Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Restauração revisitada, por Mário Casa-Nova Martins
A Modernidade e os seus Críticos

por Carlos Bobone

A modernidade, conceito ambicioso, de vocação majestática, não nasceu para sofrer críticas. O seu carácter, segundo os que o conhecem de perto, não é o de um simples movimento de ideias em torno do qual se possam formar correntes opostas de pensamento, apresentar reservas ou objecções, confrontar argumentos favoráveis ou desfavoráveis. Os propagandistas da modernidade, aqueles que gostam de a invocar e de se pôr sob a sua tutela, apresentam-na como um grandioso conjunto de factos e circunstâncias que tornam as condições da vida moderna de tal forma diferentes de tudo o que a antecedeu na história humana, que impõem comportamentos, valores e pontos de vista inteiramente diversos de tudo o que se conheceu anteriormente. A modernidade é descrita como uma massa de transformações profundas e simultâneas, uma avalanche de novidades, uma onda de convulsões técnicas, artísticas, sociais e ideológicas, frente às quais ninguém pode ficar indiferente. O ambiente material e espiritual em que se move o cidadão dos nossos dias é inevitavelmente moldado pelas novas condições de vida, diz-nos a todo o momento a propaganda política, comercial ou cultural.

As ideologias que se candidatam à conquista do poder intitulam-se, todas elas, o pensamento dos novos tempos, a passagem para o futuro, sugerindo a inutilidade e caducidade das restantes, apesar de a livre discussão das ideias ser, segundo consta, um dos pilares do mundo moderno.

Desde a revolução francesa, todos aqueles que manifestaram a sua afeição pelo antigo regime viram-se classificados como portadores de imperdoável cegueira, teimosia e falta de contacto com as realidades. Censurou-se com severidade esse pecado do saudosismo, do irrealismo, da inadaptação ao novo ciclo histórico, como se a liberdade de pensamento fosse mal empregada quando não a aplicassem no enaltecimento do mundo novo. Segundo este modo de ver, não se é adepto ou adversário da modernidade, está-se dentro dela, com maior ou menor capacidade de adaptação a todas as transformações que ela implica, mas com tão pouco poder de a evitar como o de alterar o movimento do espaço cósmico. A modernidade apresenta-se, aos olhos dos seus devotados admiradores, tão necessária e benéfica, que dispensa qualquer discussão à volta dela. Por isso o pensamento liberal e socialista do século XIX foi fértil nas manifestações de desprezo perante aqueles que se mostravam arreigados a antigas crenças, valores e formas de organização social. Resistir à força avassaladora dos tempos modernos era uma aberração, equivalia a rebelar-se contra as leis da natureza e da história. As expressões encontradas para caracterizar as opiniões dos tradicionalistas em política ou em religião pretendem traduzir a ideia de que a atitude destes é uma autêntica violação das leis naturais e racionais: “cegueira”, falta de “realismo” ou de “abertura ao mundo em que vivemos”, tentiva de “inverter a marcha do tempo”, de “atrasar os ponteiros do relógio” ou de “ignorar os ventos da história”. A frase que Talleyrand terá pronunciado sobre os Bourbons, depois da Restauração, resume a condenação intelectual e moral de todo o tradicionalismo: “Não aprenderam nada e não esqueceram nada”. Eram fechados à aprendizagem e abertos à vingança. A fidelidade às fórmulas políticas tradicionais só se podia explicar por uma mistura de incompreensão das realidades sociais e de egoísmo extremado, intransigente na defesa de caducos privilégios.

Mas o arremesso de chavões e frases feitas, apesar da sua eficácia na conquista da opinião pública, não chega para sustentar uma concepção do mundo resistente aos olhares mais penetrantes. Por isso as filosofias da modernidade encarregaram-se de traduzir em fórmulas “científicas” a condenação definitiva de todo o tradicionalismo. Dando-lhe uma atenção, um espaço e uma importância muito superior ao que se esperaria ver dedicados a ideias “caducas”, tomaram a peito demonstrar que todas as crenças com raízes tradicionais, assentando num fundo teológico ou metafísico, estavam irremediavelmente comprometidas com etapas primitivas e inferiores da evolução da humanidade. As justificações variavam, mas a conclusão era a mesma. No positivismo de Augusto Comte, tão admirado pelos republicanos portugueses e brasileiros, era a evolução natural e espontânea do espírito humano que, chegando à idade adulta, excluía todas as explicações assentes na teologia ou na metafísica. No marxismo era a transformação das forças produtivas que arrastava consigo o predomínio de novas classes e novas formas de pensar, forçosamente opostas às anteriores. No neoliberalismo era a sociedade aberta que, pela sua natureza complexa e dinâmica, punha de parte a visão estática e hierarquizada com que as sociedades fechadas encaravam a vida social. Por vários trajectos se tentou fechar a porta do mundo moderno àquilo que trouxesse consigo um aroma de tempos antigos, declarando-se a incompatibilidade total das novas condições de vida com os velhos valores morais ou intelectuais. Os filósofos que se punham ao serviço dos novos tempos gastavam o melhor do seu talento a certificar a morte da tradição.

A modernidade surgia assim, aos olhos acríticos de todos os que se desvaneciam na contemplação dos seus milagres, com o carácter de uma religião revelada, que se aceita ou se repudia na íntegra. As consequências da rebelião contra o mundo moderno eram aquelas que costumam estar reservadas aos pecadores: a exclusão desse espaço paradisíaco intitulado “a marcha evolutiva da humanidade”. À semelhança de outras religiões, a modernidade reclamava como seus mártires os pioneiros de todas as transformações - técnicas, religiosas, filosóficas, artísticas ou morais, os revolucionários de todos os tempos, os incompreendidos, os que viveram “à frente do seu tempo”.

