A Modernidade e os seus Críticos
por Carlos Bobone
A modernidade, conceito
ambicioso, de vocação majestática, não
nasceu para sofrer críticas. O seu carácter, segundo os
que o conhecem de perto, não é o de um simples
movimento de ideias em torno do qual se possam formar correntes
opostas de pensamento, apresentar reservas ou objecções,
confrontar argumentos favoráveis ou desfavoráveis. Os
propagandistas da modernidade, aqueles que gostam de a invocar e de
se pôr sob a sua tutela, apresentam-na como um grandioso
conjunto de factos e circunstâncias que tornam as condições
da vida moderna de tal forma diferentes de tudo o que a antecedeu na
história humana, que impõem comportamentos, valores e
pontos de vista inteiramente diversos de tudo o que se conheceu
anteriormente. A modernidade é descrita como uma massa de
transformações profundas e simultâneas, uma
avalanche de novidades, uma onda de convulsões técnicas,
artísticas, sociais e ideológicas, frente às
quais ninguém pode ficar indiferente. O ambiente material e
espiritual em que se move o cidadão dos nossos dias é
inevitavelmente moldado pelas novas condições de vida,
diz-nos a todo o momento a propaganda política, comercial ou
cultural.
As ideologias que se
candidatam à conquista do poder intitulam-se, todas elas, o
pensamento dos novos tempos, a passagem para o futuro, sugerindo a
inutilidade e caducidade das restantes, apesar de a livre discussão
das ideias ser, segundo consta, um dos pilares do mundo moderno.
Desde a revolução
francesa, todos aqueles que manifestaram a sua afeição
pelo antigo regime viram-se classificados como portadores de
imperdoável cegueira, teimosia e falta de contacto com as
realidades. Censurou-se com severidade esse pecado do saudosismo, do
irrealismo, da inadaptação ao novo ciclo histórico,
como se a liberdade de pensamento fosse mal empregada quando não
a aplicassem no enaltecimento do mundo novo. Segundo este modo de
ver, não se é adepto ou adversário da
modernidade, está-se dentro dela, com maior ou menor
capacidade de adaptação a todas as transformações
que ela implica, mas com tão pouco poder de a evitar como o de
alterar o movimento do espaço cósmico. A modernidade
apresenta-se, aos olhos dos seus devotados admiradores, tão
necessária e benéfica, que dispensa qualquer discussão
à volta dela. Por isso o pensamento liberal e socialista do
século XIX foi fértil nas manifestações
de desprezo perante aqueles que se mostravam arreigados a antigas
crenças, valores e formas de organização social.
Resistir à força avassaladora dos tempos modernos era
uma aberração, equivalia a rebelar-se contra as leis da
natureza e da história. As expressões encontradas para
caracterizar as opiniões dos tradicionalistas em política
ou em religião pretendem traduzir a ideia de que a atitude
destes é uma autêntica violação das leis
naturais e racionais: “cegueira”, falta de “realismo” ou de
“abertura ao mundo em que vivemos”, tentiva de “inverter a
marcha do tempo”, de “atrasar os ponteiros do relógio”
ou de “ignorar os ventos da história”. A frase que
Talleyrand terá pronunciado sobre os Bourbons, depois da
Restauração, resume a condenação
intelectual e moral de todo o tradicionalismo: “Não
aprenderam nada e não esqueceram nada”. Eram fechados à
aprendizagem e abertos à vingança. A fidelidade às
fórmulas políticas tradicionais só se podia
explicar por uma mistura de incompreensão das realidades
sociais e de egoísmo extremado, intransigente na defesa de
caducos privilégios.
Mas o arremesso de
chavões e frases feitas, apesar da sua eficácia na
conquista da opinião pública, não chega para
sustentar uma concepção do mundo resistente aos olhares
mais penetrantes. Por isso as filosofias da modernidade
encarregaram-se de traduzir em fórmulas “científicas”
a condenação definitiva de todo o tradicionalismo.
