O
massacre dos inocentes
por José
Luís Andrade
(I)
A
recente beatificação pelo Vaticano de mais 498 mártires
da Guerra Civil de Espanha causou um profundo impacto não só
em toda a cristandade mas igualmente nas militantes hordas
anti-católicas. Fiel ao lema Não tenhais medo! o
sucessor de João Paulo II, fez jus à sua tradicional
frontalidade elevando ao panteão dos Bem-aventurados a maior
leva de testemunhas de Cristo alguma vez proclamada na
História da Igreja. Assim, em 12 cerimónias desde 1987,
os católicos passaram a contar com mais cerca de 977 beatos,
dos quais 11 são já santos, cujo sangue foi derramado
durante a Guerra Civil de Espanha e os seus prolegómenos de
34.
Cabe
perguntar porquê só com João Paulo II foram descongelados os processos que há muito aboboravam nas
secretarias do Vaticano. Vergonha, excesso de temperança,
abstrusão diplomática, tempos de camaleão?
A verdade é que o século XX foi o período da
História da Humanidade em que a Igreja Católica foi
perseguida com mais sanha, de forma mais sistemática e
alargada. Karol Woity?a disse: No fim do segundo milénio a
Igreja voltou a ser a Igreja dos Mártires. Foi com o
sangue destes, testemunho último e supremo da sua fé na
Paixão do Cristo que a Igreja foi regando ao longo dos séculos
as sementes que a Graça divina fez medrar no coração
dos fiéis. Mártires são aqueles que, muitas
vezes depois de tormentos e suplícios inenarráveis pela
sua crueldade in odium fidei morrem pela sua adesão à
Fé verdadeira, dando testemunho do Perdão e da
Confiança na Vida Eterna. Da classificação de mártir exclui a Igreja aqueles que morreram por
eminentes razões políticas ou estritamente pessoais.
Depois de recuperar a memória dos assassinados pela Revolução
Francesa (e dos massacres da Vendeia), da Guerra dos Boxers na China,
dos mártires cristeros do México para além
dos que sucumbiram às perseguições do
materialismo totalitário o Vaticano abriu finalmente a porta à
causa dos mártires espanhóis da GCE. Cerca de 7 mil
religiosos, seminaristas e membros do clero secular foram
assassinados em Espanha; muitos leigos o foram também, aos
milhares, apenas por serem católicos. Para melhor percebermos
o cenário subjacente à perseguição
religiosa em Espanha, apresentado tantas vezes em roupagens
obnubilantes e equívocas, vejamos algumas reflexões
sobre o conflito.
Os
antecedentes profundos da última guerra civil em Espanha
Espanha
atravessou o séc. XIX numa agitação quase
permanente quando não numa guerra civil crónica.
Assistiu-se ao confronto entre Duas Espanhas: a do Sistema,
conservadora e acrítica, assente nos multisseculares pilares
do regime monárquico e da Igreja Católica, contestada
pela anti-clerical, subversiva e fracturante. São as Espanhas
dos patriotas contra afrancesados na libertação da
ocupação francesa, dos liberais contra absolutistas nas
guerras civis, de progressistas contra moderados na dinâmica do
liberalismo, dos movimentos revolucionários das classes
proletárias contra a sociedade burguesa, de anti-clericais
contra católicos, de separatistas contra unitários,
etc.. É nessa complexa teia de tensões políticas
e sociais que se deve encontrar o fermento que faria levedar a
sociedade espanhola pelo século XX fora. Ao contrário
do que pretendem muitos analistas a tragédia da GCE não surgiu como resultado de
uma inevitável luta de classes mas sobretudo do incontrolado
agravamento dessas tensões quando o próprio Poder do
Estado se encarregou de as fomentar.
Uma
incursão pelo sótão da nossa memória
histórica, permite encontrar a semente dessas fracturas
sociais na poeira filosófica levantada pelos movimentos da
Reforma, no século XVI. Por permanente cisão e
refinamento, as ideias mais extremistas que deles derivaram vieram a
incubar no século XVII para germinarem no século XVIII,
culminando com a Revolução Francesa que,
convencionalmente, delimita o início da Idade Contemporânea.
