O Bispo Januário deu uma Entrevista
por João J.Brandão Ferreira*
É sempre um
acontecimento, tão de prever quanto raramente existe outra
figura da hierarquia da Igreja que apareça em público
com semelhante estatuto. Porque será?
O que diz desta vez
sua Excelência Reverendíssima? Isto: dá tiros nos
pés; ataca os seus pares: critica o(s) Papa(s);estende-se por
irrelevâncias e contradições e constitui-se em
revolta contra a Igreja a que pertence.
No que, aliás; foi
aplaudido pelo oráculo/comentador Marcelo R. S., logo no dia
seguinte... Muito curioso.
Estou dizendo tudo
isto aproveitando o que diz S.Exª sobre os “silêncios”
da Igreja: ”prefiro a ruptura, a discussão.Espero
frontalidade, mas habitualmente o que se usa é o truque, a
hipocrisia”.
Pois aqui me tem na
frontalidade e só espero que se entenda (e eles consigo),com
os restantes membros do clero, após ter-lhes passado um
atestado de hipócritas e “ilusionistas”...
Vejamos algumas
pérolas da sua “homilia”.
Afirmou que a Igreja
(presume-se que a portuguesa), é de Direita – sendo por isso
que o Papa diz “que isto tem de mudar” (sic) (onde é que o
Papa terá dito isto?). E segundo ele (bispo), a Igreja tem de
ser de Esquerda, pois “são os ideais de justiça
social, de solidariedade que competem à Igreja” (ao Estado e
à sociedade não?). E nós a julgarmos que à
Igreja compete actuar segundo as Sagradas Escrituras! E antes de se
ter inventado os conceitos de esqª e dirª (ah,toujours
la Revolution Française!), a Igreja era de que banda?.
E diz que “vejo
pouca gente da Igreja a defender os direitos humanos. Há, mas
pouca”. Então toda a doutrina de Cristo não
consubstancia nela própria a defesa desses direitos?
Mas se juntarmos a
isto outras afirmações,”porque é que não
se fala do desemprego, da violência contra as mulheres, das
purgas(!?) contra as crianças, da pouca vergonha instalada na
Justiça?”, e “a democracia portuguesa está doente. E
eu pergunto, a Igreja portuguesa diz isto? Não diz! Está
a ver a mentalidade triste,num apagado e triste país?”, nós
percebemos que o que o sr Bispo quer é uma intervençao
politica pura e dura. Será que no seu entendimento a Igreja se
deveria comportar como um partido politico?
E parece não
perceber e aceitar que a estrutura da Igreja não possa ser
democrática, no sentido em que as decisões não
são tomadas por sufrágio; que a hierarquia é
vertical e não horizontal e que não há Igreja
que resista quando membros da hierarquia se criticam em público!.
E nem Sua Santidade escapa: ”a Igreja tem de dar uma volta.Também
ele,o Papa,em muitas coisas deve dar uma volta”. Não acham
os leitores um espanto? Apetece perguntar: sois Papa?
Advoga ainda uma
Igreja diferente: ”...na nossa presença, até na forma
de vestir, na casa em que habitamos, o carro, o secretário, a
corte”,”... deveríamos ser muito mais naturais,cidadãos
mais próximos...mas devemos viver em situações
normais”.
Como será
isto?
Porque não
começas tu óh Januário a dar o exemplo? Eis
algumas ideias: aproveita a vinda do Presidente Kadhafi e acampa com
ele no Rossio; veste uns jeans e vai de bicicleta até
ao local de serviço (ou será que o clero trabalha?),
que deixa de ser num dos aposentos ministeriais e passa para umas
àguas furtadas do Convento de Mafra e entregas 90% do teu
vencimento de MajGen. à Misericórdia da tua terra, já
que, como afirmas, vivemos “num país de dois milhões
de pobres”, etc.
E defende ainda
que “o próprio Vaticano poderia entregar as coisas que lá
tem”. Senhor Bispo espero que interceda por mim:não me
importo de ficar com qualquer coisinha!...
E, como se tem
tornado indispensável no seu discurso, lá vem com uma
bicada ao Dr. Salazar (e não só): ”a Igreja foi
conivente com o regime de Salazar, é uma coisa que a gente tem
que dizer. Não é pedir perdão – que pedir
perdão é mudar a nossa vida”.
Cabe aqui perguntar
se preferia que a Igreja apoiasse o Afonso Costa (que queria acabar
com a religião numa geração); ou o Joaquim
Augusto de Aguiar (o mata frades), por ex., mas ficamos descansados
porque como não quer pedir perdão, vai ficar tudo na
mesma. Presume-se que a apoiar o regime de Salazar...
De facto é
dificil perceber o que o sr Bispo pretende dizer com o que diz. Não
se vislumbra outrossim, uma ideia prática e exequível,
ou algo consistente em termos doutrinários, sociais ou
evangélicos.
Ou então as
suas concepções filosófico-teológicas são
de tal modo profundas que escapam ao comum dos mortais.
Exemplifico:”A ressurreição seria o caminhar mais
rápido do caminhar mais lento. Mas tudo o que eu fiz na terra
seria em ordem a derrotar estes fenómenos vergonhosos da morte
que nós temos”. Perceberam? Eu não.
A explicação
está, talvez, numa pequena introdução biográfica
que encima a entrevista, em que se informa que “em Maio de 68
estava em França a estudar Filosofia com Paul Ricouer. Aí
viveu tempos intensos de debate social e politico, bem como
eclesial”. Nota-se que os debates para além de intensos
devem ter sido baralhativos...
Ou então, o
que se passa reside apenas nesta pergunta pueril: Senhor D. Januário,
o sr. tem Fé?
Já pensou em
resignar em vez de querer ficar, para além do que é
licito, à frente da capelania militar, recusando-se a vestir
farda, até aos 75 anos?
* Tcorpilav (ref)
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[1] Jornal de Noticias/Antena 1,em 24 de Nov.07 |