E depois da Globalização?
por Eduardo Silvestre dos Santos
Alexandre del Valle defende que a globalização teve
início no século XVI e foi iniciada pelo comércio
internacional e pelos intercâmbios marítimos. Pode ser
definida como “o relacionamento imediato e a criação
de redes de relacionamento, estratégicos, económicos,
científicos e financeiros e financeiros transnacionais”. Por seu turno, Luís Leitão Tomé define
globalização como “o processo de diluição
das fronteiras tradicionais, de aumento das interdependências e
das interacções, o acréscimo de intercâmbios
transnacionais e a intensificação dos processos e das
actividades que fazem do mundo cada vez mais um único lugar”. As consequências desta reestruturação política
e económica nas economias locais, no bem-estar das populações
e no ambiente são tema de debate nas organizações
internacionais, nas instituições governamentais e no
mundo académico. A globalização tem como
dimensões principais o comércio e a finança
globais. O fundamento original e permanente da globalização
económica é o comércio.
No início do século XX, a globalização
estava no seu auge, apesar do termo ainda não ser conhecido. O
cidadão europeu podia beber o seu chá, vindo do
Oriente, aquecer-se com o carvão de Gales, possuir umas luvas
de pele feitas em Paris, ou fumar charutos de Havana.
Os impérios ultramarinos europeus usufruiam de mais de 300
anos de comércio, conquista e colonização,
beneficiando de uma divisão global do trabalho única.
Dos portos europeus saíam linhas marítimas,
ferroviárias e telegráficas, interligadas entre si, que
sustentavam o poder imperial e colonial do Ocidente, ligando-o a
quase todos os pontos do planeta. Estas redes uniam o mundo, criando
mercados verdadeiramente globais para mercadorias, trabalho e
capital.
Este elevado nível de integração económica
não poderia existir se não existissem impérios!
Os impérios europeus (britânico, francês,
português, alemão, austro-húngaro, belga,
holandês, espanhol, italiano e russo) possuíam mais de
metade da superfície do planeta e governavam mais de metade da
sua população. A circulação de bens,
capital e trabalho atingiu níveis comparáveis aos
actuais. Era também o zénite da globalização
política.
A 1.ª Guerra Mundial veio modificar este estado de coisas
radicalmente. O comércio, o investimento e a circulação
de pessoas desvaneceram-se. O controlo dos impérios sobre o
mundo, alicerce político da globalização de
então, sofreu um duro golpe. Após a guerra, começaram
a surgir regimes revolucionários – de esquerda e de direita
– hostis à integração económica
internacional.
A queda dos preços dos activos nos EUA, que deu origem à
Depressão de 1929, foi um desastre económico sem
precedentes. Entre 1929 e 1933, o PNB dos EUA caíu para quase
metade em termos nominais; a produtividade combinada das sete maiores
economias mundiais caíu perto de 20% no mesmo período.
Dois países sofreram, mais do que todos os outros, quebras
idênticas aos EUA: a Alemanha e a Áustria, a contas com
o pagamento das reparações impostas pelo Tratado de
Versalhes.
A maioria dos países que, em 1931, se regiam pelo padrão-ouro,
tinham-no abandonado em 1937. Os EUA e o Reino Unido, dois alicerces
do sistema monetário internacional, foram obrigados a fazer
flutuar as suas divisas, reduzindo as taxas de juro internas e as
suas reservas de ouro, afectando assim as taxas cambiais. Os défices
governamentais aumentavam, devido a uma despesa pública
acrescida e à quebra das receitas. A desvalorização
das divisas estimulava a recuperação de dois modos:
permitindo que as taxas nominais de juro diminuissem, e reduzindo os
salários reais.
O proteccionismo instalou-se, levando inclusivamente o Reino Unido a
abandonar o comércio livre, e indiciando que as políticas
monetárias e fiscais mais abertas pouco podiam contribuir para
estimular o comércio. O fluxo de bens foi limitado por
direitos de importação, os fluxos de capitais por
regulamentos de câmbio, e os fluxos laborais por mais
restrições à imigração.Terminara
a globalização!