Calcule-se pois o embaraço, o pesar, o constrangimento e o desgosto com que os zeladores da pureza moderna assistiram, desde finais do século XIX, à irrupção de manifestações antimodernas no âmago das mais profundas manifestações da cultura contemporânea. Não era possível enfrentá-las com o sorriso benévolo dedicado às rabugices dos velhos botas de elástico, como se fazia anteriormente. Os ataques ao mundo moderno eram feitos por figuras que ninguém podia deixar de reconhecer como expoentes da cultura de vanguarda. E não se revoltavam contra a modernidade porque tivessem medo da mudança ou porque estivessem arreigados a velhos privilégios. Imunes a acusações de preconceito ou falta de elasticidade espiritual, mostravam-se também desprovidos de qualquer veneração respeitosa perante o mito da modernidade. Ou porque viam nele um nítido sintoma de provincianismo mental, como Fernando Pessoa, ou porque, como Frederico Nietzsche, não reconheciam ao pensamento moderno qualquer carácter de ruptura com a mentalidade dos séculos anteriores, acusando nele, pelo contrário, o acentuar de todas as tendências decadentes características da cultura cristã.

Fernando Pessoa, em dois curtos e incisivos ensaios, “O Provincianismo Português” e “O Caso Mental Português”, datados de 1928 e 1932, classificava a mania da modernidade como um sintoma de inferioridade mental, de “provincianismo”. Segundo o poeta da “Mensagem”, o provinciano é aquele que pertence a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela. Segue-a, pois, “mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”. O provinciano não vê luzes e sombras, pontos altos e pontos baixos na civilização de que se quer mostrar parte integrante. Limita-se a admirá-la sem limites, a pasmar das coisas que vê, como quem as não produziu. Enquanto o verdadeiro civilizado vive dentro da civilização com a naturalidade de quem a usa, de quem a produz, sem se admirar, sem a ambição de a absorver servilmente, o provinciano manifesta uma admiração sem reservas pelas grandes cidades, pelas ideias de progresso e de moderno. “Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. (...) O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano”.

O mundo moderno tornava-se difícil de compreender para os seus adoradores. Habituados à condenação das “ideias modernas” pelos teocratas de Roma, eram esses os anátemas que gostavam de receber e ridicularizar, mas nada os preparara para enfrentar o desdém das novas gerações. Além disso, as reflexões daqueles que tinham tentado advogar a causa das monarquias tradicionais começavam a ser vistas com respeito e interesse pelas ciências sociais, que reconheciam a justeza de muitas das críticas feitas ao racionalismo iluminista. Na literatura, a geração conduzida por Maurice Barrés descobria a atracção pelas raízes culturais de cada povo e o desprezo pelas “humanidades vagas, fluidas”, que aprendera no liceu. A psicologia social revelava os desvarios e a irracionalidade da cultura de massas e chamava a atenção para o papel indispensável que desempenham as elites na direcção de qualquer sociedade organizada.

As reacções a esta chuva de manifestações antimodernas não foram serenas nem consistentes. Aqui tentou-se atacar a coerência de uma obra literária, ali insinuou-se a falta de sinceridade de outra, e em muito lado clamou-se que os intelectuais estavam a trair a sua vocação natural. Procurou-se menorizar os contributos do pensamento contra-revolucionário para a edificação da cultura moderna.

A ascensão do fascismo deu aos apóstolos do mundo moderno a oportunidade de apontarem esse “grande mal” como o ponto de convergência de todas as tendências antimodernas, o que constitui uma grosseira deturpação do carácter deste fenómeno político.

Ao contrário do que gostam de pensar os seus mais desvanecidos admiradores, o efeito político das transformações da vida moderna nem sempre se exerceu a favor do liberalismo e da democracia. A modernidade, com o seu carácter necessário, coercivo, irresistível, serviu de justificação para o triunfo de teses e práticas racistas, para o elogio do fascismo, do nazismo e da manipulação de massas em geral. A “Técnica do Golpe de Estado”, de Curzio Malaparte, é um dos mais acabados exemplos da superficialidade dos argumentos políticos alicerçados na sedução do “moderno”. Exercício de enaltecimento das novas técnicas de aquisição de força e manipulação das massas humanas, postos ao serviço da conquista do poder, a obra do escritor italiano toma por modelos e cobre de louvores a revolução bolchevique de 1917 e a marcha sobre Roma em 1922. Trotsky e Mussolini, em simultâneo, são elevados ao panteão da sabedoria política, porque souberam usar com grande eficácia todos os meios técnicos e psicológicos que a civilização do século XX põe ao dispor de quem visa conquistar o poder: ajuntamentos de multidões, propaganda radiofónica, domínio dos sindicatos, comunicações rápidas, etc.

Nas últimas décadas a investigação universitária nas àreas da filosofia e do pensamento político voltou a sentir a atracção deste tema, debruçando-se sobre os rebeldes da modernidade com um misto de fascínio e repulsa, que incentiva o estudo mas não permite conclusões coerentes. Exemplo disso é a obra “O Eterno Retorno – contra a Democracia, a Ideologia da Decadência”, dirigida por Zeev Sternhell e contando com a colaboração de um vistoso conjunto de professores universitários americanos, franceses, italianos e israelitas. Reconhecendo que uma grande parte dos criadores da cultura contemporânea rejeitou os valores liberais e racionalistas da modernidade, preferem falar de “crises de adaptação”, em vez de se aventurarem a admitir que é preciso criar um novo conceito de mundo moderno, onde caibam todos os seus participantes activos.

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