Após
um complexo e intrincado período político dominado pela
confrontação velada, e ocasionalmente explícita,
das Duas Espanhas em gestação (com os soberanos a
procurarem arbitrar a seu favor quer uma quer outra quando não
uma virtual terceira), os sectores mais radicais do Poder, afiliados
geralmente à Maçonaria, aproveitando-se da pressão
e agitação das guerras carlistas, viram o seu poder
crescer conseguindo afastar os liberais moderados, ditos doceañistas que se reviam na Constituição de 1812. Estes haviam
conseguido a aprovação de uma Carta constitucional, o Estatuto Real, onde se estabelecia o regime parlamentar a duas
câmaras, o Senado e a dos Procuradores. Mas, mercê de uma
hábil propaganda, sobretudo junto das classes baixas urbanas,
os radicais utilizaram a identificação de parte do
clero com a causa carlista para provocar uma campanha de perseguição
à Igreja. Nalgumas cidades, bandos exaltados queimaram
conventos e cometeram inúmeras atrocidades, chegando a
assassinar aleivosamente vários religiosos. Toda esta onda
anti-clerical foi cavalgada pelos sectores radicais que habilmente
conseguiram colocar no governo um dos seus, Mendizábal, tido
como agente inglês. Aproveitando a conjuntura política,
promoveu as chamadas medidas de desamortização que
conduziram ao confisco e alienação dos bens da
Igreja, com o pretexto da necessidade de fundos para suportar os
custos da prolongada guerra. Muitos membros da fidalguia e da grande
burguesia urbana aproveitaram então para enriquecer ainda mais
com a compra, muitas vezes fraudulenta, das ex-propriedades da
Igreja, aumentando latifúndios de gestão absentista e
empobrecendo as condições dos trabalhadores rurais e
rendeiros. Com as várias medidas legislativas (1812, 1820,
1837 e 1868) que lhe confiscaram os bens, a Igreja veio a tornar-se
dependente do Estado e dos donativos dos fiéis cada vez mais
pressionados e perseguidos pela sua crendice.
O
anti-clericalismo tinha-se tornado claramente na principal imagem de
marca dos eufemisticamente chamados progressistas. Durante todo o
séc. XIX seriam imoladas 371 vítimas do ódio à
Igreja .
Salvo algumas excepções de natureza que diríamos
idiossincrática, estes anos conturbados da história de
Espanha apresentam uma manifesta similitude com o mesmo período
da história de Portugal. Esse facto não é para
estranhar se reflectirmos quer sobre os ventos que traziam as novas
correntes do pensamento político e social,
cripto-internacionalistas, quer sobre a natureza das forças
que os agitavam.
No
séc. XIX espanhol, a confusão, os fluxos e refluxos das
tendências, as guerras carlistas, constituíram uma
constante até à profunda prostração
anímica causada pela perda das Filipinas e de Cuba, conjugada
com a dolorosa humilhação da derrota na guerra
hispano-americana. Espanha assistia impotente à derrocada do
seu Império ultramarino. O pessimismo, a desorientação
e a miséria em que a sociedade espanhola de então se
afundou, aqui e ali disfarçadas pelo arreigado mas desgastante
orgulho castelhano, produziram uma profunda anemia espiritual que
haveria de perdurar por muitos anos.
Cabeça
de um Império fenecido, Espanha estrebuchava então na
agitação turbulenta do reajustamento social, enevoado
em nostalgia de grandeza passada e em ânsia de futuro. A
urgente necessidade de reformas sociais surgia descompassada da
pusilânime atitude das elites dirigentes. Pobreza e fome,
anseios e violência, promessas e demagogia, desumanidade e
euforia de um lado e surdez, sobranceria, inoperância e
impotência de outro, criaram um cocktail explosivo que
veio rebentar da forma trágica e violenta que, pelos vistos,
sempre se associa à natureza espanhola.