Dando-lhe uma atenção, um espaço e uma
importância muito superior ao que se esperaria ver dedicados a
ideias “caducas”, tomaram a peito demonstrar que todas as crenças
com raízes tradicionais, assentando num fundo teológico
ou metafísico, estavam irremediavelmente comprometidas com
etapas primitivas e inferiores da evolução da
humanidade. As justificações variavam, mas a conclusão
era a mesma. No positivismo de Augusto Comte, tão admirado
pelos republicanos portugueses e brasileiros, era a evolução
natural e espontânea do espírito humano que, chegando à
idade adulta, excluía todas as explicações
assentes na teologia ou na metafísica. No marxismo era a
transformação das forças produtivas que
arrastava consigo o predomínio de novas classes e novas formas
de pensar, forçosamente opostas às anteriores. No
neoliberalismo era a sociedade aberta que, pela sua natureza complexa
e dinâmica, punha de parte a visão estática e
hierarquizada com que as sociedades fechadas encaravam a vida social.
Por vários trajectos se tentou fechar a porta do mundo moderno
àquilo que trouxesse consigo um aroma de tempos antigos,
declarando-se a incompatibilidade total das novas condições
de vida com os velhos valores morais ou intelectuais. Os filósofos
que se punham ao serviço dos novos tempos gastavam o melhor do
seu talento a certificar a morte da tradição.
A modernidade surgia
assim, aos olhos acríticos de todos os que se desvaneciam na
contemplação dos seus milagres, com o carácter
de uma religião revelada, que se aceita ou se repudia na
íntegra. As consequências da rebelião contra o
mundo moderno eram aquelas que costumam estar reservadas aos
pecadores: a exclusão desse espaço paradisíaco
intitulado “a marcha evolutiva da humanidade”. À
semelhança de outras religiões, a modernidade reclamava
como seus mártires os pioneiros de todas as transformações
- técnicas, religiosas, filosóficas, artísticas
ou morais, os revolucionários de todos os tempos, os
incompreendidos, os que viveram “à frente do seu tempo”.
Calcule-se pois o
embaraço, o pesar, o constrangimento e o desgosto com que os
zeladores da pureza moderna assistiram, desde finais do século
XIX, à irrupção de manifestações
antimodernas no âmago das mais profundas manifestações
da cultura contemporânea. Não era possível
enfrentá-las com o sorriso benévolo dedicado às
rabugices dos velhos botas de elástico, como se fazia
anteriormente. Os ataques ao mundo moderno eram feitos por figuras
que ninguém podia deixar de reconhecer como expoentes da
cultura de vanguarda. E não se revoltavam contra a modernidade
porque tivessem medo da mudança ou porque estivessem
arreigados a velhos privilégios. Imunes a acusações
de preconceito ou falta de elasticidade espiritual, mostravam-se
também desprovidos de qualquer veneração
respeitosa perante o mito da modernidade. Ou porque viam nele um
nítido sintoma de provincianismo mental, como Fernando Pessoa,
ou porque, como Frederico Nietzsche, não reconheciam ao
pensamento moderno qualquer carácter de ruptura com a
mentalidade dos séculos anteriores, acusando nele, pelo
contrário, o acentuar de todas as tendências decadentes
características da cultura cristã.
Fernando Pessoa, em
dois curtos e incisivos ensaios, “O Provincianismo Português”
e “O Caso Mental Português”, datados de 1928 e 1932,
classificava a mania da modernidade como um sintoma de inferioridade
mental, de “provincianismo”. Segundo o poeta da “Mensagem”, o
provinciano é aquele que pertence a uma civilização
sem tomar parte no desenvolvimento superior dela. Segue-a, pois,
“mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e
feliz”. O provinciano não vê luzes e sombras, pontos
altos e pontos baixos na civilização de que se quer
mostrar parte integrante. Limita-se a admirá-la sem limites, a
pasmar das coisas que vê, como quem as não produziu.
