Sombras
da História
Os
outros 6 milhões
Holodomor – O holocausto ucraniano
por J. Luís Andrade
Em todo o mundo, milhares de
ucranianos reuniram-se no dia 25 de Novembro para lembrarem as
vítimas do genocídio ordenado por Stalin em 1932-33.
Decidido a resolver a questão ucraniana cuja identidade
nacional acreditava estar fortemente enraizada nas massas camponesas,
Stalin mandou elaborar um programa radical de colectivização
forçada da terra ao mesmo tempo que elevava as quotas
obrigatórias de exportação de trigo (em 44%) nas
terras consideradas como o Celeiro do Império Russo.
Cada aldeia era obrigada a fornecer
ao Estado uma determinada quantidade de cereais; a Lei da
colectivização impunha que nenhum trigo fosse dado aos
membros de uma unidade colectiva sem que as metas impostas por
Moscovo fossem atingidas. Como esse valor ultrapassava geralmente a
produção efectiva, a comunidade não conseguia
assumir a sua quota-parte e era colocada numa lista negra. Em
consequência de tal facto, a OGPU e o NKVD realizaram operações
massivas contra os camponeses ucranianos a fim de lhes confiscarem
teoricamente algum cereal escondido, na prática, todos os
géneros alimentícios. (O facto de até as
próprias sementes para o cultivo do ano seguinte serem
confiscadas diz bem da verdadeira intenção das
autoridades comunistas).
Ao mesmo tempo, implementavam um
sistema de passaportes interno que impedia os rurais de se
movimentarem à procura de comida. A morte por fome era uma
consequência inevitável.
Reconhecida pelas autoridades das
Nações Unidas como uma das maiores atrocidades do
nosso tempo, o genocídio ucraniano só emergiu
verdadeiramente à luz do dia quando o país assumiu a
sua independência no turbilhão provocado pela queda do
Império Soviético. Assombrosos e horrendos relatos de
coetâneos do massacre foram então recolhidos e
divulgados.
Yaroslav Lukov, da BBC, contou como
sempre mantivera uma atitude céptica em relação
às histórias que a avó lhe começara a
contar, apenas no fim dos anos 80, sobre crianças e bebés
terem sido comidos (alguns, inclusive, ainda em vida). Pensava que os
relatos de canibalismo desenfreado eram demasiado chocantes para
poder ser verdade, até que se viu confrontado com documentação
inequívoca sobre o assunto. No desespero da fome, bebés
e crianças desapareciam sem rasto, mortos e comidos pelos
progenitores ou vizinhos. Tresloucados, pela fome, matavam ou
aproveitavam-se da prostração moribunda de vizinhos
para de seguida os comer. Casos houve em se estabeleceu mesmo um
comércio de carne humana, conhecido e tolerado pelas
autoridades comunistas, como demonstram alguns documentos.
Viktor Yushchenko, Presidente da
Ucrânia, mandou desclassificar e tratar mais de trinta mil
documentos, na posse do KGB, sobre a Grande Fome de 1932-33. Neles se
prova de forma inequívoca que o Holodomor foi deliberadamente
ordenado por Stalin, sob a supervisão directa do seu homem de
mão Postyshev. Note-se que os kulaks, proprietários
e rendeiros apontados como inimigos da classe campesina, há
muito (nos anos 20) que haviam sido deportados para a tundra
siberiana pelo que agora os afectados eram inquestionavelmente os
camponeses.
Yurij Luhovy, o produtor e editor
canadiano do documentário Harvest of Despair (Colheita
do Desespero), que relata o Holodomor com base em relatos de quem o
viveu em primeira mão, interrogava-se aquando do lançamento
do filme em 1984, como era possível que sobreviventes do
genocídio a viverem então no Canadá e nos E.U.A,
50 anos depois, ainda hesitassem em falar, com medo de represálias.
Com efeito, tinham consciência de que longo era o braço
do poder soviético e múltiplas as hidras da sua
cumplicidade. Porque se é verdade que desde o genocídio
do biénio 33-34, muitos foram as vozes que denunciaram o
ocorrido, outras houve que o branquearam e o desvalorizaram.
Apesar de perfeitamente cientes da
dimensão do massacre, Louis Fischer do The New Republic e Walter Duranty do The New York Times empenharam-se em servir
Moscovo mais que a verdade. Este último foi mesmo recipiente
do Prémio Pulitzer em 1932 (não admira…) tendo essa
atribuição sido alvo, recentemente, de um malogrado
pedido de revogação, com um baixo-assinado subscrito
por milhares de pessoas. Mas esses focos manejados por Moscovo não
conseguiram ofuscar os relatos feitos quer por outros colegas como,
Malcom Muggeridge do Manchester Guardian, ou William Henry
Chamberlain do Christian Science Monitor, ou Eugene Lyons da United Press, ou Harry Lang do Jewish Daily. Igualmente
vários próceres comunistas, como Nikita Khrushchev ou o
arrependido Victor Kravchenko que, tal como Lev Kopelev, participou
enquanto jovem militante comunista no massacre dos camponeses
ucranianos, denunciaram a seu tempo os factos vividos no Holodomor
que levou à morte, por fome provocada, mais de seis milhões
de ucranianos.
Mas como já acontecera com o
massacre das elites polacas em Katyn, a seu tempo calado pelo gentleman Churchill, só agora, mas mesmo assim muito a
descompasso, surgem relatos sobre o que se passou no sangrento
lodaçal soviético. Geralmente trazidos a lume por
antigos comunistas (será uma questão de credibilidade aggiornata?), os horrores sofridos pelos súbditos do
socialismo científico ainda não conseguiram ganhar o momentum necessário para suprir as lacunas, as mentiras
e as inverdades propaladas pela dominante historiografia apologética,
persistentemente inebriada no obsessivo anti-fascismo. Deveras
impressionante é o relato que Nicolas Werth nos traça
do Gulag, na Ilha dos Canibais (agora já em edição
portuguesa); mas, detalhes e estórias à parte, nada que
os que sempre denunciaram o comunismo não soubessem ou
antevissem. Lembramo-nos igualmente de Solzhenitsyn e do assertivo
documentário recente da Aura Miguel sobre Fátima e a
Rússia.
Quanto aos seis milhões e aos
Holocaustos, enfim, todos nós temos consciência de que
nos matraqueiam com a afirmação de que todos os
seres humanos são iguais mas sabemos que, na realidade, há
sempre uns que são sempre mais iguais que outros, não
é verdade? |