Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Tradição e Modernidade
Uma mensagem enxertada na história

por Rui Corrêa d’Oliveira

«…virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.»

Estas palavras de Nossa Senhora na aparição de 13 de Julho constituem o que se costuma designar como a 2ª Parte do Segredo de Fátima.

Imagino o espanto do mundo ao saber desta revelação. São conhecidas as reacções que ela provocou nos mais variados quadrantes da sociedade do tempo e dentro da própria Igreja: espanto e interrogações, acolhimento agradecido e também recusa agastada.

A 31 de Outubro de 1942 o mundo ouvia com surpresa as palavras do Papa Pio XII a consagrar «…todo o mundo dilacerado por cruciais discórdias… nomeadamente aqueles (povos) que vos professam especial devoção, onde não havia casa que não ostentasse o vosso venerando ícone, hoje talvez escondido e reservado para melhores dias…».

Isto de vir o Céu falar de política e “intrometer-se” na história dos homens, não é coisa fácil de aceitar por quantos Lhe negam tal direito, até porque num primeiro momento, parece ficar-nos uma indicação de separação entre bons e maus, centrando na Rússia a origem dos males que ao tempo da revelação era universalmente reconhecida como a origem do comunismo internacional, governada pela figura sinistra de Josef Stalin. Parecia pois que entre Fátima e a Rússia se estabelecia uma verdadeira inimizade.

Se do lado comunista era evidente esta postura, aliás sempre sustentada e nunca desmentida, em Fátima, a Senhora pedia insistentemente não a sua aniquilação, mas a sua conversão, não a sua morte, mas a sua renovação. Cedo em Fátima se começou a rezar pela Rússia, e a partir dali pediu-se intensamente que por ela se rezasse, a ponto de se poder afirmar, como o fez o Senhor Dom Alberto Cosme do Amaral, que «em nenhum outro lugar do mundo se amou tanto a Rússia, como em Fátima».

Outra coisa não seria de esperar, pois Fátima não é senão um apelo renovado e actualizado do Evangelho que em nada o contradiz e em tudo o retoma e propõe. «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.», diz-nos S. Mateus, como nos diz S. João: «Se alguém ouve as minhas palavras e não as cumpre, não sou Eu que o julgo, pois não vim para condenar o mundo, mas sim para o salvar»

A história da profunda e misteriosa relação de Fátima com a Rússia é pois uma história de quem ama a quem desama. Quanto mais agressivos eram os ataques dos seguidores do pensamento comunista, mais Fátima pedia ao Céu a sua conversão que outra coisa não é do que pedir o seu bem.

Esta atitude de pedido era, antes de mais, um acolhimento verdadeiro do drama do seu povo, privado de liberdade e subjugado pela pior das tiranias, a que impõe as suas ideias e nega a afirmação do sentido religioso de toda a pessoa. Fátima retoma aquela paixão de Deus pelo Homem que O levou a tomar corpo e carne e por isso decide intervir de novo num momento concreto da história, não para condenar mas para apontar desvios e propor caminhos de bem e de verdade.

O tempo pareceu-nos lento, mas no tempo de Deus a promessa cumpriu-se… e o império desfez-se e a vida do povo russo é agora diferente e com ele também nós fomos poupados a piores riscos. Parece porém, que pouco aprendemos com a história e lá como cá, vamos construindo outros impérios de descrença que adoptam novos “ismos”. Não se cansa a Igreja de denunciar aonde nos pode levar o “relativismo” do pensamento contemporâneo e o “indiferentismo religioso” nas nossas sociedades, mesmo as de raiz judaico-crstã.

Há novas “rússias”, novos perigos, novos abusos a atropelarem a liberdade, a subjugar os seus povos e a manipular as consciências. De Oriente a Ocidente, o mundo grita e sofre, porque permanece a arrogância da presunção de uma humanidade que pretende «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja e uma Igreja sem mundo».

Não se desactualiza, pois, Fátima nos seus apelos de conversão. Continuam oportunos e urgentes os pedidos da sua Mensagem, porque foi e continua a ser uma mensagem enxertada na história.

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[1] Palavras de Nossa Senhora na sua Aparição de 13 de Julho de 1917 in Memórias da Ir. Lúcia, 9ª Edição, Agosto de 2004

[2] Consagração do Mundo, SS Pio XII, Radiomensagem para a nação portuguesa de 31 de Outubro de 1942

[3] Mt 9, 13

[4] Jo 12, 47

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