Quem
é Cottinelli Telmo?
por Miguel Vaz
Encontramo-lo
quando passeamos por Belém, quando assistimos à Canção
de Lisboa. Deparamo-nos com ele na estação de
Campolide, na prisão de Alijó, na cidade universitária
de Coimbra. Só para dar uns exemplos.
Mas
afinal, quem é ele?
José
Ângelo Cottinelli Telmo nasceu a 13 de Novembro de 1897. Foi
arquitecto, cineasta, bailarino, autor de banda desenhada, fotógrafo,
ilustrador e músico. Foi num fundo um artista, no mais estrito
sentido da palavra. E por que razão se encontra votado ao mais
absurdo e injusto esquecimento? Talvez porque teve o azar de se
notabilizar na época errada.
Filho
de músicos, Cottinelli Telmo frequentou o Liceu Pedro Nunes,
em Lisboa, onde conheceu Leitão de Barros (de quem já
se falou no nº3 desta revista) com quem viria a colaborar,
através da Lusitânia-film, na produção
de Malmequer e Mal de Espanha, ambos de 1918. Durante a
juventude, colaborou com múltiplas publicações
infantis e juvenis, destacando-se como ilustrador, escritor e
pedagogo. Foi o criador de Pirilau, um dos primeiros heróis
dos comics infantis portugueses. Durante o mesmo período,
participou com ilustrações e gravuras nos principais
jornais e revistas nacionais.
Estudou
arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa, curso que terminou
em 1920 com a mais alta classificação.
Foi
na arquitectura que Cottinelli Telmo mais se distinguiu e onde deixou
o seu legado mais visível. Pertence à primeira geração
da arquitectura modernista portuguesa, da qual se destacaram
igualmente Profírio Pardal Monteiro (1897-1957), Cassiano
Viriato Branco (1897-1970) e Luís Cristino da Silva
(1896-1976). Não podemos considerar esta geração
como um verdadeiro movimento artístico, até porque
nunca se verificou um contacto organizado entre os diversos
arquitectos (antes colaborações ocasionais).
Sucintamente pode dizer-se que a arquitectura modernista surgiu como
um reflexo do progresso da engenharia que, com a utilização
do ferro e de novos materiais e técnicas, colocava em causa as
velhas fórmulas arquitectónicas usadas até aí.
A construção passou então a centrar-se no
funcionalismo e na simplicidade das formas, substituindo os complexos
ornamentos que haviam formado o paradigma arquitectónico
durante grande parte do século XIX. Algumas fórmulas
foram então importadas pelos jovens arquitectos portugueses,
embora a totalidade das bases teóricas do modernismo nunca
tenha chegado a ser interiorizada, o que embora dote alguma
fragilidade teórica forneceu à primeira vaga modernista
portuguesa um toque caracteristicamente nacional. A geração
de Cottinelli Telmo não se limitou a copiar modelos do que
então se fazia na Europa, adaptou antes os fundamentos
modernistas à realidade portuguesa, num processo gradual de
aperfeiçoamento que teria como auge a Exposição
do Mundo Português de 1940, que marca também o ponto de
inflexão da primeira vaga modernista em Portugal.
Cottinelli
Telmo iniciou a sua carreira como arquitecto nos Caminhos-de-Ferro
(entre 1923 e 1943). Com o advento do Estado Novo, os arquitectos
passaram a assumir um papel de relevo no processo de construção
nacional desenvolvido nesse período. Milhares de obras
públicas foram então planeadas e executadas de Norte a
Sul do país, desde cinemas a estações de
comboio, passando por estabelecimentos de ensino, tribunais, vias de
comunicação, prisões, num fervor construtivo
apenas comparável ao ocorrido durante o período da
Regeneração cerca de cem anos antes, sob a batuta de
Fontes Pereira de Melo.
A
verdade é que os arquitectos — em particular os jovens e
enérgicos modernistas — aderiram sem reservas ao novo
regime, que retribuiu o apoio concedendo-lhes um estatuto equivalente
ao obtido através do ensino superior e equiparando-os aos
engenheiros, embora na actualidade a classe faça os possíveis
para esconder este facto.
