Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Tradição e Modernidade
O massacre dos inocentes

por José Luís Andrade

(I)

A recente beatificação pelo Vaticano de mais 498 mártires da Guerra Civil de Espanha causou um profundo impacto não só em toda a cristandade mas igualmente nas militantes hordas anti-católicas. Fiel ao lema Não tenhais medo! o sucessor de João Paulo II, fez jus à sua tradicional frontalidade elevando ao panteão dos Bem-aventurados a maior leva de testemunhas de Cristo alguma vez proclamada na História da Igreja. Assim, em 12 cerimónias desde 1987, os católicos passaram a contar com mais cerca de 977 beatos, dos quais 11 são já santos, cujo sangue foi derramado durante a Guerra Civil de Espanha e os seus prolegómenos de 34.

Cabe perguntar porquê só com João Paulo II foram descongelados os processos que há muito aboboravam nas secretarias do Vaticano. Vergonha, excesso de temperança, abstrusão diplomática, tempos de camaleão? A verdade é que o século XX foi o período da História da Humanidade em que a Igreja Católica foi perseguida com mais sanha, de forma mais sistemática e alargada. Karol Woity?a disse: No fim do segundo milénio a Igreja voltou a ser a Igreja dos Mártires. Foi com o sangue destes, testemunho último e supremo da sua fé na Paixão do Cristo que a Igreja foi regando ao longo dos séculos as sementes que a Graça divina fez medrar no coração dos fiéis. Mártires são aqueles que, muitas vezes depois de tormentos e suplícios inenarráveis pela sua crueldade in odium fidei morrem pela sua adesão à Fé verdadeira, dando testemunho do Perdão e da Confiança na Vida Eterna. Da classificação de mártir exclui a Igreja aqueles que morreram por eminentes razões políticas ou estritamente pessoais. Depois de recuperar a memória dos assassinados pela Revolução Francesa (e dos massacres da Vendeia), da Guerra dos Boxers na China, dos mártires cristeros do México para além dos que sucumbiram às perseguições do materialismo totalitário o Vaticano abriu finalmente a porta à causa dos mártires espanhóis da GCE. Cerca de 7 mil religiosos, seminaristas e membros do clero secular foram assassinados em Espanha; muitos leigos o foram também, aos milhares, apenas por serem católicos. Para melhor percebermos o cenário subjacente à perseguição religiosa em Espanha, apresentado tantas vezes em roupagens obnubilantes e equívocas, vejamos algumas reflexões sobre o conflito.

Os antecedentes profundos da última guerra civil em Espanha

Espanha atravessou o séc. XIX numa agitação quase permanente quando não numa guerra civil crónica. Assistiu-se ao confronto entre Duas Espanhas: a do Sistema, conservadora e acrítica, assente nos multisseculares pilares do regime monárquico e da Igreja Católica, contestada pela anti-clerical, subversiva e fracturante. São as Espanhas dos patriotas contra afrancesados na libertação da ocupação francesa, dos liberais contra absolutistas nas guerras civis, de progressistas contra moderados na dinâmica do liberalismo, dos movimentos revolucionários das classes proletárias contra a sociedade burguesa, de anti-clericais contra católicos, de separatistas contra unitários, etc.. É nessa complexa teia de tensões políticas e sociais que se deve encontrar o fermento que faria levedar a sociedade espanhola pelo século XX fora. Ao contrário do que pretendem muitos analistas a tragédia da GCE não surgiu como resultado de uma inevitável luta de classes mas sobretudo do incontrolado agravamento dessas tensões quando o próprio Poder do Estado se encarregou de as fomentar.

Uma incursão pelo sótão da nossa memória histórica, permite encontrar a semente dessas fracturas sociais na poeira filosófica levantada pelos movimentos da Reforma, no século XVI. Por permanente cisão e refinamento, as ideias mais extremistas que deles derivaram vieram a incubar no século XVII para germinarem no século XVIII, culminando com a Revolução Francesa que, convencionalmente, delimita o início da Idade Contemporânea.

