Não
ser do mundo
por Simão
dos Reis Agostinho
“Não
peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Eles não
são do mundo, como Eu não sou do mundo” (Oração
Sacerdotal – Jo 17, 15-16)
Não
é novidade para ninguém minimamente atento, consciente
da História e da Tradição eclesiais, que as
palavras de Cristo não ecoam mais na Igreja dita modernista.
Uma Igreja conciliar, de revolução e ruptura com as
verdades teológicas fundamentais que durante séculos
inteleccionámos no casamento da Fé e da Razão e
experimentámos, não menos tempo, na prática
litúrgica consentânea com essas verdades. Mas, nunca
como hoje, poderíamos estar tão longe do que deveria
enformar a nossa acção de Corpo Místico, Pedras
Vivas, Soldados.
A Igreja
afastou-se, como uma anulação de Matrimónio, de
toda a Tradição inspirada que manteve a Fé
betumada no coração de inúmeros Santos.
Desviou-se drasticamente da dogmática fundamental, da liturgia
maior que significava e perpetuava toda a teologia herdada dos
Apóstolos e aprofundada ao longo dos anos, e da defesa da
aliança entre a espada espiritual e a terrena. Em suma,
abandonou a linha da lex orandi tradicional que garantia a
concordância com a absoluta lex credendi, bem como a
obrigação da Fé de instaurar na terra o Reinado
Social de Cristo.
A que se
deve esta revolução? Dizem que a Igreja tem que se
adaptar ao mundo… tem que adaptar a Mensagem!
A heresia
da hierarquia modernista chegou a este ponto: o de adaptar a Mensagem
ao mundo. Compreender-se-ia que quisesse a Igreja concorrer em
igualdade no uso das novas tecnologias de comunicação,
na alteração do paradigma de espaço e de tempo,
não fosse a referida adaptação vazia de reflexão
sobre essa alteração, numa tentativa desenfreada de não
ficar para trás, custasse o que custasse, cometessem-se as
barbaridades que se cometessem. E a verdade é que o espírito
do Concilio Vaticano II abriu portas largas para a profanação
de certezas teológicas, de espaços sagrados, de ritos e
da acção social alinhada com a urgência do Reino,
em detrimento da porta estreita da Verdade de que é
depositária.
Quero
dizer, resumindo, que o “fumo de Satanás” entrou no
Vaticano, como lembrou o próprio Papa Paulo VI. Entrou no
Templo, pela modificação abrupta das formas de culto, o
que permitiu, por exemplo, a instituição do banquete
presidido em vez do Sacrifício celebrado. Entrou na Catequese,
pela deturpação das noções teológicas,
o esquecimento da boa filosofia e o abandono da leitura e continuação
da escolástica básica; também pelo próprio
culto que, não obedecendo com precisão à
dogmática da Fé, faz ele mesmo má Catequese a
quem assiste ou participa. E entrou, finalmente, nas relações
com os estados, os reis e seus reinos, que serviam temporalmente à
construção da Cidade Cristã.
A Igreja
considera agora sobre este último ponto que, não sendo
depósito de ideologia política, não lhe convém
nem aos povos convirá imiscuir-se no governo dos homens.
Esqueceu-se das palavras do Pater Noster (“venha a nós
o vosso Reino”), de Santo Agostinho, de São Tomás de
Aquino, dos Papas. Esqueceu-se de quem é, de como construiu a
Europa em base de moral e de como a manteve até render-se ao
mundo e à sua lógica.
Neste
campo, que mina todos os outros, correm os dias impensáveis em
que a Igreja mantém-se alerta na discussão democrática
do número, promove-a, incita-a e glorifica-a. Dizem os
modernistas que arruinaram as fundações de “pedra
angular”, que à Igreja cabe evangelizar na sociedade, não
a sociedade. Cabe ser elemento inserido igualitariamente na orgânica
do laicismo, tolerante com o erro do vizinho do lado, a fim de
esperar que a Palavra triunfe por si, como se não houvesse
mandato de anuncia-la e fazê-la cumprir. Defendem a sociedade
de cristãos, detestam a sociedade cristã. Temos bispos
socialistas e social-democratas, padres comunistas e fiéis a
engrossarem os partidos que dão corpo político à
elevação do Estado Social sinistro. A Igreja modernista
acredita nesse Estado como garante da virtude da Caridade,
transformada em solidariedade chupista, forçada,
esquematizada, burocratizada, obrigatória, exigida… como se
a virtude cristã se coadunasse com a imposição
material e a divinização da produção como
elemento central da vida comunitária, regida pelos Direitos
Humanos de matriz jacobina e que os Ministros de Deus, que dividem o
tempo entre templos axadrezados e templos de Cruz, louvam em cantatas
mediáticas.
A Igreja
do Cristo amigo, irmão delico-doce e homem bonzinho, é
uma servente deste mundo avermelhado. Denominam essa subversão
de “teologia da libertação”, quando do que se trata
é de uma aceitação sem limites de uma
libertinagem espiritual, moral e social, alimentada de ecumenismos e
diálogos inter-religiosos que não têm outra
intenção que não seja protestantizar e, em plano
de acção superior, tudo religar num sincretismo
internacionalista anticristão.
E o
futuro da Civilização, em oposição a esta
via que acarretará as piores previsões de Orwell, é
tão incerto como as certezas que povoam as mentes das Ordens e
dos leigos acomodados. Resta-nos saber, com certeza inabalável,
que basta à Igreja o reencontro consigo mesma e com o seu
Senhor, na Tradição que passou e aperfeiçoou nos
séculos. Um encontro naquelas três portas estreitas do
Templo, da Catequese e da Orgânica Social do Reino Cristão.
Bento XVI
é uma esperança, sem dúvida, mas a Cristandade,
entendida correctamente como tal, continua enfiada em buracos,
ostracizada em redutos, defendendo este reencontro. Nesses paraísos
eclesiais, que sobram e subsistem com a Graça, costuma
comentar-se que, um dia, seremos cinco ou seis numa cave,
constantemente censurados e perseguidos. Raramente nos apercebemos
que já estamos, há muito, nessa situação
de provação, vítimas de uma Igreja de homens
demoníacos que acreditam que não ser do mundo é
deixar tudo nas mãos do inimigo… |