de Roma em 20/9/1870. Todo este ideário tinha sido rapidamente transportado para o continente americano (onde a revolta das 13 colónias britânicas antecedeu os eventos de 1789, em França, sendo catalizadores dos movimentos de independência na América Central e Sul. O Papa perdeu definitivamente todo o resquício de Poder Temporal e ficou confinado ao Estado do Vaticano. Os países da Europa do Sul, onde se concentrava o apoio maior à Igreja, foram os mais atacados, sendo as monarquias derrubadas uma a uma, ao contrário do que acontecia na Europa do Norte.

A Maçonaria moderna que deu à luz em Londres, no ano de 1717 foi o principal veículo de disseminação destas ideias pelo mundo, através das suas lojas. Tal facto levou a que alguns Papas tivessem lançado interditos e excomunhões sobre os maçons, tornando incompatível a associação dos dois termos maçon e católico, o que se mantém nos dias de hoje.

Portugal não ficou imune, muito antes pelo contrário, ao que atrás se referiu. O nosso país tinha sido um campeão da reconquista cristã e onde os ideais de cruzada tinham permanecido até mais tarde. Durante séculos exportámos a Doutrina de Cristo para as quatro partes do mundo e chegámos até, a professar um modelo lusitano de Cristianismo, o Culto do Espírito Santo, que tem reminiscencias nos dias de hoje. Mas tal veio a modificar-se no reinado de D. João III, com a reforma das Ordens Militares, a introdução da Inquisição e do Tribunal do Santo Ofício. E quando se dá a Contra Reforma, são sobretudo teólogos espanhóis e portugueses que a lideram.

Tais factos voltaram contra nós judeus, reformadores e calvinistas, que razões de inveja histórica e esbulho económico, potenciavam.

O primeiro embate sério deu-se entre Pombal e os Jesuítas o que levou à expulsão destes de Portugal em3/9/1759 (não esquecendo o Brasil onde a Companhia tinha enorme influência), e os conluios internacionais levaram mesmo o Papa a interditar a Companhia de Jesus.

Pombal tinha sido iniciado na Maçonaria aquando da sua estadia como embaixador em Viena de Áustria e deu grande impulso à disseminação das ideias “avançadas” e das lojas, em Portugal.

Não é por acaso que sendo o representante em Portugal do “Despotismo Esclarecido” e do Poder Absoluto do Rei, lhe tenham inaugurado, em 13/5/1934 , a maior estátua que existe entre nós, encimando a Avenida chamada da Liberdade.

Com a Viradeira – nome por que ficou conhecido o reinado de D. Maria I -, Pombal caíu em desgraça e Pina Manique perseguiu as lojas e os maçons. O susto que a Corte apanhou com as notícias que lhe chegavam de Paris, nomeadamente a guilhotina de Luís XVI, incentivou os cuidados e a repressão.

Mas tudo viria a mudar com as invasões francesas. A Família Real retirou estrategicamente para o Rio de Janeiro e deu ordens para não se atacar os franceses. Mas uma deputação da maçonaria foi recebê-los às portas de Lisboa, como libertadores...

O povo revoltou-se, entretanto, e os interesses ingleses fizeram o resto. Os franceses foram expulsos mas o país ficou destruído. E as sementes revolucionárias ficaram.

Com a Corte distraída no remanso brasileiro, à segunda vez a revolução liberal triunfou no Porto. Estava-se em 1820. A revolta tinha sido cozinhada numa loja maçónica chamada “O Sinédrio”. O Rei voltou à pressa mas nunca mais conseguiu liderar os acontecimentos. Jurou-se uma Constituição, a primeira, em 1822, e o Rei deixou de governar. O país não estava preparado para tantas novidades e o grito do Ipiranga, preparado pela maçonaria brasileira, que tinha cativado o Príncipe herdeiro, D. Pedro, piorou as coisas. O país dividiu-se e começou uma balbúrdia enorme que degenerou numa guerra civil intermitente (e nomeadamente entre a maçonaria inglesa inicialmente encabeçada pelo Duque de Palmela, e a maçonaria francesa onde pontuava o conde de Subserra e mais tarde o Marechal Saldanha), que durou até 1926, mas só estabilizou a partir da Constituição de 1933. Com o fim da guerra civil mais cruenta que em Portugal já houve, em 1834, abateu-se sobre a Igreja e as Ordens Religiosas um ataque em forma que perdurou, com nuances, até à queda da Monarquia, em 1910 e que explodiu numa onda de anticlericalismo nos 16 anos seguintes. Só a Concordata e o Acordo Missionário assinados em 1940, devolveram a paz religiosa à Terra de Santa Maria.

