Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Restauração revisitada, por Mário Casa-Nova Martins
Algumas consequências da modernidade: por que razão já não há «interacção homem-máquina», nem «casais com filhos»

por José Maria C. S. André

Antigamente, a disciplina que estuda as interfaces dos computadores, no curso de Informática do Técnico, chamava-se «interacção homem-máquina». Com a modernidade, teve de ser substituída pelo estudo da «interacção pessoa-máquina».

Antigamente, a expressão «casal com filhos» incluía rapazes e raparigas. Com a modernidade, as raparigas deixaram de estar incluídas e, portanto, é preciso especificar que o casal tem «filhas», ou «filhos e filhas», ou só «filhos», conforme os casos. Quando sabemos que o casal tem filhos (na acepção antiga), mas não nos lembramos se se trata de rapazes ou de raparigas, não podemos dizer que tem «filhos e filhas», porque pode ter só filhos ou só filhas. Teremos, então, de dar uma resposta inclusiva vaga. Por exemplo: «efectivamente, a árvore genealógica daquele casal não se interrompeu»; ou «há pessoas com ligação filial àquele casal»; ou «trata-se de um casal com descendência».

O que levou a sociedade a tornar-se tão caricatamente moderna? Qual a vantagem?

Talvez por machismo, porventura inconsciente, na Alemanha dizia-se antigamente «das Fraulein», sem existir o correspondente «das Herrlein» (havia só a palavra muito arcaica, «der Junker»): em nome da paridade, era preciso corrigir a língua alemã e, obviamente, modernizado o alemão, as outras línguas não poderiam ficar como estavam.

Na generalidade das línguas, ao referir uma pessoa adulta em concreto, respeita-se a correspondência entre o género gramatical e o sexo (excepto nalgumas palavras invariáveis, que se referem mais ao cargo que ao seu titular), mas nem sempre há esse cuidado, antes da adolescência. Por exemplo, diz-se «o bebé», quer se trate de um rapaz ou de uma rapariga, tal como se diz «a criança», tanto num caso como no outro.

A questão é que as «Frauleine» já iam pelo menos na adolescência e, portanto, justificava-se que o neutro fosse substituído pelo feminino. Quando, nos anos 70, se descobriu o erro, decidiu-se castigá-lo na língua alemã e vingá-lo igualmente (por cumplicidade criminosa) em todas as línguas do planeta.

Um melhor conhecimento das gramáticas teria certamente ilibado os países latinos, mas, quem conhece essas gramáticas?

É verdade que se fala do homem, para referir a humanidade. Mas fala-se na pessoa humana para indicar esse homem abstracto. Dizemos o habitante, o autóctone e o povo, mas compensamos com a individualidade, a personalidade, a gente, a população, a multidão... Dir-se-ia que a tradição gramatical portuguesa não subalterniza o sexo feminino.

Inclusivamente, o género feminino tem mais cotação na gramática. Por razões que remontam a alguns milénios atrás, as línguas latinas adoptaram sistematicamente o género feminino para indicar uma maior consideração por alguém, seja homem ou mulher. Não é só a «vossa excelência». Todos os títulos são femininos: vossa santidade, vossa alteza, vossa majestade, vossa eminência, vossa senhoria, vossa reverência, vossa graça, vossa mercê... e, portanto, os homens importantes são tratados no feminino.

Algumas concordâncias gramaticais poderão parecer divertidas a um anglo-saxónico. Por exemplo, o mordomo que acorda o rei dirá:
— Como está sua majestade, ela dormiu bem?

Os mordomos portugueses evitavam os pronomes pessoais explicitamente femininos, pelo que o despertar palaciano talvez fosse mais parecido com:
— Bom dia, sua majestade. Como está sua majestade? Sua majestade dormiu bem? Sua majestade quer o pequeno-almoço na cama?

Em qualquer caso, a concordância dos adjectivos não evitaria os sorrisinhos anglo-
-saxónicos:
— Vossa simpática e ilustríssima majestade está risonha e bem disposta! Mas convém que se levante, para não ficar atrasada.

Noutras línguas derivadas do latim, o tratamento no feminino é de rigor mesmo entre os homens, a não ser que haja muito à vontade. Por exemplo, em italiano, subentendendo sempre «vossa senhoria», a conversa de um passageiro com o motorista do autocarro decorre neste tom:
— Ela [subentende-se «vossa senhoria»] pode dizer-me onde é a piazza central?
— Ela não se preocupe, que eu aviso-a [subentende-se «vossa senhoria»] quando chegarmos à paragem.
— Agradeço muito a ela!

Esta digressão linguística sobre a consideração gramatical pelo género feminino vem a propósito de acusarem as línguas latinas de desconsideração gramatical pelas senhoras.

Embora inocentes, os portugueses e as portuguesas sofreram as consequências da desatenção alemã/alemão. Para que conste, condeno veementemente os teutónicos e as teutónicas pela maneira como construíram gramaticalmente as suas frases, durante anos.

Só é pena que esta declaração chegue tarde, quando já não há maneira de convencer os políticos e as políticas de que eles e elas, bem como os portuguesas e as portuguesas, poderiam viver muito respeitosamente sem se modernizarem tanto.

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