Crónica da Falange de Madrid
por Pedro Guedes da Silva
Madrid, 1931.
Na cidade que em pouco ultrapassava o milhão de habitantes
contavam-se menos de 60 mil automóveis e os eléctricos
enchiam as ruas vestindo-se de um amarelo muito característico.
Por essa altura, a quantidade de anúncios luminosos e a
animada vida social já captavam a atenção dos
visitantes, mas a célebre Gran Via ainda estava
incompleta: estranhamente ou não, havia terreno livre entre as
famosas praças de Callao e de Espanha. É esta cidade em
que logo se sentiram as incapacidades da República que
constitui o ponto de partida para “El Madrid de la Falange”,
último trabalho de José Luis Jerez Riesco – professor
universitário, advogado e tradutor – prolongando-se, ao
longo de mais de 500 páginas, até 1939, para encerrar
com um capítulo final consagrado ao Arco de la Victoria cuja inclusão, embora
fora de época, faz todo o sentido como corolário lógico
de uma geração cujo sonho parecia não conhecer
barreiras.
Especialmente
oportuno agora que o governo vizinho insiste em desenterrar ódios
e rancores disfarçados de “memória histórica”,
embora acompanhe uma cada vez mais notável pujança
editorial que nos últimos tempos vai abatendo os muitos mitos
históricos construídos logo após a transição
e que se pretendem verdades com força de lei, o trabalho de
José Luis Riesco é difícil de classificar visto
que são amplos os caminhos de leitura que propõe. Com
efeito, cruzando a história da cidade com a dos próprios
movimentos criados por José Antonio Primo de Rivera e Ramiro
Ledesma Ramos, a objectividade histórica que aborda a acção
política daqueles anos confunde-se com o quase roteiro
“turístico” de uma cidade em alguns casos já
desaparecida. Nesse sentido, “El Madrid de la Falange” não
deixa de ser uma crónica da Falange de Madrid, numa mistura
especialmente bem conseguida e que, para quem gosta da cidade e se
interessa em paralelo pela vida de José Antonio e actores
colaterais, rapidamente se transforma numa obra apaixonante.
Esse duplo
caminho que encontramos ao longo do livro observa-se desde logo na
organização dos próprios capítulos. Por
um lado, acompanhamos José Antonio e Ramiro Ledesma (sabiam
que vivia no nº 3 da Calle de Santa Juliana?) pelos cafés
que acolhiam as tertúlias – instituições de importância assinalável, na época – ou que
chegaram mesmo a substituir sedes políticas; pelos teatros –
e desde logo o de La Comedia, naturalmente! –, cinemas,
igrejas, gráficas e locais de distribuição de
propaganda, casas particulares (José Antonio nasceu na Calle
Génova, perpendicular à Castellana, mesmo ao
lado do edifício que hoje alberga a sede do PP), hotéis,
bares, restaurantes, cemitérios e... cadeias – sempre
presentes ao longo da história da Falange, posto que a
República convivia menos bem com a opinião dissonante.
A Cárcel-Modelo assume aqui, como se compreenderá,
um especial destaque. Por outro lado, a cidade serve de palco a
acontecimentos de especial importância para a Falange de
Madrid: e assim percorremos as tentativas de atentados contra José
Antonio, os assassinatos de jovens falangistas, as agressões
ou simples escaramuças – habituais por exemplo às
quintas-feiras, dia de distribuição do jornal “FE”.
Se, como já
se disse, por entre a história da Falange e a da própria
cidade não é fácil classificar a obra, não
é igualmente tarefa simples seleccionar alguns episódios
que possam aqui ser tratados mesmo que como meras anotações
ou curiosidades: o livro é demasiado rico para que nos seja
permitido esse luxo e a simples actividade dos primeiros tempos nas
zonas circundantes à famosíssima Puerta del Sol gastariam por si só vários artigos. Acrescente-se ainda
assim, a título de curiosidade, que Ramiro Ledesma resolve
fazer do primeiro piso do Café del Norte, entre a Gran
Via e a Puerta del Sol, uma quase-sede da publicação JONS na sequência
de um regresso de Lisboa onde se havia deslocado para um encontro com
Onésimo Redondo, que então vivia por estas bandas uma
experiência de exílio. Reflexos de uma influência
do típico “desenrasca” lusitano? Nunca saberemos, mas pode
permanecer o palpite.
Já
José Antonio parecia preferir o nº 59 da Calle de Alcalá,
onde se situava o Café Lyón e
se encontrava a tertúlia da Ballena Alegre – ou
então o Café Gijón. Em Alcalá compareciam poetas, pintores, ensaístas, jornalistas, músicos,
críticos e estudantes. E também aparecia Ruiz de
Alda... mas este apenas quando não havia estreias de cinema,
arte credora da sua fidelidade e a que sempre comparecia na companhia
de sua mulher, Amelia. Acresce que a fazer fé em Pilar Primo
de Rivera, uma boa parte dos trabalhos preparatórios da
fundação da Falange decorreram justamente à mesa
do Lyón.
Note-se ainda
que o trabalho de Jerez Riesco nos permite ter uma ideia da bondade
do lado republicano e do tratamento de terror prescrito a quantos se
lhe opunham. Veja-se, por exemplo, o breve caso de Miguel Catalán
Azpiazu, um jovem falangista que era encarregado de caixa no bar Maxim's. Denunciado anonimamente como fiel da Camisa Azul a
par da alegação de uma falsa intimidade com José
Antonio – que apenas por
duas ou três vezes teria frequentado o local –, Miguel Catalán não
logrou sair com vida do clima de denúncia permanente que o
bando republicano cultivava e acarinhava. E por aqui
ficaríamos assinalando pequenos factos, pequenas peças
que, se encaixadas, nos descrevem de forma exaustiva o percurso da
Falange madrilena.
Prefaciado
por José Utrera Molina, ex-Secretário-Geral do Movimiento, “El Madrid de la Falange” constitui,
desde a sua publicação, uma obra indispensável
para os leitores que pretendam encontrar um fiel retrato da Falange
de Madrid, testemunho de uma juventude plena de camaradagem e
ilusões, e que no seu tempo pagou – em tantos e tantos casos
com a própria vida! – a coragem de acreditar que aí
viriam “banderas vitoriosas, al paso alegre de la paz”.
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José
Luis Jerez Riesco
Páginas:
624
ISBN:
84-9739-056-3
El Madrid de
La Falange
Editorial
Actas, Madrid, 2006 |
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