A
implantação da República em 1931, um ano e pouco
mais a seguir à queda da ditadura de Primo de
Rivera, permitiu a agitação incontrolada dos
extremistas de esquerda o que, entre outras consequências,
levou mais uma vez à queima de conventos e igrejas,
principalmente em Madrid e no Sul. A ascensão inicial dos
socialistas e de outras formações esquerdistas e
anarquistas, fugazmente contrariada pelo reaparecimento em força
da direita católica republicana nas eleições de
fins de 1933, as múltiplas e extensas greves, o
pronunciamento falhado de Sanjurjo, as tensões
autonomistas das regiões, as revoltas nas Astúrias e na
Catalunha, o aparecimento da Frente Popular, transformaram a Espanha
num barril de pólvora destinado a explodir ao menor incidente.
Todas estas ocorrências, fomentando medos e ódios
mútuos, estimularam a radicalização da
actividade política, tendo surgido, associadas aos partidos,
organizações paramilitares mais ou menos oficiais, como seria de esperar. Não deixa de
ser curioso que os partidos doutrinariamente mais anti-militaristas
tivessem sido os primeiros a organizar-se em unidades de choque,
tendo começado a fazê-lo logo após a implantação
da República. A impunidade resultante da detenção
do poder por forças políticas amigas ou condescendentes
permitiu que socialistas e outros militantes da Esquerda criassem
grupos paramilitares. Não foi, pois, coincidência que
fossem também eles os primeiros a aludir ao uso da força
para o caso de as eleições lhes não virem a
correr de feição.
Nesse
ambiente de crescente crispação e arrogância
anti-democrática, fomentado pelas forças no poder, e
perante a percepção generalizada de uma iminente
revolução socialista, o assassínio de Calvo
Sotelo — um dos mais eminentes chefes parlamentares da Direita —,
por elementos das próprias forças de segurança,
veio proporcionar o detonador que faltava. Alguns oficiais ,
secundados pelos partidos e movimentos mais reprimidos, revoltaram-se
em Julho de 36. Um deles, o Gen. Francisco Franco Bahamonde,
paulatinamente consolidado como chefe incontestado e proclamado, em 1
de Outubro desse mesmo ano, Caudillo de España, viria a
governar o país com mão de ferro enluvada, durante
quase quarenta anos...
Perante
a evidência de uma revolução social muito para
além do constitucionalmente permitido, a reacção
da Outra Espanha era inevitável, quase uma auto-defesa
de quem recusava a vocação de vítima
propiciatória a ser imolada no altar da Revolução.
A Guerra Civil declarada era uma questão de tempo...
Os
cenários da repressão
Por
debaixo daquela confusão de frivolidade e heroísmo, de
batalhas verdadeiras e de paradas inócuas, de abnegação
silenciosa nuns e de ruidosa petulância noutros, a obra sombria
da vingança prosseguiu estendendo cada noite a sua mancha
repulsiva. Os dois impulsos cegos que desencadearam sobre Espanha
tantos horrores, foram o ódio e o medo. Ódio destilado
lentamente, durante anos, no coração dos
desfavorecidos. Ódio dos soberbos, pouco dispostos a suportar
a “insolência” dos humildes. Ódio das ideologias
contra-postas, espécie de ódio teológico como
que se pretende justificar a intolerância e o fanatismo. Uma
parte do país odiava a outra, e temia-a. Medo de ser devorado
por um inimigo emboscado: a sublevação militar e a
guerra foram, oficialmente, preventivas, para impedir uma revolução
comunista. As atrocidades suscitadas pela guerra em toda a Espanha
foram a libertação monstruosa do ódio e do
pavor. O ódio satisfazia-se com o extermínio. A
humilhação de haver tido medo, e a ânsia de o não
ter mais, atiçavam a fúria. Como se a guerra civil não
fosse já suficientemente uma desgraça,
acrescentou-se-lhe o espectáculo da vingança homicida.
