Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Restauração revisitada, por Mário Casa-Nova Martins
Sobre a obra de Pitirim Sorokin

por James Thornton (tradução de Manuel Azinhal)

O filósofo tradicionalista, sociólogo e historiador Pitirim Alexandrovitch Sorokin nasceu no norte da Rússia, três decénios antes do eclodir da revolução bolchevique. Estudou principalmente na Universidade de São Petersburgo, onde recebeu o título de doutor em sociologia em 1922. Enquanto os acontecimentos da revolução viviam o seu apogeu, e durante a guerra civil que se seguiu, opôs-se aos comunistas e envolveu-se em diversas actividades contra-revolucionárias, o que conduziu à sua prisão e à sua condenação à morte por um tribunal vermelho.

A condenação à morte de Sorokin foi anulada por Lenine que, especulam alguns, queria mostrar-se magnânimo. Lenine, efectivamente, escreveu um artigo no “Pravda” para se vangloriar de ter salvo a vida do jovem intelectual. Sorokin, porém, não deixou de criticar abertamente o regime, o que levou ao seu exílio. Depois de breve estada em Praga, no fim do ano de 1923, partiu para a América onde lhe foi oferecido um lugar de professor na Universidade do Minnesota. Feito cidadão americano em 1930, aceitou no mesmo ano o convite para se tornar o primeiro professor e presidente do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard. Aí continuará até à sua morte, em 1968.

A filosofia da história de Sorokin revela-se pela a primeira vez, de forma completa, na sua maior obra, “Social and Cultural Dynamics”, de que foram publicados três volumes em 1937 e o quarto e último apenas em 1941. Esta obra enorme representa um trabalho de dez anos e conta mais de três mil páginas. Sorokin recapitulou depois inteiramente a sua visão do mundo em 1941 numa série de conferências no Lowell Institute do Massachusetts mais tarde publicadas em livro com o título “The Crisis of our Age”.

O modelo histórico sugerido por Sorokin não é tão sombrio como os que foram sugeridos por outros teóricos do século XX, nomeadamente, o mais conhecido deles, Oswald Spengler. Sorokin rejeita a noção dos “ciclos de vida orgânicos” das culturas; para ele, estas não passam por estados sucessivos. “A minha tese tem pouco em comum com as teorias afinal tão antigas do ciclo vital das culturas e das sociedades, com os estados da infância, da maturidade, da senilidade e do declínio”, escrevia ele. “Podemos deixá-los aos sábios da antiguidade e aos seus epígonos modernos”.

No entanto Sorokin rejeita da mesma forma nítida as ideias veiculadas pelos optimistas inveterados que acreditam na melhoria das condições de vida da humanidade, ou, por outras palavras, no “progresso”, o qual estaria automaticamente garantido para o futuro imediato, como para o longo prazo. Sorokin tinha palavras trocistas para descrever o tipo de sociedade desejada pelos progressistas: “cloud-cuckoo land of the after-dinner imagination” (ou seja, “sonhos nebulosos da imaginação após o jantar”, sem que se transmita inteiramente o sabor da expressão inglesa “cloud-cuckoo land”). Prosseguia dizendo que essa ideologia “tinha sido criada, na sua forma específica e actual, durante a segunda metade do século XIX”, sendo “uma daquelas bolas de sabão com que a Europa vitoriana, satisfeita de si mesma, gostava de divertir-se”. Para Sorokin, o futuro a longo prazo encerra imensas esperanças. A dificuldade, para os que vivem no nosso tempo, é enfrentar o curto prazo, como iremos ver.

Em “Social and Cultural Dynamics”, Sorokin escreveu que as culturas civilizadas não entram por elas mesmas em declínio mas antes oscilam entre diversas fases culturais. A primeira destas é, segundo ele, a fase “ideacional”. A segunda é a fase “sensorial”. A terceira fase é uma mistura equilibrada das duas primeiras, que Sorokin denomina “idealística” ou “mista”. Estas fases duram algumas centenas de anos, período durante o qual uma perspectiva cultural única e totalmente integrada, ou um “super-sistema” para usar o vocabulário de Sorokin, chega a dominar as artes, a literatura, a música, a filosofia, a religião, as ciências, o modo de governo, etc. É preciso compreender que no sistema de Sorokin as formas ideacionais e sensoriais da cultura estão em oposição radical uma com a outra.