Após um complexo e intrincado período político dominado pela confrontação velada, e ocasionalmente explícita, das Duas Espanhas em gestação (com os soberanos a procurarem arbitrar a seu favor quer uma quer outra quando não uma virtual terceira), os sectores mais radicais do Poder, afiliados geralmente à Maçonaria, aproveitando-se da pressão e agitação das guerras carlistas, viram o seu poder crescer conseguindo afastar os liberais moderados, ditos doceañistas que se reviam na Constituição de 1812. Estes haviam conseguido a aprovação de uma Carta constitucional, o Estatuto Real, onde se estabelecia o regime parlamentar a duas câmaras, o Senado e a dos Procuradores. Mas, mercê de uma hábil propaganda, sobretudo junto das classes baixas urbanas, os radicais utilizaram a identificação de parte do clero com a causa carlista para provocar uma campanha de perseguição à Igreja. Nalgumas cidades, bandos exaltados queimaram conventos e cometeram inúmeras atrocidades, chegando a assassinar aleivosamente vários religiosos. Toda esta onda anti-clerical foi cavalgada pelos sectores radicais que habilmente conseguiram colocar no governo um dos seus, Mendizábal, tido como agente inglês. Aproveitando a conjuntura política, promoveu as chamadas medidas de desamortização que conduziram ao confisco e alienação dos bens da Igreja, com o pretexto da necessidade de fundos para suportar os custos da prolongada guerra. Muitos membros da fidalguia e da grande burguesia urbana aproveitaram então para enriquecer ainda mais com a compra, muitas vezes fraudulenta, das ex-propriedades da Igreja, aumentando latifúndios de gestão absentista e empobrecendo as condições dos trabalhadores rurais e rendeiros. Com as várias medidas legislativas (1812, 1820, 1837 e 1868) que lhe confiscaram os bens, a Igreja veio a tornar-se dependente do Estado e dos donativos dos fiéis cada vez mais pressionados e perseguidos pela sua crendice.

O anti-clericalismo tinha-se tornado claramente na principal imagem de marca dos eufemisticamente chamados progressistas. Durante todo o séc. XIX seriam imoladas 371 vítimas do ódio à Igreja. Salvo algumas excepções de natureza que diríamos idiossincrática, estes anos conturbados da história de Espanha apresentam uma manifesta similitude com o mesmo período da história de Portugal. Esse facto não é para estranhar se reflectirmos quer sobre os ventos que traziam as novas correntes do pensamento político e social, cripto-internacionalistas, quer sobre a natureza das forças que os agitavam.

No séc. XIX espanhol, a confusão, os fluxos e refluxos das tendências, as guerras carlistas, constituíram uma constante até à profunda prostração anímica causada pela perda das Filipinas e de Cuba, conjugada com a dolorosa humilhação da derrota na guerra hispano-americana. Espanha assistia impotente à derrocada do seu Império ultramarino. O pessimismo, a desorientação e a miséria em que a sociedade espanhola de então se afundou, aqui e ali disfarçadas pelo arreigado mas desgastante orgulho castelhano, produziram uma profunda anemia espiritual que haveria de perdurar por muitos anos.

Cabeça de um Império fenecido, Espanha estrebuchava então na agitação turbulenta do reajustamento social, enevoado em nostalgia de grandeza passada e em ânsia de futuro. A urgente necessidade de reformas sociais surgia descompassada da pusilânime atitude das elites dirigentes. Pobreza e fome, anseios e violência, promessas e demagogia, desumanidade e euforia de um lado e surdez, sobranceria, inoperância e impotência de outro, criaram um cocktail explosivo que veio rebentar da forma trágica e violenta que, pelos vistos, sempre se associa à natureza espanhola.

A implantação da República em 1931, um ano e pouco mais a seguir à queda da ditadura de Primo de Rivera, permitiu a agitação incontrolada dos extremistas de esquerda o que, entre outras consequências, levou mais uma vez à queima de conventos e igrejas, principalmente em Madrid e no Sul. A ascensão inicial dos socialistas e de outras formações esquerdistas e anarquistas, fugazmente contrariada pelo reaparecimento em força da direita católica republicana nas eleições de fins de 1933, as múltiplas e extensas greves, o pronunciamento falhado de Sanjurjo, as tensões autonomistas das regiões, as revoltas nas Astúrias e na Catalunha, o aparecimento da Frente Popular, transformaram a Espanha num barril de pólvora destinado a explodir ao menor incidente. Todas estas ocorrências, fomentando medos e ódios mútuos, estimularam a radicalização da actividade política, tendo surgido, associadas aos partidos, organizações paramilitares mais ou menos oficiais, como seria de esperar. Não deixa de ser curioso que os partidos doutrinariamente mais anti-militaristas tivessem sido os primeiros a organizar-se em unidades de choque, tendo começado a fazê-lo logo após a implantação da República. A impunidade resultante da detenção do poder por forças políticas amigas ou condescendentes permitiu que socialistas e outros militantes da Esquerda criassem grupos paramilitares. Não foi, pois, coincidência que fossem também eles os primeiros a aludir ao uso da força para o caso de as eleições lhes não virem a correr de feição.

