Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Tradição e Modernidade
Crónica da Falange de Madrid

por Pedro Guedes da Silva

Madrid, 1931. Na cidade que em pouco ultrapassava o milhão de habitantes contavam-se menos de 60 mil automóveis e os eléctricos enchiam as ruas vestindo-se de um amarelo muito característico. Por essa altura, a quantidade de anúncios luminosos e a animada vida social já captavam a atenção dos visitantes, mas a célebre Gran Via ainda estava incompleta: estranhamente ou não, havia terreno livre entre as famosas praças de Callao e de Espanha. É esta cidade em que logo se sentiram as incapacidades da República que constitui o ponto de partida para “El Madrid de la Falange”, último trabalho de José Luis Jerez Riesco – professor universitário, advogado e tradutor – prolongando-se, ao longo de mais de 500 páginas, até 1939, para encerrar com um capítulo final consagrado ao Arco de la Victoria cuja inclusão, embora fora de época, faz todo o sentido como corolário lógico de uma geração cujo sonho parecia não conhecer barreiras.

Especialmente oportuno agora que o governo vizinho insiste em desenterrar ódios e rancores disfarçados de “memória histórica”, embora acompanhe uma cada vez mais notável pujança editorial que nos últimos tempos vai abatendo os muitos mitos históricos construídos logo após a transição e que se pretendem verdades com força de lei, o trabalho de José Luis Riesco é difícil de classificar visto que são amplos os caminhos de leitura que propõe. Com efeito, cruzando a história da cidade com a dos próprios movimentos criados por José Antonio Primo de Rivera e Ramiro Ledesma Ramos, a objectividade histórica que aborda a acção política daqueles anos confunde-se com o quase roteiro “turístico” de uma cidade em alguns casos já desaparecida. Nesse sentido, “El Madrid de la Falange” não deixa de ser uma crónica da Falange de Madrid, numa mistura especialmente bem conseguida e que, para quem gosta da cidade e se interessa em paralelo pela vida de José Antonio e actores colaterais, rapidamente se transforma numa obra apaixonante.

Esse duplo caminho que encontramos ao longo do livro observa-se desde logo na organização dos próprios capítulos. Por um lado, acompanhamos José Antonio e Ramiro Ledesma (sabiam que vivia no nº 3 da Calle de Santa Juliana?) pelos cafés que acolhiam as tertúlias – instituições de importância assinalável, na época – ou que chegaram mesmo a substituir sedes políticas; pelos teatros – e desde logo o de La Comedia, naturalmente! –, cinemas, igrejas, gráficas e locais de distribuição de propaganda, casas particulares (José Antonio nasceu na Calle Génova, perpendicular à Castellana, mesmo ao lado do edifício que hoje alberga a sede do PP), hotéis, bares, restaurantes, cemitérios e... cadeias – sempre presentes ao longo da história da Falange, posto que a República convivia menos bem com a opinião dissonante. A Cárcel-Modelo assume aqui, como se compreenderá, um especial destaque. Por outro lado, a cidade serve de palco a acontecimentos de especial importância para a Falange de Madrid: e assim percorremos as tentativas de atentados contra José Antonio, os assassinatos de jovens falangistas, as agressões ou simples escaramuças – habituais por exemplo às quintas-feiras, dia de distribuição do jornal “FE”.

Se, como já se disse, por entre a história da Falange e a da própria cidade não é fácil classificar a obra, não é igualmente tarefa simples seleccionar alguns episódios que possam aqui ser tratados mesmo que como meras anotações ou curiosidades: o livro é demasiado rico para que nos seja permitido esse luxo e a simples actividade dos primeiros tempos nas zonas circundantes à famosíssima Puerta del Sol gastariam por si só vários artigos. Acrescente-se ainda assim, a título de curiosidade, que Ramiro Ledesma resolve fazer do primeiro piso do Café del Norte, entre a Gran Via e a Puerta del Sol, uma quase-sede da publicação JONS na sequência de um regresso de Lisboa onde se havia deslocado para um encontro com Onésimo Redondo, que então vivia por estas bandas uma experiência de exílio. Reflexos de uma influência do típico “desenrasca” lusitano? Nunca saberemos, mas pode permanecer o palpite.

Já José Antonio parecia preferir o nº 59 da Calle de Alcalá, onde se situava o Café Lyón e se encontrava a tertúlia da Ballena Alegre – ou então o Café Gijón. Em Alcalá compareciam poetas, pintores, ensaístas, jornalistas, músicos, críticos e estudantes. E também aparecia Ruiz de Alda... mas este apenas quando não havia estreias de cinema, arte credora da sua fidelidade e a que sempre comparecia na companhia de sua mulher, Amelia. Acresce que a fazer fé em Pilar Primo de Rivera, uma boa parte dos trabalhos preparatórios da fundação da Falange decorreram justamente à mesa do Lyón.

Note-se ainda que o trabalho de Jerez Riesco nos permite ter uma ideia da bondade do lado republicano e do tratamento de terror prescrito a quantos se lhe opunham. Veja-se, por exemplo, o breve caso de Miguel Catalán Azpiazu, um jovem falangista que era encarregado de caixa no bar Maxim's. Denunciado anonimamente como fiel da Camisa Azul a par da alegação de uma falsa intimidade com José Antonio que apenas por duas ou três vezes teria frequentado o local –, Miguel Catalán não logrou sair com vida do clima de denúncia permanente que o bando republicano cultivava e acarinhava. E por aqui ficaríamos assinalando pequenos factos, pequenas peças que, se encaixadas, nos descrevem de forma exaustiva o percurso da Falange madrilena.

Prefaciado por José Utrera Molina, ex-Secretário-Geral do Movimiento, “El Madrid de la Falange” constitui, desde a sua publicação, uma obra indispensável para os leitores que pretendam encontrar um fiel retrato da Falange de Madrid, testemunho de uma juventude plena de camaradagem e ilusões, e que no seu tempo pagou – em tantos e tantos casos com a própria vida! – a coragem de acreditar que aí viriam “banderas vitoriosas, al paso alegre de la paz”.




José Luis Jerez Riesco
Páginas: 624
ISBN: 84-9739-056-3


El Madrid de La Falange

Editorial Actas, Madrid, 2006
 
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