Quando a Depressão surgiu, o primeiro regime verdadeiramente
totalitário, a URSS, já existia há mais de 10
anos. Ao debilitar os EUA e os seus principais parceiros comerciais,
a crise económica parecia favorecer o regime soviético,
que afirmava que o capitalismo cederia perante as suas próprias
contradições. A economia planificada do estado
totalitário soviético queria “apenas” em troca o
controlo completo de todos os aspectos da vida, em nome da igualdade:
“a cada um segundo as suas capacidades; para cada um segundo as
suas necessidades”! Mas a economia planificada tinha uma
necessidade premente de trabalhadores e de matéria-prima. A
URSS tinha ambos em elevadas quantidades. Porém, nos outros
estados totalitários que entretanto foram surgindo (Japão,
Alemanha e Itália) a situação era diferente e a
economia planificada derivou para políticas muito diferentes.
O Mundo ver-se-ia perante a maior catástrofe de sempre: a 2.ª
Guerra Mundial.
Dela emergiu um novo império, o americano, ao passo que os
outros se foram desvanescendo, enquanto que o soviético saíu
reforçado e alargado.
Em 1944, num esforço liderado pelos EUA e pelo Reino Unido, 44
nações aliadas reuniram-se em Bretton Woods, New
Hampshire, e redigiram a carta de uma nova ordem monetária
internacional liberal. Aí se estabeleceram duas novas
organizações financeiras, uma delas para lidar com
problemas temporários de desequilíbrios de curto prazo
da balança de pagamentos (o Fundo Monetário
Internacional – FMI), e o outro, sob as ideias de Keynes, para
financiar projectos de financiamento de maior duração
na promoção do desenvolvimento, especialmente nas
regiões mais pobres, e menos desenvolvidas fora da Europa, o
Banco Mundial.
O desmembramento da URSS, em 1989, fez pensar num grande triunfo do
Ocidente. Em termos ideológicos, falou-se num “mundo
unipolar”, numa “nova ordem mundial” e até no “fim da
história”. O fascismo e o comunismo tinham sido derrotados.
O processo de integração económica mundial, a
globalização, com o comércio livre e a livre
circulação de capitais e de pessoas, apoiada nos
modernos meios tecnológicos, estava de regresso e afigurava-se
imparável.
Luis Leitão Tomé defende que a aceleração
do processo de globalização representou uma profunda
redefinição dos papéis, das possibilidades, das
potencialidades, das vulnerabilidades e dos riscos no mundo que vêm
alterando a própria natureza das relações e dos
actores internacionais. 
Porém, segundo o Gen. Loureiro dos Santos, o essencial do
debate incide sobre os seus efeitos. A globalização
continua através do desenvolvimento tecnológico, de
custos menores e da expansão nas comunicações e
nos transportes que têm alterado de modo profundo as noções
tradicionais de espaço e de tempo, hoje substancialmente mais
reduzidos. A globalização não é já
só económica: as interdependências em questões
ambientais, de defesa, sociais e políticas também
aumentaram. Nenhum destes fenómenos se retém nas
fronteiras tradicionais dos Estados e as respostas ou soluções
para os problemas deixaram de poder ser meramente nacionais. Ninguém
pode permanecer indiferente a ocorrências e desenvolvimentos
noutras partes do globo, e nem as diversas áreas da
globalização podem ser desligadas umas das outras.
A globalização, a quem os jornalistas alemães
Hans-Peter Martin e Harald Schumann apelidam de “a nova
Internacional” e de “turbocapitalismo”, desestabiliza Estados
inteiros e a ordem social que até então os regia. Por
um lado, ameaça aqui e ali com a fuga de capitais. Quando tal
não é suficiente, apela ao planeamento fiscal em grande
escala: os benefícios são transferidos para países
onde a carga fiscal é menor. No mundo inteiro, a parte
concedida pelos detentores de capitais e de fortunas ao financiamento
de missões a cargo do Estado não tem cessado de
diminuir. Ora, este processo destrói as próprias bases
da sua existência: o Estado viável e a estabilidade
democrática.