Nesse ambiente de crescente crispação e arrogância anti-democrática, fomentado pelas forças no poder, e perante a percepção generalizada de uma iminente revolução socialista, o assassínio de Calvo Sotelo — um dos mais eminentes chefes parlamentares da Direita —, por elementos das próprias forças de segurança, veio proporcionar o detonador que faltava. Alguns oficiais, secundados pelos partidos e movimentos mais reprimidos, revoltaram-se em Julho de 36. Um deles, o Gen. Francisco Franco Bahamonde, paulatinamente consolidado como chefe incontestado e proclamado, em 1 de Outubro desse mesmo ano, Caudillo de España, viria a governar o país com mão de ferro enluvada, durante quase quarenta anos...

Perante a evidência de uma revolução social muito para além do constitucionalmente permitido, a reacção da Outra Espanha era inevitável, quase uma auto-defesa de quem recusava a vocação de vítima propiciatória a ser imolada no altar da Revolução. A Guerra Civil declarada era uma questão de tempo...

Os cenários da repressão

Por debaixo daquela confusão de frivolidade e heroísmo, de batalhas verdadeiras e de paradas inócuas, de abnegação silenciosa nuns e de ruidosa petulância noutros, a obra sombria da vingança prosseguiu estendendo cada noite a sua mancha repulsiva. Os dois impulsos cegos que desencadearam sobre Espanha tantos horrores, foram o ódio e o medo. Ódio destilado lentamente, durante anos, no coração dos desfavorecidos. Ódio dos soberbos, pouco dispostos a suportar a “insolência” dos humildes. Ódio das ideologias contra-postas, espécie de ódio teológico como que se pretende justificar a intolerância e o fanatismo. Uma parte do país odiava a outra, e temia-a. Medo de ser devorado por um inimigo emboscado: a sublevação militar e a guerra foram, oficialmente, preventivas, para impedir uma revolução comunista. As atrocidades suscitadas pela guerra em toda a Espanha foram a libertação monstruosa do ódio e do pavor. O ódio satisfazia-se com o extermínio. A humilhação de haver tido medo, e a ânsia de o não ter mais, atiçavam a fúria. Como se a guerra civil não fosse já suficientemente uma desgraça, acrescentou-se-lhe o espectáculo da vingança homicida.

La velada de Benicarló, Manuel Azaña

Nestas palavras seguramente sentidas, Azaña pinta com inusitada clarividência a cena subjacente aos traços da repressão verificada nos dois lados. Mas para além de ajustadas aos acontecimentos que então se viviam em Espanha, as suas palavras não deixam de ser insólitas; Azaña era afinal o Presidente de uma das Espanhas de que falava e só com muita irresponsabilidade ou desfaçatez se podia pretender sobre-elevar e distanciar das partes em conflito. Poucas foram as personagens que conseguiram, na altura, analisar com detalhe e elevação as causas objectivas da guerra, despindo-se de preconceitos e mitos. Recentemente, considerando porventura que o distanciamento cronológico teria já permitido esfriar as emoções e as paixões ideologicamente condicionadas, são vários os autores que se têm vindo a debruçar sobre a questão das vítimas mortais da repressão na GCE. A tónica geral dos modernos simpatizantes da causa da Frente Popular é a de afirmar, por um lado, que o terror que se verificou durante a vigência do governo da Frente foi, na sua maioria, espontâneo e uma resposta ao dos sublevados e, por outro, que a responsabilidade de ter existido deve recair, em última análise, sobre os revoltosos que se levantaram contra a legalidade democrática. Insistem ainda, procurando o lugar mais elevado do podium da superioridade moral, que o número de vítimas às mãos dos insurrectos foi pelo menos o triplo das que caíram sob os exageros e desmandos dos partidários do Governo. Esta posição é particularmente realçada num estudo colectivo, coordenado por Santos Juliá e intitulado Víctimas de la Guerra Civil (embora só trate as da repressão), dado a lume em 1999. Infelizmente e contrariamente aos propósitos conciliatórios enunciados, o facciosismo dos autores turva-lhes a lucidez e impede-os de se libertarem de elaborações mentais preconceituosas, de natureza ideológica. Muitos destes autores gozam do prestígio dado pela auréola de historiadores consagrados que foram adquirindo pelo conivente acesso a influentes tribunas de informação e divulgação, controladas por grupos financeiros simpatizantes (por convicção ou conveniência) de causas que foram derrotadas na GCE. Persistem e insistem na Lenda Negra da repressão fascista e na vilanização dos sublevados. Perante a questão da repressão, pretendem-se sempre neutros e imparciais. O seu posicionamento justificativista da repressão governamental oscila entre a confirmação, pela necessidade de eliminação de quintas colunas, e a diferenciação qualitativa e minimizada das acções, tendo por contraponto um aumento exagerado da repressão dos rebeldes. Em todos eles surge, de forma mais clara ou mais subtil, a ideia de que havia duas classes de mortos, os bons e os maus, de acordo com o mais ortodoxo maniqueísmo marxista. O género tem tido também entre nós alguns cultores, sobressaindo as chorrilhadas de um Viale Moutinho ou a compulsiva miopia de Iva Delgado e Fernando Rosas. Quase todos os autores nacionais simpatizantes do Governo da Frente Popular acentuam como fonte documental unilateral os relatos dos refugiados que afluíram ao nosso país vindos de zonas onde efectivamente a actuação repressiva dos insurrectos foi inegavelmente das mais violentas como em Tuy ou na Extremadura.

