Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Tradição e Modernidade
Quem é Cottinelli Telmo?

por Miguel Vaz

Encontramo-lo quando passeamos por Belém, quando assistimos à Canção de Lisboa. Deparamo-nos com ele na estação de Campolide, na prisão de Alijó, na cidade universitária de Coimbra. Só para dar uns exemplos.

Mas afinal, quem é ele?

José Ângelo Cottinelli Telmo nasceu a 13 de Novembro de 1897. Foi arquitecto, cineasta, bailarino, autor de banda desenhada, fotógrafo, ilustrador e músico. Foi num fundo um artista, no mais estrito sentido da palavra. E por que razão se encontra votado ao mais absurdo e injusto esquecimento? Talvez porque teve o azar de se notabilizar na época errada.

Filho de músicos, Cottinelli Telmo frequentou o Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, onde conheceu Leitão de Barros (de quem já se falou no nº3 desta revista) com quem viria a colaborar, através da Lusitânia-film, na produção de Malmequer e Mal de Espanha, ambos de 1918. Durante a juventude, colaborou com múltiplas publicações infantis e juvenis, destacando-se como ilustrador, escritor e pedagogo. Foi o criador de Pirilau, um dos primeiros heróis dos comics infantis portugueses. Durante o mesmo período, participou com ilustrações e gravuras nos principais jornais e revistas nacionais.

Estudou arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa, curso que terminou em 1920 com a mais alta classificação.

Foi na arquitectura que Cottinelli Telmo mais se distinguiu e onde deixou o seu legado mais visível. Pertence à primeira geração da arquitectura modernista portuguesa, da qual se destacaram igualmente Profírio Pardal Monteiro (1897-1957), Cassiano Viriato Branco (1897-1970) e Luís Cristino da Silva (1896-1976). Não podemos considerar esta geração como um verdadeiro movimento artístico, até porque nunca se verificou um contacto organizado entre os diversos arquitectos (antes colaborações ocasionais). Sucintamente pode dizer-se que a arquitectura modernista surgiu como um reflexo do progresso da engenharia que, com a utilização do ferro e de novos materiais e técnicas, colocava em causa as velhas fórmulas arquitectónicas usadas até aí. A construção passou então a centrar-se no funcionalismo e na simplicidade das formas, substituindo os complexos ornamentos que haviam formado o paradigma arquitectónico durante grande parte do século XIX. Algumas fórmulas foram então importadas pelos jovens arquitectos portugueses, embora a totalidade das bases teóricas do modernismo nunca tenha chegado a ser interiorizada, o que embora dote alguma fragilidade teórica forneceu à primeira vaga modernista portuguesa um toque caracteristicamente nacional. A geração de Cottinelli Telmo não se limitou a copiar modelos do que então se fazia na Europa, adaptou antes os fundamentos modernistas à realidade portuguesa, num processo gradual de aperfeiçoamento que teria como auge a Exposição do Mundo Português de 1940, que marca também o ponto de inflexão da primeira vaga modernista em Portugal.

Cottinelli Telmo iniciou a sua carreira como arquitecto nos Caminhos-de-Ferro (entre 1923 e 1943). Com o advento do Estado Novo, os arquitectos passaram a assumir um papel de relevo no processo de construção nacional desenvolvido nesse período. Milhares de obras públicas foram então planeadas e executadas de Norte a Sul do país, desde cinemas a estações de comboio, passando por estabelecimentos de ensino, tribunais, vias de comunicação, prisões, num fervor construtivo apenas comparável ao ocorrido durante o período da Regeneração cerca de cem anos antes, sob a batuta de Fontes Pereira de Melo.

A verdade é que os arquitectos — em particular os jovens e enérgicos modernistas — aderiram sem reservas ao novo regime, que retribuiu o apoio concedendo-lhes um estatuto equivalente ao obtido através do ensino superior e equiparando-os aos engenheiros, embora na actualidade a classe faça os possíveis para esconder este facto.