Os protestos dos cidadãos são feitos perante governos e
políticos cujo poder de intervenção diminui
continuamente. Pouco importa que haja que assegurar a justiça
social, limitar o poder dos “media” ou combater a criminalidade
internacional: o Estado-Nação isolado está
definitivamente ultrapassado, embora a concertação
internacional fraqueje igualmente.
As respostas políticas que até agora se deram à
interligação económica do mundo afastam a mais
ínfima possibilidade de se controlar este processo.
O governo da superpotência norte-americana, o omnipotente FMI e
todos os bancos centrais europeus submeteram-se à vontade de
uma potência superior, cujo potencial de destruição
já não são capazes de avaliar: o mercado
financeiro internacional.
Este estado de coisas foi provocado pelos próprios governos
dos grandes países industriais. Em nome do dogma económico
do mercado livre e sem fronteiras, abateram sistematicamente, desde a
década de 1970’s, todas as barreiras que até então
permitiam regular o comércio internacional dos fundos de
capitais e que, consequentemente, o tornavam controlável.
Queixam-se agora de já não conseguir ter mão nos
espectros que eles mesmos e os seus predecessores invocaram.
O internacionalismo, antigamente uma arma de propaganda do movimento
do proletariado contra os governos bélicos e contra os
capitalistas, mudou agora de campo. O rumo económico da
globalização fez com que “o
que os marxistas afirmavam há 100 anos, e que era na altura
completamente falso, torna-se agora realidade. Os capitalistas
enriquecem cada vez mais, enquanto a classe operária
empobrece. A competição globalizada ‘esmaga as
pessoas como um passador’ e destrói a coesão
social.”
Por outro lado, não é possível separar, de forma
clara, a não ser teoricamente, o domínio político
do económico. Pouco a pouco, no mundo inteiro, os governos vão
perdendo a faculdade de intervirem na evolução da sua
própria nação. Enquanto o fluxo de mercadorias e
do capital ficou disponível no mundo inteiro, a regulamentação
e a supervisão permaneceram uma questão nacional. A
economia devorou a política. Como afirma o Gen. Loureiro dos Santos, “há outros
valores superiores aos do mercado, que se lhe devem sobrepor”. 
Que dose de mercado pode a democracia suportar? O mercado mais a
democracia, era esta a fórmula dos vencedores, a fórmula
que tinha posto de joelhos as ditaduras de partido único do
bloco de Leste. Hoje, a economia de mercado e a democracia nada têm
de dois irmãos de sangue inseparáveis que alimentam em
conjunto a prosperidade de todos. Pelo contrário, as duas
figuras ideológicas centrais das velhas nações
industrializadas ocidentais vivem hoje numa contradição
permanente. Sem segurança social não há
liberdade política. Isto é, não há
democracia.
A compressão tecnológica do espaço e do tempo,
fruto da globalização, fez com que o mundo parecesse
mais pequeno e mais interligado. Paralelamente, porém, muitas
pessoas reagiram à mudança rápida com discursos
nacionalistas desagregadores. A globalização pode gerar
integração económica e fragmentação
política ao mesmo tempo.
De facto, os acontecimentos dos Balcãs e do Iraque vieram
colocar sérias dúvidas sobre o sonhado final histórico
feliz. Os jugoslavos começaram a desmembrar o seu país,
fazendo-o regressar directamente a 1914. Na China, Deng Xiaoping
reprimiu implacavelmente a oposição política na
praça Tianamen, quase ofuscando a capitulação de
Gorbachev.
Mais importante, porém, uma outra revolução,
iniciada já em 1979, apontava para um mundo não baseado
no comércio livre, mas sim nas sagradas escrituras do profeta
Maomé. Liderada inicialmente por um “ayatollah” iraniano
que tinha passado grande parte da sua vida num quarto em Paris, esta
revolução tinha como objectivo fazer o tempo voltar
para trás e purificar a sociedade dos vestígios da
corrupção ocidental, ao mesmo tempo que desafiava as
pretensões hegemónico-imperiais americanas, que a
personificavam, no Médio Oriente e em todo o mundo islâmico.