La
velada de Benicarló, Manuel Azaña
Nestas
palavras seguramente sentidas, Azaña pinta com inusitada
clarividência a cena subjacente aos traços da repressão
verificada nos dois lados. Mas para além de ajustadas aos
acontecimentos que então se viviam em Espanha, as suas
palavras não deixam de ser insólitas; Azaña era
afinal o Presidente de uma das Espanhas de que falava e só com
muita irresponsabilidade ou desfaçatez se podia pretender
sobre-elevar e distanciar das partes em conflito. Poucas foram as
personagens que conseguiram, na altura, analisar com detalhe e
elevação as causas objectivas da guerra, despindo-se de
preconceitos e mitos. Recentemente, considerando porventura que o
distanciamento cronológico teria já permitido esfriar
as emoções e as paixões ideologicamente
condicionadas, são vários os autores que se têm
vindo a debruçar sobre a questão das vítimas
mortais da repressão na GCE. A tónica geral dos
modernos simpatizantes da causa da Frente Popular é a
de afirmar, por um lado, que o terror que se verificou durante a
vigência do governo da Frente foi, na sua maioria, espontâneo
e uma resposta ao dos sublevados e, por outro, que a
responsabilidade de ter existido deve recair, em última
análise, sobre os revoltosos que se levantaram contra a
legalidade democrática. Insistem ainda, procurando o lugar
mais elevado do podium da superioridade moral, que o número
de vítimas às mãos dos insurrectos foi pelo
menos o triplo das que caíram sob os exageros e desmandos dos
partidários do Governo. Esta posição é
particularmente realçada num estudo colectivo, coordenado por
Santos Juliá e intitulado Víctimas de la Guerra
Civil (embora
só trate as da repressão), dado a lume em 1999.
Infelizmente e contrariamente aos propósitos conciliatórios
enunciados, o facciosismo dos autores turva-lhes a lucidez e
impede-os de se libertarem de elaborações mentais
preconceituosas, de natureza ideológica. Muitos destes autores
gozam do prestígio dado pela auréola de historiadores
consagrados que foram adquirindo pelo conivente acesso a influentes
tribunas de informação e divulgação,
controladas por grupos financeiros simpatizantes (por convicção
ou conveniência) de causas que foram derrotadas na GCE.
Persistem e insistem na Lenda Negra da repressão fascista e na vilanização dos sublevados. Perante a questão
da repressão, pretendem-se sempre neutros e imparciais. O seu
posicionamento justificativista da repressão
governamental oscila entre a confirmação, pela
necessidade de eliminação de quintas colunas, e a
diferenciação qualitativa e minimizada das acções,
tendo por contraponto um aumento exagerado da repressão dos
rebeldes. Em todos eles surge, de forma mais clara ou mais subtil, a
ideia de que havia duas classes de mortos, os bons e os maus, de
acordo com o mais ortodoxo maniqueísmo marxista. O género
tem tido também entre nós alguns cultores, sobressaindo
as chorrilhadas de um Viale Moutinho ou a compulsiva miopia de Iva
Delgado e Fernando Rosas. Quase todos os autores nacionais
simpatizantes do Governo da Frente Popular acentuam como fonte
documental unilateral os relatos dos refugiados que afluíram
ao nosso país vindos de zonas onde efectivamente a actuação
repressiva dos insurrectos foi inegavelmente das mais violentas como
em Tuy ou na Extremadura.
O
terror dito populista nasce anos antes da GCE e foi
paulatinamente estimulado e acarinhado pelos dirigentes das
principais organizações políticas que mais tarde
convergiriam na Frente, os quais cultivavam abertamente o ódio
e o rancor como virtudes revolucionárias imprescindíveis .
A desfaçatez chegou a tal ponto que um Governador Civil,
nomeado após a vitória de Fevereiro para Oviedo, teve o
descaramento de declarar à imprensa :
...Nomeei
delegados da Frente Popular em todas as Astúrias, os quais têm
realizado batidas antifascistas com bons resultados: têm metido
na prisão a padres, médicos, secretários de
Câmaras Municipais e o que for. Cumprem admiravelmente o seu
objectivo. Muitos delegados são comunistas, alguns
inclusivamente condenados à morte pela sua intervenção
nos acontecimentos de Outubro...
