A ofensiva
anti-tradição
por Bernardo
Calheiros
Nas
últimas décadas o mundo tem assistido a mudanças
vertiginosas, que se sucedem a um ritmo nunca visto e que afectam
profundamente a forma como vivemos e a maneira como nos encaramos a
nós próprios. Essas mudanças trouxeram-nos, em
muitos casos, mais comodidade, mais segurança e mais tempo de
vida. Contudo, será que nos trouxeram um aumento proporcional
de felicidade? É legítimo que se tenham dúvidas.
Não
vemos qualquer incompatibilidade entre tradição e
modernidade. Antes pelo contrário, parece fundamental que
saibamos viver em harmonia com ambas. Afinal, como em tudo aliás,
o que parece essencial é haver bom senso e essa prudência
de que falavam já os antigos. O que era importante é
que a classe política não olhasse só para o seu
umbigo e que fosse capaz de ver aquilo que as populações
realmente querem. No entanto, os nossos políticos, formados na
escola da partidocracia, afastados das populações que
os elegeram e que deveriam servir, sentem-se acima dessas realidades
mesquinhas, são gente moderna que tem preocupações
mais elevadas, que o povo não compreende. Gente dinâmica
que gosta de rupturas e que advoga a mudança pela mudança.
Basicamente, uns modernaços avessos a coisas velhas como as
tradições, os costumes e a moral, obstáculos
todos eles à sua sacrossanta liberdade de acção.
Assim, as Leis são óptimas para serem contornadas, os
costumes são coisas do passado e a moral é algo de
muito aborrecido e ultrapassado que se deve deixar para trás.
A tradição, enfim, a tradição já
não é o que era…
Esta
gente − políticos, intelectuais e ditadores do politicamente
correcto −, que se considera detentora da cultura, esquece depressa
que esta, como a definiu magistralmente Konrad Lorenz, “é
uma tradição cumulativa”. Não permite rupturas
e o repúdio dos princípios que estiveram na base da
constituição de uma determinada comunidade. No entanto,
essa gente, tão culta, acha que é preciso estar sempre
a fazer história e a reescrevê-la de acordo com a sua
visão própria das coisas. Daí as demonizações
a que assistimos e o branqueamento de tantos facínoras
progressistas (veja-se, acima de todos, o caso de Che Guevara).
É
precisamente a tradição, aliada com a modernidade, que
faz o mundo avançar. Talvez não permita que avance à
velocidade que alguns modernistas, sempre prontos a subverter as
instituições, gostariam que avançasse, mas
permite certamente que o mundo evolua de forma saudável, num
ritmo que tenha em conta o querer das populações e a
vontade das elites.
A forma
como actualmente se está a procurar subverter as instituições
tradicionais, nomeadamente a Família, célula basilar
das nossas sociedades, ameaça destruir tudo aquilo em que
acreditamos. Trata-se verdadeiramente de um regresso à
barbárie, de um esquecimento de todas as conquistas da
civilização. É importante que, cada vez mais,
nos unamos para fazer face a esta avançada das forças
“progressistas” que só poderão conduzir ao caos.
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