Após o Golpe de Estado ocorrido em 25/4/1974, e apesar do desvario que se lhe seguiu, a paz religiosa não foi beliscada tendo aparentemente as forças mais radicais se abstido de cometer os mesmos erros de épocas passadas.

A luta surda, porém, nunca parou, mas passou a revestir-se de formas mais sofisticadas. E havia outras prioridades.

Em primeiro lugar foi preciso bater o Partido Comunista que juntamente com a Igreja é mutuamente exclusivo; depois foi preciso um esforço grande de reorganização e recrutamento, dado que a acção do Estado Novo abalara profundamente a estrutura das forças referidas.

Foi preciso ocupar lugares sobretudo na Universidade, na Justiça, nos Media, nas Forças Armadas e nos Serviços de Informação.

E durante 10 anos foi necessário fazer face ao descalabro financeiro e urgentemente meter o país na CEE. Ou, melhor dizendo, meter a CEE em nós.

A Igreja amolecida por 40 anos de sossego, que casos pontuais não perturbaram, e passado o susto do PREC, ficou a ver o filme a correr.

Eis senão quando, as condições se alteram permitindo aos herdeiros mais directos de Joaquim Augusto de Aguiar (o mata frades) e de Afonso Costa (que bolsou querer acabar com a religião católica numa geração), um novo ataque em forma. É o que está a acontecer.

Há duas razões para isto, ao que cremos. Em primeiro lugar o Partido Socialista – onde se concentra a grande maioria dos filantropos antes citados teve, finalmente, uma maioria absoluta.

E é bom não esquecer que da última vez que tinham conseguido ser governo, o seu secretário geral se assumia como católico.

A segunda razão tem a ver com a aproximação a passos largos do centenário da proclamação da República e tal facto há-de ter que ser comemorado com vistoso foguetório.

E como os actuais obreiros livres da pedra não vão querer ficar atrás dos seus correligionários que, aliás, melhor usaram o fusil e a bomba, que o esquadro e o compasso, começaram há muito a desdobrar-se em actividade.

A principal das quais é a instituição do “relativismo moral”, que teve um ponto alto de implantação desde que se liberalizaram os canais de televisão (lembram-se que a primeira entidade a se posicionar para ter um, foi a Igreja e ficou a vê-lo por um canudo?)

O segundo, é a destruição da família tradicional (a insistência no referendo do aborto, por exemplo, não é por acaso), no que têm sido ajudados extraordinariamente pela rapaziada adepta do Maio de 68, em França e afins.

E, nos últimos anos ocorreram uma sucessão de eventos aparentemente desgarrados no espaço e no tempo. Mas só aparentemente. Vamos dar alguns exemplos.

No dia 20 de Outubro de 2003, foi inaugurado o busto do Grão Mestre Gomes Freire de Andrade, no pequeno jardim existente na rua com o seu nome. O Exército emprestou à cerimónia um pelotão de cadetes e o Comandante do Corpo de Alunos.

A Concordata de 1940, foi revista durante anos e finalmente aprovado um novo texto em 18/12/2004. Daí para cá praticamente nada foi regulado, mas a Igreja só agora começou a denunciar o facto. Timidamente…

Em 12/11/2005, por ocasião do Congresso para a nova Evangelização, a Igreja promoveu uma procissão com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, o que já não acontecia desde 1959. O evento, apesar do mau tempo que se fez sentir, foi um sucesso juntando centenas de milhares de fiéis.

No dia seguinte (!), foi decretado pelo Governo a proibição dos crucifixos nas Escolas. Coincidência? Ao que se apurou foram contabilizadas 12 escolas públicas onde restavam crucifixos…

O ataque à relação da Igreja com a sociedade tem, outrosim aumentado: a sua intervenção de âmbito social é cada vez mais delimitada; as facilidades à imprensa regional – onde a Igreja tem grande implantação, são cerceadas; o número de capelães militares não pára de diminuir; as escolas de ensino católicas são olhadas de soslaio, tendo a campanha culminado agora com as incríveis regras com que se pretendem agrilhoar a acção dos capelães hospitalares. Pouco antes tinha sido nomeado para Presidente de uma obscura Comissão da Liberdade Religiosa, o cidadão Mário Soares.

