Olivença
Espezinhada
por Carlos
Consiglieri*
(Publicado originalmente no Jornal de Coruche)
1. Foi preciso chegar aos dias de hoje para se verificar (se assim
pudemos afirmar) que em Olivença, apareceram vozes, por ora,
ainda, pouco assumidas a defender ideias de autonomia, dentro do
quadro legal permitido em Espanha.
A
verdade é que Portugal (entenda-se por Governo português)
não contribuiu, de forma muito visível, para a criação
de posições reivindicativas do território ao
longo destes dois séculos.
Sabemos
que o deveria ter feito, face às responsabilidades nacionais e
que ocasiões não faltaram para tal.
Nas
ausências de tomadas de posição não
podemos lamentar que se esbocem, agora, no seio da sociedade
oliventina, movimentações no sentido autonómico
quando a Espanha revela sinais de desagregação
política.
Não
temos dúvidas que o aparecimento destes sintomas (que se
revelarão incómodos para ambos os Governos) resultam do
lento processo que fervilha em sectores da população
oliventina em resultado das contradições políticas,
económicas, sociais e culturais, com maior evidência
entre as camadas jovens.
Estas,
perante a falta de perspectivas locais (em relação as
regionais e nacionais) desejam dar um passo em fiente, perante as
dificuldades e os bloqueamentos que os isolam no contexto geral.
Verificam, que aquele tipo de democracia pouco mais lhe dá que
a liberdade em abstracto, que apesar de parecer um dom precioso, não
lhes chegam dentro dos conceitos neo-liberais impostos. Desejam
mudanças do sistema, com novas e actuais oportunidades de
participação na sociedade. O desemprego, evidencia o
carácter desarmonioso do tipo de crescimento que a Espanha
tem, com a agravante que todos os aspectos negativos do tipo de
desenvolvimento, se reflectem de forma mais negativa, como mal
revelam os “números” e os índices “embastelados”
nos da denominada Comarca de Olivença – unidade territorial
administrativa que integra vários “concelhos” da
Extremadura.
Talvez,
possamos interpretar estas atitudes autonómicas como uma “fuga
para a frente”, com dois sentidos: mostrar descontentamento às
autoridades centrais e regionais de Espanha; ou recordar o passado
(que eles não conhecem bem) como ameaça ou como
pronúncia de algo cujo sucesso não alcançamos
neste momento.
Também
sabem que do lado de cá, não poderão contar
quase com nada, para além de algum companheirismo e esperança
fraterna, pois o Governo de Portugal está enleado numa teia de
compromissos e de dependências económicas que entravam a
lucidez e as vontades de se encetar seja o que for de aproximação
com Olivença e o seu povo.
Convirá,
porém, reflectirmos um pouco sobre estas ideias “autonómicas”
que parecem a muitos caídas de repente dos céus. Tanto
quanto se consegue saber outras ideias estão a surgir, em
simultâneo, a militantes de duas estruturas políticas
locais – de oposição ao partido que tem gerido o
território. É necessário dizer que estamos em
cima de eleições autárquicas.
Muitos
daqueles que ainda “arranham” o português alentejano, por
tradição familiar, com apelidos ou alcunhas bem nossos,
apesar da aculturação forçada, estão
desiludidos, diríamos mesmo amargamente desiludidos. Como
reagirão perante este “rebuçado” autonómico?
É uma incógnita que convém acompanhar.
Há
sinais visíveis que pelo menos estas duas forças
políticas estão a movimentar-se e a seguir o exemplo do
actual presidente de Câmara que tem vindo a Lisboa para se
incorporar no desfile do 25 de Abril.
Voltaremos
nós mais uma vez, a encolher os ombros e a pensar que “essas
coisas” nada têm a ver connosco?
A
questão de Olivença não deixou, ainda, de ser
uma causa transversal na nossa sociedade e na nossa consciência
nacional, apesar de ser assumida por minorias de várias
ideologias. O exemplo de TIMOR poderá ser evocado.
É
que se trata de defender a nossa honra, o nosso património
cultural (algum dele defendido pela legislação
portuguesa), a língua e as nossas tradições e,
ir assim ao encontro do que muitos oliventinos pensam.
2. Há dois séculos que Olivença é
espezinhada e Portugal também. Há quem afirme que é
tempo suficiente para abandonarmos esta causa. Se houvesse espanhóis
que fizessem o mesmo em relação a Gibraltar, muitas
vozes se levantariam no país vizinho – e, quanto a nós
com razão, pois apenas passaram três séculos
sobre a cedência do rochedo mediterrânico.
Não
queremos aqui discutir questões que não nos dizem
respeito, mas se a evocamos é para acrescentar a flagrante
incoerência de Espanha – num caso diz sim, noutro diz não!
E
Olivença está espezinhada porquê?
Vejamos.
