José Antonio, Entre Ódio e Amor
por F Santos
“José
Antonio: entre odio y amor” de Arnaud Imatz, lançado em
Novembro do passado ano, é um livro que fica para a história
das biografias de José Antonio Primo de Rivera. Partindo de
uma abordagem que pretende ultrapassar os preconceitos morais da
esquerda e da direita, isto é, como diz o subtítulo da
obra, narrar «a sua história, tal como ela foi»,
Imatz traz-nos um gordo volume de 616 páginas, em que apenas
248 constituem a biografia propriamente dita. Há um capítulo
de mais de 130 páginas intitulado “Pensar el
Nacionalsindicalismo”, em que se percorre longamente quase todas as
teorias políticas do século XX. Também se
percorre a história da(s) Falange(s) após a morte de
José Antonio, havendo no total 75 páginas de notas que
infelizmente não são de rodapé, obrigando o
leitor a um cansativo vai e vem entre o texto propriamente dito e as
notas situadas no fim do volume.
O autor
procura caracterizar a turbulenta sociedade espanhola pré
guerra civil, chamando apropriadamente a esse capítulo “Una
Época de Intolerancia”; a sua exposição é
pedagógica, percebendo-se que quer mostrar aos mais sensíveis
à propaganda histórica que o fanatismo e violência
das esquerdas (em que os do PS não ficam atrás dos do
PC) é algo que, por tão flagrante, choca como tem sido
ocultado por tantos pseudo-historiadores.
Em toda a
obra se procura a “muleta” das opiniões mais à
esquerda para desmontar os mitos históricos, como as de certo
observador (Salvador de Madariaga) que dizia que a revolução
de 1934 foi indesculpável, perdendo o PS toda a moralidade
para criticar o posterior Alzamiento.
José
Antonio é-nos mostrado como um homem que carregou sempre com o
peso do seu apelido: pela associação ao pai foi sempre
conotado, tantas vezes com demagogia mal intencionada, com os
sectores mais reaccionários da sociedade; e sendo um
“señorito” teve sempre dificuldade (algo que o frustrava
enormemente) em mostrar aos operários que a Falange os
defendia; mas pelos dois factos foi sempre tolerado pelos
franquistas, bastante mais que as teorias que defendia fariam supor
(à direita chamavam à Falange “nuestros rojos”,
havendo ainda referências aos FAIlangistas – trocadilho com a
FAI anarquista; de resto o livro mostra como foram mais frequentes e
duradouros do que se supõe os contactos entre Falange e
anarquistas).
A Guerra
Civil nunca entusiasmou José Antonio, que nela via o culminar
da divisão entre os espanhóis, aquilo contra o qual
sempre lutou. Tal como teve muita dificuldade em aceitar a política
de represálias anterior ao conflito, quando na prática
a guerra já decorria nas ruas de Madrid e os falangistas eram
assassinados com inusitada frequência; a sua passividade
inicial neste aspecto levou o povo madrileno a referir-se à FE
(Falange Española) como Funerária Española.
Imatz
retrata com pormenor os problemas judiciários de José
Antonio, que levariam a diversas prisões, a última
delas fatal. Tentativas ao mais último nível para o
salvar não foram poucas, mas todas abortaram; refira-se a
censura do chefe do partido nazi em Espanha para com o cônsul
Von Knoblock, patrocinador de uma tentativa de salvamento de José
Antonio: «o que é que nós temos que ver com esse
filho de um general?».
O livro
descreve detalhadamente os problemas da Falange em aceitar a
integração na franquista Falange Española
Tradicionalista, de resto a exemplo dos carlistas. O drama da prisão
de Manuel Hedilla, que nunca aceitou esse “Anschluss”
ideológico-político é exemplar; a certo ponto
Franco desabafaria que Hedilla “é um homem inocente”.
Exemplo de como o Caudillo não controlava tudo em Espanha,
nomeadamente o espírito revanchista da velha direita
desembaraçada do bolchevismo – e do falangismo mais
intransigente.
Os
falangistas que se integraram no regime foram sempre etiquetados
pelos “puros” como traidores. No entanto o dilema não
permitia uma tomada de posição tão clara; fica a
título de exemplo o falangista Girón, que foi Ministro
do Trabalho largos anos e que tomou inúmeras medidas que
melhoraram substancialmente os direitos e condições dos
trabalhadores espanhóis. Ficar de fora era fácil;
entrar no sistema permitiu implementar muitas medidas que facilmente
seriam esquecidas por um ministro da velha direita.
Por estar
estranhamente colocado entre dois capítulos de teor histórico,
é preferível ler o capítulo “Pensar el
Nacionalsindicalismo” depois de ler os restantes, de modo a não
interromper a sequência histórica. Aí se aborda o
marxismo, o liberalismo, o fascismo, a doutrina social da Igreja e as
divergências ideológicas entre José Antonio e
Ledesma Ramos. Fica, para memoria futura, a nota sobre a forma como
José Antonio encarava as relações entre Espanha
e o nosso país: «Não creio que a Espanha
verdadeira abrigue tal sentimento [a União Ibérica].
Portugal e Espanha serão sempre duas nações
irmãs e amigas mas, note-se bem, sempre duas nações».
Até aqui o seu pensamento contrastou com certo franquismo
triunfador e arrogante que, no final da Guerra Civil, punha novamente
em questão a independência portuguesa.
Faz falta
a esta obra um índice dos nomes citados, ausência tanto
mais estranha quanto não faltam detalhes e a bibliografia é
extensa (34 páginas), incluindo a obra de juventude do Dr.
José Miguel Júdice!
Para
iniciados ou conhecedores do homem e da época, “José
Antonio: entre odio y amor” é uma obra indispensável.
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Arnaud Imatz
Páginas:
624
ISBN:
978-84-89779-90-7
€ 23
José Antonio: entre amor y odio
Su historia como fue
Editora: altera [http://www.altera.net] |
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