O terror dito populista nasce anos antes da GCE e foi paulatinamente estimulado e acarinhado pelos dirigentes das principais organizações políticas que mais tarde convergiriam na Frente, os quais cultivavam abertamente o ódio e o rancor como virtudes revolucionárias imprescindíveis. A desfaçatez chegou a tal ponto que um Governador Civil, nomeado após a vitória de Fevereiro para Oviedo, teve o descaramento de declarar à imprensa:

...Nomeei delegados da Frente Popular em todas as Astúrias, os quais têm realizado batidas antifascistas com bons resultados: têm metido na prisão a padres, médicos, secretários de Câmaras Municipais e o que for. Cumprem admiravelmente o seu objectivo. Muitos delegados são comunistas, alguns inclusivamente condenados à morte pela sua intervenção nos acontecimentos de Outubro...

Analisadas as publicações e os documentos da época, salvo raras excepções, pouco de semelhante se verifica no lado contrário, nem em intensidade nem em frequência. Aliás, basta perceber que as questões fulcrais na origem próxima da GCE são o posicionamento face à Ordem, à unidade de Espanha e, sobretudo, à Religião para se pressupor o condicionamento amortecedor generalizado que este último factor provocou na atitude e nos propósitos dos sublevados.

Mas mesmo se os contornos e forma da repressão foram diferentes ele não deixou de estar bem presente nas zonas que gradualmente iam sendo ocupadas pelos rebeldes, com toda a sanha de empedernida vingança. Os inimigos da causa dos insurgidos recorrem amiúde ao testemunho de dois trânsfugas que resolveram relatar o que viram e ouviram. Na realidade, tudo espremido da ganga intoxicante, eles vieram apenas confirmar o que já se sabia: que a repressão nas zonas ocupadas pelos insurgentes foi dura e inclemente. António Bahamonde, delegado de propaganda de Queipo de Llano em Sevilha, tendo desertado por razões ainda hoje mal esclarecidas, declarou no seu livro, Un año con Queipo, editado por Ediciones Españolas, Barcelona, 1938, que na zona governamental não tinham assassinado nenhum sacerdote nem havia perseguição aos católicos...e que só Queipo tinha mandado matar 150.000 pessoas; as afirmações são de tal forma contrárias ao então sabido, e mais tarde confirmado por trabalhos como o de António Montero Moreno sobre a perseguição religiosa, que o testemunho se desacredita por ele próprio. O outro, António Ruiz Vilaplana, secretário judicial em Burgos até meados de 37, informa em Doy fe, Perso, Buenos Aires, 1938, sobre a criação dos tribunais militares e a intensa actividade processual dos Conselhos de Guerra. Vilaplana atribui à Guardia Civil e às forças clericais a responsabilidade pela maior parte da actividade repressiva da retaguarda rebelde. Surpreendentemente, face ao mito, declara que a Falange, à qual com notória injustiça se tem atribuído geralmente e quase em exclusividade os crimes perpetrados, tem sido seguramente a que menos vítimas tem causado. Com a mesma orientação se destacou o escritor francês George Bernanos; por se tratar de um conservador e com um filho a militar na Falange, o seu livro Les grands cimitières sous la lune, Plon, 1938, foi prontamente traduzido para vários idiomas, tendo-se tornado num formidável libelo propagandístico para o regime de Madrid. Na obra, denuncia-se de forma apaixonada e parcial a repressão (confundindo-a amiúde com operações militares) realizada em Mallorca pelos insurgentes, com gravíssimas acusações para as ditas forças clericais.