Nos Caminhos-de-Ferro, Cottinelli Telmo notabilizou-se imediatamente sendo o responsável, entre outros projectos, pelo arranjo da estação do Rossio e pela nova estação do Sul e Sueste no Terreiro do Paço (1931), edifício de passageiros para Tomar (1932-34) e Carregado (1933), Colónia de Férias da CP na Praia das Maçãs (1943), Sanatório Ferroviário das Penhas da Saúde (1945).

Nesta época realizou ainda os projectos para os pavilhões da exposição do Rio de Janeiro (1922, com Carlos Ramos e Luís da Cunha) e de Sevilha (1929). Em 1932 constrói os estúdios da Tóbis, ao Lumiar (projecto de A.P. Richard), onde realizaria no ano seguinte A Canção de Lisboa, o primeiro filme sonoro inteiramente produzido em Portugal e verdadeiro modelo do humor cinematográfico português. Para além da realização, o argumento desta mítica comédia portuguesa também é da autoria de Cottinelli Telmo, que sempre manteve uma paixão viva pela sétima arte, demonstrada aliás pelas suas colaborações em diversas revistas de cinema.

Em 1934 é chamado pelo notável engenheiro Duarte Pacheco, então acumulando a pasta das Obras Públicas e Comunicações no governo com a presidência da Câmara de Lisboa, para fazer parte da Comissão das Construções Prisionais, o que o fez visitar inúmeros edifícios estrangeiros, sendo autor, entre outras, das cadeias de Alijó, Castelo Branco e Alcoentre (1937-44).

O seu extraordinário currículo de obras públicas motivou o convite para arquitecto-chefe, e como tal responsável, da monumental Exposição do Mundo Português de 1940, onde para além do Plano Geral se responsabilizou pelo pavilhão dos «Portugueses no Mundo», pelo monumento dos Descobrimentos (em conjunto com o escultor Leopoldo de Almeida), pela Fonte e Praça do Império, pela Porta da Fundação e pelo Pavilhão dos Caminhos-de-Ferro. Hoje esquecida e ignorada pelo público em geral, a Exposição do Mundo Português foi o maior evento internacional organizado por Portugal até à Expo’98, lamentavelmente ofuscado pela eclosão da Segunda Guerra Mundial em pleno coração da Europa. Apesar dos especialistas da actualidade teimarem em menorizar a Exposição, considerando-a uma simples manobra propagandística do regime, é bom lembrar que o evento contou com a participação entusiástica da totalidade da vanguarda artística da época, juntando os melhores escultores, pintores, arquitectos e artistas plásticos portugueses, num esforço que teve como objectivo divulgar a grandeza do Império Português, numa época em que o colonialismo navegava ainda a favor dos ventos da História.

Vencedor do concurso para o liceu de Lamego (1931), é o autor do de D. João de Castro, em Lisboa, dos edifícios da faculdade de Ciências de Coimbra (1943) e da Standart Eléctrica, na Junqueira, em Lisboa (1945-48). De 1938 a 1942 foi director da revista Arquitectos, tendo também sido presidente do Sindicato dos Arquitectos, onde foi responsável pela organização do I Congresso da classe. Foi responsável pelo Plano de urbanização de Fátima, para além dos planos da zona marginal de Belém (1941) e da cidade universitária de Coimbra (1943-48), onde mantém o gosto pelos grandes espaços monumentais.

Cottinelli Telmo perderia a vida a 18 de Setembro de 1948, num acidente marítimo em Cascais, interrompendo assim demasiado cedo uma carreira brilhante.

Ao longo dos tempos uma cortina do esquecimento caiu sobre Cottinelli Telmo. Olvidado pelos arquitectos que lhe sucederam, até as informações que se encontram disponíveis sobre si na Internet são bastante limitadas e inexactas, o que para uma das personalidades artísticas portuguesas mais completas e versáteis do século XX é manifestamente injusto. No entanto, à semelhança dos verdadeiros criadores, a sua obra mantém-se viva, sendo essa a maior prova do seu génio artístico.

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