Enquanto o verdadeiro civilizado vive dentro da civilização
com a naturalidade de quem a usa, de quem a produz, sem se admirar,
sem a ambição de a absorver servilmente, o provinciano
manifesta uma admiração sem reservas pelas grandes
cidades, pelas ideias de progresso e de moderno. “Os civilizados
criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes
não atribuem importância de maior. (...) O provinciano,
porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não
fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse,
não seria provinciano”.
O mundo moderno
tornava-se difícil de compreender para os seus adoradores.
Habituados à condenação das “ideias modernas”
pelos teocratas de Roma, eram esses os anátemas que gostavam
de receber e ridicularizar, mas nada os preparara para enfrentar o
desdém das novas gerações. Além disso, as
reflexões daqueles que tinham tentado advogar a causa das
monarquias tradicionais começavam a ser vistas com respeito e
interesse pelas ciências sociais, que reconheciam a justeza de
muitas das críticas feitas ao racionalismo iluminista. Na
literatura, a geração conduzida por Maurice Barrés
descobria a atracção pelas raízes culturais de
cada povo e o desprezo pelas “humanidades vagas, fluidas”, que
aprendera no liceu. A psicologia social revelava os desvarios e a
irracionalidade da cultura de massas e chamava a atenção
para o papel indispensável que desempenham as elites na
direcção de qualquer sociedade organizada.
As reacções
a esta chuva de manifestações antimodernas não
foram serenas nem consistentes. Aqui tentou-se atacar a coerência
de uma obra literária, ali insinuou-se a falta de sinceridade
de outra, e em muito lado clamou-se que os intelectuais estavam a
trair a sua vocação natural. Procurou-se menorizar os
contributos do pensamento contra-revolucionário para a
edificação da cultura moderna.
A ascensão do
fascismo deu aos apóstolos do mundo moderno a oportunidade de
apontarem esse “grande mal” como o ponto de convergência de
todas as tendências antimodernas, o que constitui uma grosseira
deturpação do carácter deste fenómeno
político.
Ao contrário do
que gostam de pensar os seus mais desvanecidos admiradores, o efeito
político das transformações da vida moderna nem
sempre se exerceu a favor do liberalismo e da democracia. A
modernidade, com o seu carácter necessário, coercivo,
irresistível, serviu de justificação para o
triunfo de teses e práticas racistas, para o elogio do
fascismo, do nazismo e da manipulação de massas em
geral. A “Técnica do Golpe de Estado”, de Curzio
Malaparte, é um dos mais acabados exemplos da superficialidade
dos argumentos políticos alicerçados na sedução
do “moderno”. Exercício de enaltecimento das novas
técnicas de aquisição de força e
manipulação das massas humanas, postos ao serviço
da conquista do poder, a obra do escritor italiano toma por modelos e
cobre de louvores a revolução bolchevique de 1917 e a
marcha sobre Roma em 1922. Trotsky e Mussolini, em simultâneo,
são elevados ao panteão da sabedoria política,
porque souberam usar com grande eficácia todos os meios
técnicos e psicológicos que a civilização
do século XX põe ao dispor de quem visa conquistar o
poder: ajuntamentos de multidões, propaganda radiofónica,
domínio dos sindicatos, comunicações rápidas,
etc.
Nas últimas
décadas a investigação universitária nas
àreas da filosofia e do pensamento político voltou a
sentir a atracção deste tema, debruçando-se
sobre os rebeldes da modernidade com um misto de fascínio e
repulsa, que incentiva o estudo mas não permite conclusões
coerentes. Exemplo disso é a obra “O Eterno Retorno –
contra a Democracia, a Ideologia da Decadência”, dirigida por
Zeev Sternhell e contando com a colaboração de um
vistoso conjunto de professores universitários americanos,
franceses, italianos e israelitas. Reconhecendo que uma grande parte
dos criadores da cultura contemporânea rejeitou os valores
liberais e racionalistas da modernidade, preferem falar de “crises
de adaptação”, em vez de se aventurarem a admitir que
é preciso criar um novo conceito de mundo moderno, onde caibam
todos os seus participantes activos. |