Quanto à sua espontaneidade, justificação sempre presente na tese que baseia as acções criminosas dos esquerdistas em elementos incontrolados, basta analisar a criação e funcionamento das checas, espontaneamente organizadas pela Direcção Geral de Segurança, ou pelos Sindicatos, ou pelos Partidos. Quer objectivamente quer nas intenções declaradas, o terror na retaguarda governamental foi mais consentido e fomentado que no lado contrário. Ele foi estrategicamente organizado pelos sectores com poder em Madrid, com o apoio de experientes consultores soviéticos. E, em não raras ocasiões, foi utilizado como instrumento de domesticação, contenção e repressão das próprias organizações que apoiavam a Frente Popular, em proveito, sobretudo, da ascensão dos Comunistas controlados por Moscovo. Também o argumento de que os massacres teriam resultado do estado emocional provocado por sanguinária iniciativa contrária não colhe nem pelos antecedentes, nem pelas afirmações e praxis verificadas nos apoiantes da Frente, nem pela cronologia dos factos; linchamentos, paseos e sacas foram efectuados sem que houvesse possibilidade de conhecer o que se passava no outro lado.

Quanto à alegada ilegitimidade do levantamento de Julho de 36 e independentemente da mais que questionável validade do resultado eleitoral de Fevereiro, basta considerar as autorizadas palavras do insuspeito Salvador de Madariaga que afirmou que com a insurreição das Astúrias (e da Catalunha, acrescento eu) as esquerdas tinham perdido qualquer direito moral a condenar o levantamento direitista de 36. Efectivamente, a pressão ilegal exercida sobre os partidos que haviam perdido por uma margem mínima as mais que duvidosas eleições, o autêntico frenesim anti-clerical e a brutal repressão exercida sobre os movimentos mais recalcitrantes não deixava outra saída que a revolta. Azaña e os seus compagnons de route de então não procederam em conformidade com o espírito que deve sempre presidir à governação de um povo ou mesmo de um simples grupo.

Com efeito, parafraseando as palavras de um conhecido estadista, governar democraticamente um povo não é igualar os seus componentes nem sacrificar uma parte em benefício de outra. É propender para um equilíbrio que favoreça a Unidade Nacional, procurando desenvolver a solidariedade entre as partes, que são heterogéneas sem serem obrigatoriamente antagónicas. A heterogeneidade é natural, pela diversidade de aptidões e tendências humanas; e é proveitosa porque engendra as desigualdades necessárias para as múltiplas funções da vida de uma sociedade. Sendo naturais, as desigualdades não podem ser suprimidas, nem conviria suprimi-las, ainda que se pudesse, visto que a solidariedade consiste em equilibrá-las, criando-se a igualdade diante do Direito, para que todas as desigualdades se possam desenvolver em proveito da Sociedade.

A mesma preocupação pela verdadeira essência do problema aparece expressa no comentário oficial do governo português a um Memorandum dos governos inglês e francês sobre a GCE. O Doutor Salazar que então sobraçava também a pasta dos Negócios Estrangeiros, afirma:

O que importa em Espanha não é a guerra, é a paz; não são os horrores da luta, as mortes e os sofrimentos que esta traz, a perdoar e esquecer, mas os crimes perpetrados quando não havia luta e onde ainda não há luta – crimes que não interessam ao desfecho da contenda senão porque traduzem uma orientação, uma doutrina, uma política. E não parece justo dar um passo que possa vir a garantir a liberdade e até uma situação política aos seus fautores. Isto em nome da humanidade.

O Governo português não se atreve, em virtude do exposto, a dar a sua adesão a essa ideia aparentemente generosa mas que, além do mais, se baseia numa confiança em actos eleitorais que ele não pode partilhar, que não atende à dificuldade invencível de garantir um mínimo de liberdade aos que não usam do terror como arma política, nem tem em conta o valor relativo das ideias e das posições morais. Mas se vier a convencer-se de que os contentores aceitam e desejam livremente a mediação proposta, de bom grado o governo português se prestará a estudar com os outros Governos a forma que deveria tomar a acção mediadora encarada.

