Algumas
consequências da modernidade: por que razão já
não há «interacção homem-máquina»,
nem «casais com filhos»
por José
Maria C. S. André
Antigamente,
a disciplina que estuda as interfaces dos computadores, no curso de
Informática do Técnico, chamava-se «interacção
homem-máquina». Com a modernidade, teve de ser
substituída pelo estudo da «interacção
pessoa-máquina».
Antigamente,
a expressão «casal com filhos» incluía
rapazes e raparigas. Com a modernidade, as raparigas deixaram de
estar incluídas e, portanto, é preciso especificar que
o casal tem «filhas», ou «filhos e filhas»,
ou só «filhos», conforme os casos. Quando sabemos
que o casal tem filhos (na acepção antiga), mas não
nos lembramos se se trata de rapazes ou de raparigas, não
podemos dizer que tem «filhos e filhas», porque pode ter
só filhos ou só filhas. Teremos, então, de dar
uma resposta inclusiva vaga. Por exemplo: «efectivamente, a
árvore genealógica daquele casal não se
interrompeu»; ou «há pessoas com ligação
filial àquele casal»; ou «trata-se de um casal com
descendência».
O
que levou a sociedade a tornar-se tão caricatamente moderna?
Qual a vantagem?
Talvez
por machismo, porventura inconsciente, na Alemanha dizia-se
antigamente «das Fraulein», sem existir o correspondente
«das Herrlein» (havia só a palavra muito arcaica,
«der Junker»): em nome da paridade, era preciso corrigir
a língua alemã e, obviamente, modernizado o alemão,
as outras línguas não poderiam ficar como estavam.
Na
generalidade das línguas, ao referir uma pessoa adulta em
concreto, respeita-se a correspondência entre o género
gramatical e o sexo (excepto nalgumas palavras invariáveis,
que se referem mais ao cargo que ao seu titular), mas nem sempre há
esse cuidado, antes da adolescência. Por exemplo, diz-se «o bebé», quer se trate de um rapaz ou de uma rapariga, tal
como se diz «a criança», tanto num caso
como no outro.
A
questão é que as «Frauleine» já iam
pelo menos na adolescência e, portanto, justificava-se que o
neutro fosse substituído pelo feminino. Quando, nos anos 70,
se descobriu o erro, decidiu-se castigá-lo na língua
alemã e vingá-lo igualmente (por cumplicidade
criminosa) em todas as línguas do planeta.
Um
melhor conhecimento das gramáticas teria certamente ilibado os
países latinos, mas, quem conhece essas gramáticas?
É
verdade que se fala do homem, para referir a humanidade. Mas fala-se na pessoa humana para indicar esse homem abstracto. Dizemos o habitante, o autóctone
e o povo, mas compensamos com a individualidade, a personalidade, a gente, a população, a multidão... Dir-se-ia que a tradição gramatical
portuguesa não subalterniza o sexo feminino.
Inclusivamente,
o género feminino tem mais cotação na gramática.
Por razões que remontam a alguns milénios atrás,
as línguas latinas adoptaram sistematicamente o género
feminino para indicar uma maior consideração por
alguém, seja homem ou mulher. Não é só a
«vossa excelência». Todos os títulos são
femininos: vossa santidade, vossa alteza, vossa majestade, vossa
eminência, vossa senhoria, vossa reverência, vossa graça,
vossa mercê... e, portanto, os homens importantes são
tratados no feminino.
Algumas
concordâncias gramaticais poderão parecer divertidas a
um anglo-saxónico. Por exemplo, o mordomo que acorda o rei
dirá:
— Como está
sua majestade, ela dormiu bem?
Os
mordomos portugueses evitavam os pronomes pessoais explicitamente
femininos, pelo que o despertar palaciano talvez fosse mais parecido
com:
— Bom dia, sua
majestade. Como está sua majestade? Sua majestade dormiu bem?
Sua majestade quer o pequeno-almoço na cama?
Em
qualquer caso, a concordância dos adjectivos não
evitaria os sorrisinhos anglo-
-saxónicos:
— Vossa
simpática e ilustríssima majestade está risonha
e bem disposta! Mas convém que se levante, para não
ficar atrasada.
Noutras
línguas derivadas do latim, o tratamento no feminino é
de rigor mesmo entre os homens, a não ser que haja muito à
vontade. Por exemplo, em italiano, subentendendo sempre «vossa
senhoria», a conversa de um passageiro com o motorista do
autocarro decorre neste tom:
— Ela
[subentende-se «vossa senhoria»] pode dizer-me onde é
a piazza central?
— Ela não se
preocupe, que eu aviso-a [subentende-se «vossa senhoria»]
quando chegarmos à paragem.
— Agradeço
muito a ela!
Esta
digressão linguística sobre a consideração
gramatical pelo género feminino vem a propósito de
acusarem as línguas latinas de desconsideração
gramatical pelas senhoras.
Embora
inocentes, os portugueses e as portuguesas sofreram as consequências
da desatenção alemã/alemão. Para que
conste, condeno veementemente os teutónicos e as teutónicas
pela maneira como construíram gramaticalmente as suas frases,
durante anos.
Só
é pena que esta declaração chegue tarde, quando
já não há maneira de convencer os políticos
e as políticas de que eles e elas, bem como os portuguesas e
as portuguesas, poderiam viver muito respeitosamente sem se
modernizarem tanto. |