Analisadas
as publicações e os documentos da época, salvo
raras excepções, pouco de semelhante se verifica no
lado contrário, nem em intensidade nem em frequência.
Aliás, basta perceber que as questões fulcrais na
origem próxima da GCE são o posicionamento face
à Ordem, à unidade de Espanha e, sobretudo, à
Religião para se pressupor o condicionamento amortecedor
generalizado que este último factor provocou na atitude e nos
propósitos dos sublevados.
Mas
mesmo se os contornos e forma da repressão foram diferentes
ele não deixou de estar bem presente nas zonas que
gradualmente iam sendo ocupadas pelos rebeldes, com toda a sanha de
empedernida vingança. Os inimigos da causa dos insurgidos
recorrem amiúde ao testemunho de dois trânsfugas que
resolveram relatar o que viram e ouviram. Na realidade, tudo
espremido da ganga intoxicante, eles vieram apenas confirmar o que já
se sabia: que a repressão nas zonas ocupadas pelos insurgentes
foi dura e inclemente. António Bahamonde, delegado de
propaganda de Queipo de Llano em Sevilha, tendo desertado por razões
ainda hoje mal esclarecidas, declarou no seu livro, Un año
con Queipo, editado por Ediciones Españolas, Barcelona,
1938, que na zona governamental não tinham assassinado
nenhum sacerdote nem havia perseguição aos
católicos...e que só Queipo tinha mandado matar
150.000 pessoas; as afirmações são de tal
forma contrárias ao então sabido, e mais tarde
confirmado por trabalhos como o de António Montero Moreno
sobre a perseguição religiosa, que o testemunho se
desacredita por ele próprio. O outro, António Ruiz
Vilaplana, secretário judicial em Burgos até meados de
37, informa em Doy fe, Perso, Buenos Aires, 1938, sobre a
criação dos tribunais militares e a intensa actividade
processual dos Conselhos de Guerra. Vilaplana atribui à Guardia Civil e às forças clericais a
responsabilidade pela maior parte da actividade repressiva da
retaguarda rebelde. Surpreendentemente, face ao mito, declara que a
Falange, à qual com notória injustiça se tem
atribuído geralmente e quase em exclusividade os crimes
perpetrados, tem sido seguramente a que menos vítimas tem
causado. Com a mesma orientação se destacou o
escritor francês George Bernanos; por se tratar de um
conservador e com um filho a militar na Falange, o seu livro Les grands cimitières sous la lune, Plon, 1938, foi
prontamente traduzido para vários idiomas, tendo-se tornado
num formidável libelo propagandístico para o regime de
Madrid. Na obra, denuncia-se de forma apaixonada e parcial a
repressão (confundindo-a amiúde com operações
militares) realizada em Mallorca pelos insurgentes, com gravíssimas
acusações para as ditas forças clericais.
Quanto
à sua espontaneidade, justificação sempre
presente na tese que baseia as acções criminosas dos
esquerdistas em elementos incontrolados, basta analisar a
criação e funcionamento das checas , espontaneamente organizadas pela Direcção Geral
de Segurança, ou pelos Sindicatos, ou pelos Partidos. Quer
objectivamente quer nas intenções declaradas, o terror
na retaguarda governamental foi mais consentido e fomentado que no
lado contrário. Ele foi estrategicamente organizado pelos
sectores com poder em Madrid, com o apoio de experientes consultores
soviéticos. E, em não raras ocasiões, foi
utilizado como instrumento de domesticação, contenção
e repressão das próprias organizações que
apoiavam a Frente Popular, em proveito, sobretudo, da ascensão
dos Comunistas controlados por Moscovo. Também o argumento de
que os massacres teriam resultado do estado emocional provocado por
sanguinária iniciativa contrária não colhe nem
pelos antecedentes, nem pelas afirmações e praxis verificadas nos apoiantes da Frente, nem pela cronologia dos
factos; linchamentos, paseos e sacas foram efectuados sem que houvesse possibilidade de conhecer o que se
passava no outro lado.