Nos dois próximos números da Alameda abordaremos Os factos, A contagem das vítimas e A cronologia da repressão e, finalmente, A caracterização sócio-professional das vítimas e As formas de repressão.

NA: Depois da redacção deste artigo inicial chegou a meu conhecimento a publicação de um colectânea de textos intitulada "Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois" organizada por Jorge Fazenda Lourenço e Inês Espada Vieira e publicada pela editora da Univ. Católica. Não podemos deixar num póximo número de traçar uma análise crítica sobre este trabalho que se nos afigura desde já lamentável, mípoe e preconceituoso. A abertura é feita pelo inefável publicista Paul Preston, figura destacada do anti-fascismo internacional e manifesto simpatizante da causa da Frente Popular que foi exactamente a responsável pelo assassínio dos mártires católicos. Que pena...

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[1] Lenin, no II Congresso do Komintern, disse :
Afirmo, e a história dar-me-á razão, que o segundo país em que se instaurará a ditadura proletária será certamente Espanha ... [voltar]

[2] V.g. Los mártires del siglo XIX, de Francisco Muns y Castellet [voltar]

[3] Milícias Antifascistas Obreras y Campesinas (comunistas), Milícias socialistas (P.S.O.E.), Requetés (carlistas), Primera Línea (falangistas), Legionarios de España (Partido Nacionalista Español), Juventudes de Acción Popular (C.E.D.A.), Mendigoitzales (P.N.V.), Escamots (Estat Catalá), etc. [voltar]

[4] Uma escassa minoria de oficiais superiores e cerca de metade dos oficiais mais jovens aderiram ao Levantamento. Muitos eram comprovadamente republicanos de longa data… [voltar]

[5] Num autêntico paradigma e súmula daquelas posições, Joan Villaroya i Font e Josep Sole i Sabate manifestam, numa óptica parcial e preconceituosa que claramente denuncia o carácter marcadamente apologético e propagandístico, que:

A repressão exercida pelos assalariados e camponeses, por trabalhadores e operários e também pela aplicação da lei então vigente, era para defender os avanços sociais e políticos de um dos países com mais injustiça social da Europa. Os muitos erros que indubitavelmente se cometeram, pretendiam defender uma sociedade nova. Mais livre e mais justa. A repressão dos sublevados e dos seus seguidores era para defender uma sociedade de privilégios. [voltar]

[6] Como afirma o insuspeito Stanley Payne, na sua obra, La primera democracia española:

A maioria das vítimas das agressões políticas foram direitistas ou não esquerdistas assassinados por esquerdistas, embora alguns destes últimos tenham caído assassinados por direitistas e falangistas. De qualquer modo, a maioria das baixas sofridas pela esquerda (antes da GCE) foi causada pela Polícia na repressão de manifestações e distúrbios. [voltar]

[7] Mundo Obrero, 20 de Abril de 1936 [voltar]

[8] Os partidos políticos e as organizações sindicais apoiantes do Governo (Partido Comunista, Socialista, C.N.T., J.S.U., etc.) estabeleceram em numerosos edifícios ocupados, comissões com poderes ilimitados para realizar detenções, requisições e execuções. Pela primazia na sua génese, estes locais foram conhecidos como checas, da designação da primeira polícia política bolchevique, na Rússia de 1917: CHEKA é o acrónimo de Comissão Extraordinária para a Supressão da Subversão e da Espionagem, em russo. Existiram inúmeras (só em Madrid 226), equipadas com câmaras de tortura e celas de detenção. [voltar]

[9] Quase sempre pela calada da noite, qual gangsters de Al Capone, bandos armados detinham adversários políticos e, depois de os haverem conduzido até um lugar ermo, executavam-nos. Parques e proximidades de cemitérios eram, geralmente, os lugares de eleição. [voltar]

[10] A designação de sacas compreende o acto de, à margem de toda a legalidade, milicianos ou militantes políticos, irem aos locais de detenção de prisioneiros e selectivamente, mediante listas previamente elaboradas, ou por reconhecimento à vista, ou de forma indiscriminada retirarem os seleccionados para, de seguida, os torturarem e/ou os lincharem. Muitas vezes, a sanha de chacina era tanta que procediam ao assalto das prisões, mesmo que as forças de protecção governamentais o tentassem impedir, para de seguida assassinar indiscriminadamente todos os presos que encontrassem pela frente; era então o asalto. Em sacas e asaltos foram massacradas milhares de pessoas. [voltar]

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