Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Tradição e Modernidade
Sombras da História
Os outros 6 milhões
Holodomor – O holocausto ucraniano

por J. Luís Andrade

Em todo o mundo, milhares de ucranianos reuniram-se no dia 25 de Novembro para lembrarem as vítimas do genocídio ordenado por Stalin em 1932-33. Decidido a resolver a questão ucraniana cuja identidade nacional acreditava estar fortemente enraizada nas massas camponesas, Stalin mandou elaborar um programa radical de colectivização forçada da terra ao mesmo tempo que elevava as quotas obrigatórias de exportação de trigo (em 44%) nas terras consideradas como o Celeiro do Império Russo.

Cada aldeia era obrigada a fornecer ao Estado uma determinada quantidade de cereais; a Lei da colectivização impunha que nenhum trigo fosse dado aos membros de uma unidade colectiva sem que as metas impostas por Moscovo fossem atingidas. Como esse valor ultrapassava geralmente a produção efectiva, a comunidade não conseguia assumir a sua quota-parte e era colocada numa lista negra. Em consequência de tal facto, a OGPU e o NKVD realizaram operações massivas contra os camponeses ucranianos a fim de lhes confiscarem teoricamente algum cereal escondido, na prática, todos os géneros alimentícios. (O facto de até as próprias sementes para o cultivo do ano seguinte serem confiscadas diz bem da verdadeira intenção das autoridades comunistas).

Ao mesmo tempo, implementavam um sistema de passaportes interno que impedia os rurais de se movimentarem à procura de comida. A morte por fome era uma consequência inevitável.

Reconhecida pelas autoridades das Nações Unidas como uma das maiores atrocidades do nosso tempo, o genocídio ucraniano só emergiu verdadeiramente à luz do dia quando o país assumiu a sua independência no turbilhão provocado pela queda do Império Soviético. Assombrosos e horrendos relatos de coetâneos do massacre foram então recolhidos e divulgados.

Yaroslav Lukov, da BBC, contou como sempre mantivera uma atitude céptica em relação às histórias que a avó lhe começara a contar, apenas no fim dos anos 80, sobre crianças e bebés terem sido comidos (alguns, inclusive, ainda em vida). Pensava que os relatos de canibalismo desenfreado eram demasiado chocantes para poder ser verdade, até que se viu confrontado com documentação inequívoca sobre o assunto. No desespero da fome, bebés e crianças desapareciam sem rasto, mortos e comidos pelos progenitores ou vizinhos. Tresloucados, pela fome, matavam ou aproveitavam-se da prostração moribunda de vizinhos para de seguida os comer. Casos houve em se estabeleceu mesmo um comércio de carne humana, conhecido e tolerado pelas autoridades comunistas, como demonstram alguns documentos.

Viktor Yushchenko, Presidente da Ucrânia, mandou desclassificar e tratar mais de trinta mil documentos, na posse do KGB, sobre a Grande Fome de 1932-33. Neles se prova de forma inequívoca que o Holodomor foi deliberadamente ordenado por Stalin, sob a supervisão directa do seu homem de mão Postyshev. Note-se que os kulaks, proprietários e rendeiros apontados como inimigos da classe campesina, há muito (nos anos 20) que haviam sido deportados para a tundra siberiana pelo que agora os afectados eram inquestionavelmente os camponeses.

Yurij Luhovy, o produtor e editor canadiano do documentário Harvest of Despair (Colheita do Desespero), que relata o Holodomor com base em relatos de quem o viveu em primeira mão, interrogava-se aquando do lançamento do filme em 1984, como era possível que sobreviventes do genocídio a viverem então no Canadá e nos E.U.A, 50 anos depois, ainda hesitassem em falar, com medo de represálias. Com efeito, tinham consciência de que longo era o braço do poder soviético e múltiplas as hidras da sua cumplicidade. Porque se é verdade que desde o genocídio do biénio 33-34, muitos foram as vozes que denunciaram o ocorrido, outras houve que o branquearam e o desvalorizaram.

Apesar de perfeitamente cientes da dimensão do massacre, Louis Fischer do The New Republic e Walter Duranty do The New York Times empenharam-se em servir Moscovo mais que a verdade. Este último foi mesmo recipiente do Prémio Pulitzer em 1932 (não admira…) tendo essa atribuição sido alvo, recentemente, de um malogrado pedido de revogação, com um baixo-assinado subscrito por milhares de pessoas. Mas esses focos manejados por Moscovo não conseguiram ofuscar os relatos feitos quer por outros colegas como, Malcom Muggeridge do Manchester Guardian, ou William Henry Chamberlain do Christian Science Monitor, ou Eugene Lyons da United Press, ou Harry Lang do Jewish Daily. Igualmente vários próceres comunistas, como Nikita Khrushchev ou o arrependido Victor Kravchenko que, tal como Lev Kopelev, participou enquanto jovem militante comunista no massacre dos camponeses ucranianos, denunciaram a seu tempo os factos vividos no Holodomor que levou à morte, por fome provocada, mais de seis milhões de ucranianos.

Mas como já acontecera com o massacre das elites polacas em Katyn, a seu tempo calado pelo gentleman Churchill, só agora, mas mesmo assim muito a descompasso, surgem relatos sobre o que se passou no sangrento lodaçal soviético. Geralmente trazidos a lume por antigos comunistas (será uma questão de credibilidade aggiornata?), os horrores sofridos pelos súbditos do socialismo científico ainda não conseguiram ganhar o momentum necessário para suprir as lacunas, as mentiras e as inverdades propaladas pela dominante historiografia apologética, persistentemente inebriada no obsessivo anti-fascismo. Deveras impressionante é o relato que Nicolas Werth nos traça do Gulag, na Ilha dos Canibais (agora já em edição portuguesa); mas, detalhes e estórias à parte, nada que os que sempre denunciaram o comunismo não soubessem ou antevissem. Lembramo-nos igualmente de Solzhenitsyn e do assertivo documentário recente da Aura Miguel sobre Fátima e a Rússia.

Quanto aos seis milhões e aos Holocaustos, enfim, todos nós temos consciência de que nos matraqueiam com a afirmação de que todos os seres humanos são iguais mas sabemos que, na realidade, há sempre uns que são sempre mais iguais que outros, não é verdade?

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