Quanto
à alegada ilegitimidade do levantamento de Julho de 36 e
independentemente da mais que questionável validade do
resultado eleitoral de Fevereiro, basta considerar as autorizadas
palavras do insuspeito Salvador de Madariaga que afirmou que com a
insurreição das Astúrias (e da Catalunha,
acrescento eu) as esquerdas tinham perdido qualquer direito moral
a condenar o levantamento direitista de 36. Efectivamente, a
pressão ilegal exercida sobre os partidos que haviam perdido
por uma margem mínima as mais que duvidosas eleições,
o autêntico frenesim anti-clerical e a brutal repressão
exercida sobre os movimentos mais recalcitrantes não deixava
outra saída que a revolta. Azaña e os seus compagnons
de route de então não procederam em conformidade
com o espírito que deve sempre presidir à governação
de um povo ou mesmo de um simples grupo.
Com
efeito, parafraseando as palavras de um conhecido estadista, governar
democraticamente um povo não é igualar os seus
componentes nem sacrificar uma parte em benefício de outra. É
propender para um equilíbrio que favoreça a Unidade
Nacional, procurando desenvolver a solidariedade entre as partes, que
são heterogéneas sem serem obrigatoriamente
antagónicas. A heterogeneidade é natural, pela
diversidade de aptidões e tendências humanas; e é
proveitosa porque engendra as desigualdades necessárias para
as múltiplas funções da vida de uma sociedade. Sendo naturais, as desigualdades não podem ser suprimidas,
nem conviria suprimi-las, ainda que se pudesse, visto que a
solidariedade consiste em equilibrá-las, criando-se a igualdade diante do Direito, para que todas as desigualdades se
possam desenvolver em proveito da Sociedade.
A
mesma preocupação pela verdadeira essência do
problema aparece expressa no comentário oficial do governo
português a um Memorandum dos governos inglês e
francês sobre a GCE. O Doutor Salazar que então
sobraçava também a pasta dos Negócios
Estrangeiros, afirma:
O
que importa em Espanha não é a guerra, é a paz;
não são os horrores da luta, as mortes e os sofrimentos
que esta traz, a perdoar e esquecer, mas os crimes perpetrados quando
não havia luta e onde ainda não há luta –
crimes que não interessam ao desfecho da contenda senão
porque traduzem uma orientação, uma doutrina, uma
política. E não parece justo dar um passo que possa vir
a garantir a liberdade e até uma situação
política aos seus fautores. Isto em nome da humanidade.
O
Governo português não se atreve, em virtude do exposto,
a dar a sua adesão a essa ideia aparentemente generosa mas
que, além do mais, se baseia numa confiança em actos
eleitorais que ele não pode partilhar, que não atende à
dificuldade invencível de garantir um mínimo de
liberdade aos que não usam do terror como arma política,
nem tem em conta o valor relativo das ideias e das posições
morais. Mas se vier a convencer-se de que os contentores aceitam e
desejam livremente a mediação proposta, de bom grado o
governo português se prestará a estudar com os outros
Governos a forma que deveria tomar a acção mediadora
encarada.
Nos
dois próximos números da Alameda abordaremos Os
factos, A contagem das vítimas e A cronologia da
repressão e, finalmente, A caracterização
sócio-professional das vítimas e As formas de
repressão.
NA: Depois da redacção deste artigo inicial chegou a meu conhecimento a publicação de um colectânea de textos intitulada "Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois" organizada por Jorge Fazenda Lourenço e Inês Espada Vieira e publicada pela editora da Univ. Católica. Não podemos deixar num póximo número de traçar uma análise crítica sobre este trabalho que se nos afigura desde já lamentável, mípoe e preconceituoso. A abertura é feita pelo inefável publicista Paul Preston, figura destacada do anti-fascismo internacional e manifesto simpatizante da causa da Frente Popular que foi exactamente a responsável pelo assassínio dos mártires católicos. Que pena...