Tendo a demografia a seu favor, o Islão tem já mais de
15 milhões de imigrantes na União Europeia. Além
do 11 de Setembro de 2001, os ataques de Março de 2004 em
Madrid, de Julho de 2005 em Londres, e os motins dos arredores de
Paris no mesmo ano, são exemplos de um novo potencial inimigo
já dentro das nossas sociedades.
Há cerca de 100 anos, o Ocidente governava o Mundo, e a
fronteira entre o Ocidente e o Oriente passava pelos Balcãs.
Actualmente ela atravessa muitas das cidades europeias.
O historiador escocês Niall Ferguson defende que, no século
XX, foram a volatilidade económica, a confluência étnica
e o declínio dos impérios existentes que criaram
condições para o florescer de regimes ditatoriais e
para o deflagrar de conflitos.
A globalização faz com que bens, capital e trabalho
circulem livremente, mas cria também um fosso cada vez maior
entre ricos e pobres, destroçando a classe média de
muitos países. O Banco Mundial afirma que parece aumentar a
pobreza e a desigualdade, sendo os custos de ajustamento para uma
maior abertura suportados exclusivamente pelos pobres. Não é
difícil prever que a economia global irá espalhar
conflitos e estabelecer uma diferença maior entre vencedores e
vencidos. Grupos excluídos enfrentarão profunda
estagnação económica. A globalização
económica, em particular produz efeitos desiguais, pelo que
deveria assentar em normas claras, discutidas e aceites pelo maior
número possível de Estados, e em organismos
internacionais multilaterais capazes de a impor.
Importa, por tudo isto, controlá-la e regulamentá-la!
Só poderemos evitar futuros confrontos se aprendermos as
lições do passado e conseguirmos evitar situações
semelhantes.
“O século XVIII, na sua ânsia
iluminista, incubou e progressivamente gerou dois monstros. Qualquer
deles pretende que é possível à sociedade
humana arquitectar soluções racionais para os seus
problemas, construindo a sociedade perfeita (...) O primeiro, o
sistema em que o sistema em que o Estado era tudo, desmoronou-se há
cerca de doze anos. (...) Sobre os escombros do primeiro está
agora a erguer-se triunfante o segundo, aquele em que o Estado não
será nada.
Dois mitos iluministas.
O Estado totalitário, por um lado, e o Mercado
totalitário, por outro. Aquele em que o poder político
em tudo interfere, e aquele que se caracteriza pela total obediência
de todos às regras do mercado.
Um, que, em nome das pessoas, só admite como
valor a razão de estado. Outro, em nome das mesmas pessoas,
aceita apenas como único valor o montante do lucro.” 
__________________________
[1] Del Valle, Alexandre – “Guerras contra a Europa”, Hugin,
Lisboa, 2000, p. 24. [voltar]
[2] Tomé, Luís Leitão – “O Estado e a nova
ordem internacional – Entre a fragmentação e a
globalização”, UAL, Lisboa, 2003, p. 17. [voltar]
[3] Tomé, Luís Leitão – obra citada, p. 17. [voltar]
[4] Loureiro dos Santos, José A. - “A idade Imperial” – A
nova era – Reflexões sobre Estratégia III”,
Europa-América, Lisboa, 2003, pp 17-19. [voltar]
[5] Martin & Schumann – “A armadilha da globalização
– O assalto à democracia e ao bem-estar social”,
Terramar, Lisboa, 1996, pp 12-17. [voltar]
[6] Martin & Schumann – obra citada, p. 56. [voltar]
[7] Martin & Schumann – obra citada, p. 134. [voltar]
[8] Martin & Schumann – obra citada, p. 224. [voltar]
[9] Loureiro dos Santos, José A. - “A idade Imperial” – A
nova era – Reflexões sobre Estratégia III”, p. 53. [voltar]
[10] Martin & Schumann – obra citada, p. 244. [voltar]
[11] Ferguson, Niall – “A guerra do mundo”, [voltar]
[12] Loureiro dos Santos, José A. - “Segurança e Defesa
na viragem do milénio – Reflexões sobre Estratégia
II”, Europa-América, Lisboa, 2001, p. 72. [voltar]
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