Se em 1801, Olivença era tão importante como Badajoz,
um século depois registava menos residentes que à data
da ocupação. E, ainda, hoje a população
revela índices de crescimento tão lentos que,
praticamente, se mantém, em termos absolutos, no mesmo patamar
demográfico.
Grande
parte da fuga da população para os concelhos limítrofes
do Alentejo, no século XIX, está na explicação
desta estagnação. Porém, no século XX,
registou-se outra fuga em massa, devido à guerra civil e à
miséria que assolou a “Província” em que inseriram
administrativamente Olivença, o que forçou a uma forte
corrente de imigração.
Muitos
oliventinos, nessas ocasiões, optaram pelos concelhos
limítrofes, particularmente, Vila Viçosa e Elvas,
enquanto outros imigraram para a Catalunha e Madrid, ocultando, em
muitos casos, a sua naturalidade.
Mas,
o abandono no século XIX, não se deu só por
parte dos trabalhadores rurais, mas também dos proprietários
da terra, sobre os quais foram desencadeadas ameaças e
pressões de toda a ordem.
Bastará
ler uma história da Estremadura para conhecermos as violências
cometidas pelas Leis de Desamortização, os roubos e as
pilhagens da propriedade – a apropriação dos baldios,
dos bens da Coroa e da Casa do Cadaval, da Misericórdia e a
ocupação das quintas das famílias seculares, bem
como dos bens dos burgueses que através do comércio
começavam a desenvolver a Vila de Olivença.
A
par da pilhagem económica, assistia-se a proibição
do português como língua e as escolas – públicas
e privadas - foram encerradas. A campanha contra a língua
portuguesa chega a utilizar exemplos de profundo racismo – “a
língua portuguesa é falares de preto”! A Igreja, sob a orientação do Bispo de Badajoz,
assume a repressão proibindo o português nos actos
religiosos. Também o ensino de história de Espanha irá
provocar o desconhecimento de todo o passado oliventino, a par da
falsificação de dados históricos, como hoje é
corrente e premeditado.
E
a repressão sobre a identidade? Com a destruição
de Cartórios e Arquivos, verificou-se a adulteração
de nomes e apelidos portugueses. Hoje há nomes
irreconhecíveis, que não são nem portugueses nem
espanhóis.
E
quanto a memória colectiva? A toponímia foi modificada,
os epitáfios do Cemitério de Olivença foram
ultrajados, grande parte da heráldica destruída.
Quem
tenha dúvidas – investigue. Vá e veja. Indague como
se processou a repressão e quantos enforcamentos houve em
Olivença a culminar a diversas formas de violência.
Tudo
foi feito para amordaçar a consciência, espezinhando-se
a liberdade e a memória do povo oliventino.
Atentemos
num exemplo. Quando se aguardava que Franco cumprisse a palavra dada
a Salazar, Olivença içou a bandeira portuguesa no alto
da Torre de Menagem. O incumprimento do “trato” levou ao
fuzilamento de “uns tantos” oliventinos ...
3. “Olivença é um caso que se resolve no
próximo ano” – disse Aznar em Lisboa, aos órgãos
de comunicação social portuguesa.
Foi
com este cinismo político que o antigo primeiro-ministro de
Espanha respondeu. Mas, do lado de cá, o cinismo é
maior porque nem respostas ambíguas ouvimos.
De
facto, o Tratado de Badajoz de 1801, que concedia o território
a Espanha foi denunciado (declarado “nulo e de nenhum vigor”),
pelo Manifesto de 1 de Maio de 1808. Por este acto legislativo,
jamais revogado e, ainda, legalmente em vigor, a assunção
da nossa soberania sobre o território passou a constituir
Direito interno, enquanto tal, vinculativo.
O
que, no devir histórico, encontrou sempre consagração
nas constituições portuguesas, (na de 1911) e
nomeadamente na actual que, absolutamente, atendeu a essa assunção,
indicando que “Portugal abrange o território
historicamente definido no continente europeu” – art.º
5.º - n.º 1, aspecto assinalado por vários dos
nossos constitucionalistas: Jorge Miranda, Gomes Canotilho e Vital
Moreira.
Proclama-se,
ainda, que “O Estado não aliena qualquer parte do
território português” (art.º 5.º -
n.º 3) e estabelece-se que é “tarefa fundamental
do Estado garantir a independência nacional” ( art.º
9), e “assegurar a defesa nacional” bem como, “a
integridade do território” ( art.º 273).
Então
em que ficamos? A quem cabe defender a Constituição? Ao
Chefe de Estado? Aos que governam? Ou àqueles que os elegeram
para nos representar?
______________________
* Economista
e Professor Universitário
NR: Consultados alguns historiadores especialistas nos anos 30, não
nos foi possível encontrar a mínima evidência da
combinação de Salazar com Franco sobre Olivença, citada neste excelente
artigo do
Prof. Consiglieri. O Autor afirma ter recorrido às Memórias de Freitas do Amaral como fonte do facto.
|