Nos
Caminhos-de-Ferro, Cottinelli Telmo notabilizou-se imediatamente
sendo o responsável, entre outros projectos, pelo arranjo da
estação do Rossio e pela nova estação do
Sul e Sueste no Terreiro do Paço (1931), edifício de
passageiros para Tomar (1932-34) e Carregado (1933), Colónia
de Férias da CP na Praia das Maçãs (1943),
Sanatório Ferroviário das Penhas da Saúde
(1945).
Nesta
época realizou ainda os projectos para os pavilhões da
exposição do Rio de Janeiro (1922, com Carlos Ramos e
Luís da Cunha) e de Sevilha (1929). Em 1932 constrói os
estúdios da Tóbis, ao Lumiar (projecto de A.P.
Richard), onde realizaria no ano seguinte A Canção
de Lisboa, o primeiro filme sonoro inteiramente produzido em
Portugal e verdadeiro modelo do humor cinematográfico
português. Para além da realização, o
argumento desta mítica comédia portuguesa também
é da autoria de Cottinelli Telmo, que sempre manteve uma
paixão viva pela sétima arte, demonstrada aliás
pelas suas colaborações em diversas revistas de cinema.
Em
1934 é chamado pelo notável engenheiro Duarte Pacheco,
então acumulando a pasta das Obras Públicas e
Comunicações no governo com a presidência da
Câmara de Lisboa, para fazer parte da Comissão das
Construções Prisionais, o que o fez visitar inúmeros
edifícios estrangeiros, sendo autor, entre outras, das cadeias
de Alijó, Castelo Branco e Alcoentre (1937-44).
O
seu extraordinário currículo de obras públicas
motivou o convite para arquitecto-chefe, e como tal responsável,
da monumental Exposição do Mundo Português de
1940, onde para além do Plano Geral se responsabilizou pelo
pavilhão dos «Portugueses no Mundo», pelo
monumento dos Descobrimentos (em conjunto com o escultor Leopoldo de
Almeida), pela Fonte e Praça do Império, pela Porta da
Fundação e pelo Pavilhão dos Caminhos-de-Ferro.
Hoje esquecida e ignorada pelo público em geral, a Exposição
do Mundo Português foi o maior evento internacional organizado
por Portugal até à Expo’98, lamentavelmente ofuscado
pela eclosão da Segunda Guerra Mundial em pleno coração
da Europa. Apesar dos especialistas da actualidade teimarem em
menorizar a Exposição, considerando-a uma simples
manobra propagandística do regime, é bom lembrar que o
evento contou com a participação entusiástica da
totalidade da vanguarda artística da época, juntando os
melhores escultores, pintores, arquitectos e artistas plásticos
portugueses, num esforço que teve como objectivo divulgar a
grandeza do Império Português, numa época em que
o colonialismo navegava ainda a favor dos ventos da História.
Vencedor
do concurso para o liceu de Lamego (1931), é o autor do de D.
João de Castro, em Lisboa, dos edifícios da faculdade
de Ciências de Coimbra (1943) e da Standart Eléctrica,
na Junqueira, em Lisboa (1945-48). De 1938 a 1942 foi director da
revista Arquitectos, tendo também sido presidente do
Sindicato dos Arquitectos, onde foi responsável pela
organização do I Congresso da classe. Foi responsável
pelo Plano de urbanização de Fátima, para além
dos planos da zona marginal de Belém (1941) e da cidade
universitária de Coimbra (1943-48), onde mantém o gosto
pelos grandes espaços monumentais.
Cottinelli
Telmo perderia a vida a 18 de Setembro de 1948, num acidente marítimo
em Cascais, interrompendo assim demasiado cedo uma carreira
brilhante.
Ao
longo dos tempos uma cortina do esquecimento caiu sobre Cottinelli
Telmo. Olvidado pelos arquitectos que lhe sucederam, até as
informações que se encontram disponíveis sobre
si na Internet são bastante limitadas e inexactas, o que para
uma das personalidades artísticas portuguesas mais completas e
versáteis do século XX é manifestamente injusto.
No entanto, à semelhança dos verdadeiros criadores, a
sua obra mantém-se viva, sendo essa a maior prova do seu génio
artístico. |