O Dr. António Reis, actual Grão Mestre, afirmou num recente colóquio sobre as intervenções militares contra o Estado Novo – o que se julga ser a primeira vez que tal acontece em público, que Carmona e outros conhecidos maçons que colaboraram com o regime instaurado por Salazar, foram como que banidos do grémio. Há poucos dias, numa reportagem da TVI (grupo Prisa) sobre a Maçonaria, justificou a manutenção do sigilo sobre a identidade dos membros da agremiação com o argumento de que a mesma é ainda hoje perseguida pela Igreja?!

Já há dois anos, contudo, o Parlamento tinha votado uma nova Lei sobre o Protocolo do Estado, onde se deu clara preferência a cargos eleitos por sufrágio directo em detrimento das instituições nacionais. Nela saíram diminuídas as Forças Armadas, a Magistratura, a Diplomacia e a Igreja. O herdeiro da Casa Real passou a ilustre desconhecido.

No entanto, o grande escritor Aquilino Ribeiro, em tempos afamado carbonário e “compagnon de route” do Costa e do Buiça, foi transladado há poucas semanas, com pompa e circunstância para o Panteão Nacional. O elogio foi feito pelo celebrado jornalista António Valdemar, ao que consta, grau 33 do GOL.

Tem sido curioso assistir à estratégia do Primeiro Ministro; recém chegado a estas lides, tem sido hábil. Obrigado a gerir equilíbrios, dentro do PS vai governando economicamente à Direita para contentar os moderados e porque o estado das finanças não permite mais demagogia; e entrega a gestão dos costumes e da ideologia à esquerda para satisfazer os mais canhotos. Quando se trata de pôr em prática algo mais ousado, manda primeiro barro à parede misturado com algum fumo de camuflagem, para testar reacções. Em seguida aparece um “cão de fila” qualquer a dar a cara. Se a reacção é mais forte, deixa desgastar o dito testa de ferro e quando acha oportuno intervém e passa a dialogante e promotor de compromissos, onde se tenta recuar no acessório sem abrir mão do essencial.

A hierarquia da Igreja já mordeu este anzol várias vezes.

Aliás andam tão distraídos que até se deixaram surpreender, há meses atrás, por uma cerimónia maçónica à porta fechada, dentro da Basílica da Estrela, aquando do funeral de um irmão ilustre

As ideias, de facto, andam à frente. Mas é preciso assumi-las, defendê-las e propagá-las.

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[1] A primeira condenação da Maçonaria foi feita através da Bula “In eminenti”, de28/4/1738,do Papa ClementeXII, confirmada pela Bula “Providas”de 20/4/1880,do Papa Leão XIII.A posição actual da Igreja está expressa nos canones 684, 2335 e 2336 do C.I.C. [voltar]

[2] A primeira Loja foi fundada em Lisboa,em 1733,pelo escocês Gordon. [voltar]

[3] O Governo proibiu todas as “sociedades secretas”,em 1935. [voltar]

[4] Processo Revolucionário em Curso [voltar]

[5] Conhecido, na gíria, como os “suissante huitards”. [voltar]

[6] General, vulto proeminente da Revolta Liberal, em 1817. Foi enforcado em S. Julião da Barra. [voltar]

[7] Citoyen, no francês. [voltar]

[8] Autores materiais do assassínio do Rei D. Carlos I e do Príncipe D. Luís Filipe, em 1 de Fevereiro de 1908. [voltar]

[9] Grande Oriente Lusitano. O grau 33 é o mais elevado (que se conhece), no Rito Escocês Antigo e Aceite, a que os maçons podem atingir. [voltar]

[10] É de salientar que a viúva desse ilustre irmão, o Dr. Nunes de Almeida, afilhados enquanto casal de Melo Antunes, é actualmente adjunto do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna, respectivamente José Magalhães e Rui Pereira. [voltar]

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* TCor/Pilav (Ref)

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