_______________________
[1] Lenin, no II Congresso do Komintern, disse :
Afirmo, e a história dar-me-á razão,
que o segundo país em que se instaurará a ditadura
proletária será certamente Espanha ... [voltar]
[2] V.g. Los mártires del siglo XIX, de Francisco Muns y
Castellet [voltar]
[3] Milícias Antifascistas Obreras y Campesinas (comunistas), Milícias socialistas (P.S.O.E.), Requetés (carlistas), Primera Línea
(falangistas), Legionarios de España (Partido
Nacionalista Español), Juventudes de Acción Popular (C.E.D.A.), Mendigoitzales (P.N.V.), Escamots (Estat
Catalá), etc. [voltar]
[4] Uma escassa minoria de oficiais superiores e cerca de metade dos
oficiais mais jovens aderiram ao Levantamento. Muitos eram
comprovadamente republicanos de longa data… [voltar]
[5] Num autêntico paradigma e súmula daquelas posições,
Joan Villaroya i Font e Josep Sole i Sabate manifestam, numa óptica
parcial e preconceituosa que claramente denuncia o carácter
marcadamente apologético e propagandístico, que:
A repressão exercida pelos assalariados e camponeses,
por trabalhadores e operários e também pela aplicação
da lei então vigente, era para defender os avanços
sociais e políticos de um dos países com mais
injustiça social da Europa. Os muitos erros que
indubitavelmente se cometeram, pretendiam defender uma sociedade
nova. Mais livre e mais justa. A repressão dos sublevados e
dos seus seguidores era para defender uma sociedade de privilégios. [voltar]
[6] Como afirma o insuspeito Stanley Payne, na sua obra, La primera
democracia española:
A maioria das vítimas das agressões políticas
foram direitistas ou não esquerdistas assassinados por
esquerdistas, embora alguns destes últimos tenham caído
assassinados por direitistas e falangistas. De qualquer modo, a
maioria das baixas sofridas pela esquerda (antes da GCE) foi causada
pela Polícia na repressão de manifestações
e distúrbios. [voltar]
[7] Mundo Obrero, 20 de Abril de 1936 [voltar]
[8] Os partidos políticos e as organizações
sindicais apoiantes do Governo (Partido Comunista, Socialista,
C.N.T., J.S.U., etc.) estabeleceram em numerosos edifícios
ocupados, comissões com poderes ilimitados para realizar
detenções, requisições e execuções.
Pela primazia na sua génese, estes locais foram conhecidos
como checas, da designação da primeira polícia
política bolchevique, na Rússia de 1917: CHEKA é
o acrónimo de Comissão Extraordinária para a
Supressão da Subversão e da Espionagem, em russo.
Existiram inúmeras (só em Madrid 226), equipadas com
câmaras de tortura e celas de detenção. [voltar]
[9] Quase sempre pela calada da noite, qual gangsters de Al
Capone, bandos armados detinham adversários políticos
e, depois de os haverem conduzido até um lugar ermo,
executavam-nos. Parques e proximidades de cemitérios eram,
geralmente, os lugares de eleição. [voltar]
[10] A designação de sacas compreende o acto de, à
margem de toda a legalidade, milicianos ou militantes políticos,
irem aos locais de detenção de prisioneiros e
selectivamente, mediante listas previamente elaboradas, ou por
reconhecimento à vista, ou de forma indiscriminada retirarem
os seleccionados para, de seguida, os torturarem e/ou os lincharem.
Muitas vezes, a sanha de chacina era tanta que procediam ao assalto
das prisões, mesmo que as forças de protecção
governamentais o tentassem impedir, para de seguida assassinar
indiscriminadamente todos os presos que encontrassem pela frente;
era então o asalto. Em sacas e asaltos foram massacradas milhares de pessoas. [voltar]
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