Uma
mensagem enxertada na história
por Rui Corrêa
d’Oliveira
«…virei pedir a consagração da Rússia
a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora
nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia
se converterá e terão paz, se não, espalhará
seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições
à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre
terá muito que sofrer, várias nações
serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração
triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia,
que se converterá, e será concedido ao mundo algum
tempo de paz.»
Estas
palavras de Nossa Senhora na aparição de 13 de Julho
constituem o que se costuma designar como a 2ª Parte do Segredo
de Fátima.
Imagino o
espanto do mundo ao saber desta revelação. São
conhecidas as reacções que ela provocou nos mais
variados quadrantes da sociedade do tempo e dentro da própria
Igreja: espanto e interrogações, acolhimento agradecido
e também recusa agastada.
A 31 de
Outubro de 1942 o mundo ouvia com surpresa as palavras do Papa Pio
XII a consagrar «…todo o mundo dilacerado por cruciais
discórdias… nomeadamente aqueles (povos) que vos
professam especial devoção, onde não havia casa
que não ostentasse o vosso venerando ícone, hoje talvez
escondido e reservado para melhores dias…» .
Isto de
vir o Céu falar de política e “intrometer-se” na
história dos homens, não é coisa fácil de
aceitar por quantos Lhe negam tal direito, até porque num
primeiro momento, parece ficar-nos uma indicação de
separação entre bons e maus, centrando na Rússia
a origem dos males que ao tempo da revelação era
universalmente reconhecida como a origem do comunismo internacional,
governada pela figura sinistra de Josef Stalin. Parecia pois que
entre Fátima e a Rússia se estabelecia uma verdadeira
inimizade.
Se do
lado comunista era evidente esta postura, aliás sempre
sustentada e nunca desmentida, em Fátima, a Senhora pedia
insistentemente não a sua aniquilação, mas a sua
conversão, não a sua morte, mas a sua renovação.
Cedo em Fátima se começou a rezar pela Rússia, e
a partir dali pediu-se intensamente que por ela se rezasse, a ponto
de se poder afirmar, como o fez o Senhor Dom Alberto Cosme do Amaral,
que «em nenhum outro lugar do mundo se amou tanto a Rússia,
como em Fátima».
Outra coisa não seria de esperar, pois Fátima não
é senão um apelo renovado e actualizado do Evangelho
que em nada o contradiz e em tudo o retoma e propõe. «Não
são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a
misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim
chamar os justos, mas os pecadores.» ,
diz-nos S. Mateus, como nos diz S. João: «Se alguém
ouve as minhas palavras e não as cumpre, não sou Eu que
o julgo, pois não vim para condenar o mundo, mas sim para o
salvar»
A
história da profunda e misteriosa relação de
Fátima com a Rússia é pois uma história
de quem ama a quem desama. Quanto mais agressivos eram os ataques dos
seguidores do pensamento comunista, mais Fátima pedia ao Céu
a sua conversão que outra coisa não é do que
pedir o seu bem.
Esta
atitude de pedido era, antes de mais, um acolhimento verdadeiro do
drama do seu povo, privado de liberdade e subjugado pela pior das
tiranias, a que impõe as suas ideias e nega a afirmação
do sentido religioso de toda a pessoa. Fátima retoma aquela
paixão de Deus pelo Homem que O levou a tomar corpo e carne e
por isso decide intervir de novo num momento concreto da história,
não para condenar mas para apontar desvios e propor caminhos
de bem e de verdade.
O tempo
pareceu-nos lento, mas no tempo de Deus a promessa cumpriu-se… e o
império desfez-se e a vida do povo russo é agora
diferente e com ele também nós fomos poupados a piores
riscos. Parece porém, que pouco aprendemos com a história
e lá como cá, vamos construindo outros impérios
de descrença que adoptam novos “ismos”. Não se
cansa a Igreja de denunciar aonde nos pode levar o “relativismo”
do pensamento contemporâneo e o “indiferentismo religioso”
nas nossas sociedades, mesmo as de raiz judaico-crstã.
Há
novas “rússias”, novos perigos, novos abusos a atropelarem
a liberdade, a subjugar os seus povos e a manipular as consciências.
De Oriente a Ocidente, o mundo grita e sofre, porque permanece a
arrogância da presunção de uma humanidade que
pretende «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja e uma Igreja
sem mundo».
Não
se desactualiza, pois, Fátima nos seus apelos de conversão.
Continuam oportunos e urgentes os pedidos da sua Mensagem, porque foi
e continua a ser uma mensagem enxertada na história.
_________________________
[1] Palavras de Nossa Senhora na sua Aparição de 13 de
Julho de 1917 in Memórias da Ir. Lúcia, 9ª
Edição, Agosto de 2004
[2] Consagração do Mundo, SS Pio XII, Radiomensagem para a
nação portuguesa de 31 de Outubro de 1942
[3] Mt 9, 13
[4] Jo 12, 47 |