Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Restauração revisitada, por Mário Casa-Nova Martins
Não ser do mundo

por Simão dos Reis Agostinho

Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo” (Oração Sacerdotal – Jo 17, 15-16)

Não é novidade para ninguém minimamente atento, consciente da História e da Tradição eclesiais, que as palavras de Cristo não ecoam mais na Igreja dita modernista. Uma Igreja conciliar, de revolução e ruptura com as verdades teológicas fundamentais que durante séculos inteleccionámos no casamento da Fé e da Razão e experimentámos, não menos tempo, na prática litúrgica consentânea com essas verdades. Mas, nunca como hoje, poderíamos estar tão longe do que deveria enformar a nossa acção de Corpo Místico, Pedras Vivas, Soldados.

A Igreja afastou-se, como uma anulação de Matrimónio, de toda a Tradição inspirada que manteve a Fé betumada no coração de inúmeros Santos. Desviou-se drasticamente da dogmática fundamental, da liturgia maior que significava e perpetuava toda a teologia herdada dos Apóstolos e aprofundada ao longo dos anos, e da defesa da aliança entre a espada espiritual e a terrena. Em suma, abandonou a linha da lex orandi tradicional que garantia a concordância com a absoluta lex credendi, bem como a obrigação da Fé de instaurar na terra o Reinado Social de Cristo.

A que se deve esta revolução? Dizem que a Igreja tem que se adaptar ao mundo… tem que adaptar a Mensagem!

A heresia da hierarquia modernista chegou a este ponto: o de adaptar a Mensagem ao mundo. Compreender-se-ia que quisesse a Igreja concorrer em igualdade no uso das novas tecnologias de comunicação, na alteração do paradigma de espaço e de tempo, não fosse a referida adaptação vazia de reflexão sobre essa alteração, numa tentativa desenfreada de não ficar para trás, custasse o que custasse, cometessem-se as barbaridades que se cometessem. E a verdade é que o espírito do Concilio Vaticano II abriu portas largas para a profanação de certezas teológicas, de espaços sagrados, de ritos e da acção social alinhada com a urgência do Reino, em detrimento da porta estreita da Verdade de que é depositária.

Quero dizer, resumindo, que o “fumo de Satanás” entrou no Vaticano, como lembrou o próprio Papa Paulo VI. Entrou no Templo, pela modificação abrupta das formas de culto, o que permitiu, por exemplo, a instituição do banquete presidido em vez do Sacrifício celebrado. Entrou na Catequese, pela deturpação das noções teológicas, o esquecimento da boa filosofia e o abandono da leitura e continuação da escolástica básica; também pelo próprio culto que, não obedecendo com precisão à dogmática da Fé, faz ele mesmo má Catequese a quem assiste ou participa. E entrou, finalmente, nas relações com os estados, os reis e seus reinos, que serviam temporalmente à construção da Cidade Cristã.

A Igreja considera agora sobre este último ponto que, não sendo depósito de ideologia política, não lhe convém nem aos povos convirá imiscuir-se no governo dos homens. Esqueceu-se das palavras do Pater Noster (“venha a nós o vosso Reino”), de Santo Agostinho, de São Tomás de Aquino, dos Papas. Esqueceu-se de quem é, de como construiu a Europa em base de moral e de como a manteve até render-se ao mundo e à sua lógica.

Neste campo, que mina todos os outros, correm os dias impensáveis em que a Igreja mantém-se alerta na discussão democrática do número, promove-a, incita-a e glorifica-a. Dizem os modernistas que arruinaram as fundações de “pedra angular”, que à Igreja cabe evangelizar na sociedade, não a sociedade. Cabe ser elemento inserido igualitariamente na orgânica do laicismo, tolerante com o erro do vizinho do lado, a fim de esperar que a Palavra triunfe por si, como se não houvesse mandato de anuncia-la e fazê-la cumprir. Defendem a sociedade de cristãos, detestam a sociedade cristã. Temos bispos socialistas e social-democratas, padres comunistas e fiéis a engrossarem os partidos que dão corpo político à elevação do Estado Social sinistro. A Igreja modernista acredita nesse Estado como garante da virtude da Caridade, transformada em solidariedade chupista, forçada, esquematizada, burocratizada, obrigatória, exigida… como se a virtude cristã se coadunasse com a imposição material e a divinização da produção como elemento central da vida comunitária, regida pelos Direitos Humanos de matriz jacobina e que os Ministros de Deus, que dividem o tempo entre templos axadrezados e templos de Cruz, louvam em cantatas mediáticas.

A Igreja do Cristo amigo, irmão delico-doce e homem bonzinho, é uma servente deste mundo avermelhado. Denominam essa subversão de “teologia da libertação”, quando do que se trata é de uma aceitação sem limites de uma libertinagem espiritual, moral e social, alimentada de ecumenismos e diálogos inter-religiosos que não têm outra intenção que não seja protestantizar e, em plano de acção superior, tudo religar num sincretismo internacionalista anticristão.

E o futuro da Civilização, em oposição a esta via que acarretará as piores previsões de Orwell, é tão incerto como as certezas que povoam as mentes das Ordens e dos leigos acomodados. Resta-nos saber, com certeza inabalável, que basta à Igreja o reencontro consigo mesma e com o seu Senhor, na Tradição que passou e aperfeiçoou nos séculos. Um encontro naquelas três portas estreitas do Templo, da Catequese e da Orgânica Social do Reino Cristão.

Bento XVI é uma esperança, sem dúvida, mas a Cristandade, entendida correctamente como tal, continua enfiada em buracos, ostracizada em redutos, defendendo este reencontro. Nesses paraísos eclesiais, que sobram e subsistem com a Graça, costuma comentar-se que, um dia, seremos cinco ou seis numa cave, constantemente censurados e perseguidos. Raramente nos apercebemos que já estamos, há muito, nessa situação de provação, vítimas de uma Igreja de homens demoníacos que acreditam que não ser do mundo é deixar tudo nas mãos do inimigo…

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