A fase ideacional tem um exemplo paradigmático no tipo de cultura que se encontrava na Europa ocidental na Idade Média ou no Império bizantino, mais ou menos entre o reinado de Teodósio o Grande e a conquista turca de 1453, ou ainda na Rússia anterior a Pedro o Grande. Esta fase caracteriza-se por uma visão da realidade que coloca em primeiro lugar as verdades espirituais. Isso não significa obviamente que os homens que vivem numa época dominada por uma cultura ideacional se desinteressem totalmente das coisas materiais, que não comprem nem vendam nem acumulem riqueza. Sorokin quer dizer, mais simplesmente, que a maior parte dos homens, numa tal sociedade, tomam a realidade espiritual como a preocupação dominante da sua existência. Sorokin escreve que a maioria dos homens, nestas fases, não fogem necessariamente do mundo, “mas esforçam-se para o conduzir a Deus”, quer dizer, em transformar o mundo e o reformar de acordo com os valores ideacionais ou espirituais. A cultura ideacional é fortemente ascética, tanto como espiritualizada, o que implica que o seu modo de pensar “facilita o domínio do homem sobre si mesmo”.

A segunda fase é a qualificada de “sensorial”, sendo esta a fase que atravessa a civilização europeia nos cinco ou seis últimos séculos, segundo Sorokin. Contrastando com a cultura ideacional, a cultura “sensorial” toma a realização das necessidades físicas como a finalidade da existência. Para utilizar os termos de Sorokin, este tipo de cultura não “vê a realidade senão pelo que nela se apresenta aos órgãos dos sentidos; este tipo de cultura não procura nenhuma realidade “supra-sensorial”, ou seja espiritual, e não acredita em nenhuma realidade desta natureza”. Por consequência, do ponto de vista de toda a cultura “sensorial”, “a verdade ou a fé cristã, a revelação e Deus – na realidade toda a religião e movimentos cristãos – não podem aparecer como outra coisa senão absurdos e superstições”. No decurso de uma era “sensorial”, mesmo as personalidades que têm crenças espirituais procuram adaptar os deveres induzidos pela espiritualidade às suas necessidades e desejos materiais, e não o contrário. Enquanto uma cultura de tipo ideacional se esforça por ajudar o homem a controlar-se, como já se disse, “a mentalidade sensorial leva ao domínio do homem sobre o mundo exterior”, ou pelo menos tenta realizar esse género de programa.

Mostra-se claramente, assim, que a fase “sensorial” abre uma era onde o materialismo e o mercantilismo são triunfantes. Mais ainda, enquanto a sociedade ideacional é intrinsecamente conservadora e favorece a permanência, procurando estabelecer um sistema de valores imutável e absoluto, qualquer sociedade sensorial se compraz em proceder a mudanças constantes. O seu sistema de valores tende a ser utilitário, como é próprio de uma sociedade submetida a fluxos constantes. Resumindo a distinção entre as formas ideacionais e sensoriais da cultura, Sorokin observa que o homem inserido numa cultura ideacional “espiritualiza o que lhe é exterior, mesmo o mundo inorgânico” enquanto o homem inserido numa cultura sensorial vai inevitavelmente “mecanizar e materializar tudo, até o seu próprio eu espiritual e imaterial”.

Aproximando-se o fim da era sensorial, segundo a teoria enunciada por Sorokin, a civilização entrou num período de transição, no qual tudo o que representa a cultura sensorial entra num estado avançado de decadência. Sorokin escreve que nós estamos situados entre duas grandes épocas: “( …) entre a cultura sensorial do nosso magnífico passado que morre e a cultura ideacional a surgir de um futuro criador. Nós vivemos, pensamos e agimos no fim de uma brilhante era sensorial que durou seiscentos anos. Os raios oblíquos do sol continuam a iluminar a glória de uma época que passa, mas as luzes desvanecem-se e, nas sombras que crescem, é cada vez mais difícil ver claro e orientar-nos, porque estamos mergulhados nas confusões do crepúsculo. A noite do período de transição avança, iminente, perante nós e perante as gerações que surgem (…)”.

Sorokin adianta o raciocínio seguinte: a sociedade moderna está numa fase de transição, situando-se entre o fim de uma época e o começo de outra, enquanto os fundamentos e as estruturas do nosso sistema cultural de valores entram em decomposição. As pessoas não estão já convencidas, observa ele, que os amanhãs serão “maiores e melhores”; as pessoas não acreditam mais na “marcha do progresso” que não parará nunca e nos trará a paz, a segurança e a prosperidade. A sociedade “sensorial” desintegra-se e os sintomas dessa deliquescência são inúmeros.

O espírito que se desprende da arte, da música e da literatura contemporâneas, escreve Sorokin, “concentra-se sobre as morgues das centrais de polícia, sobre as proezas dos criminosos, sobre os órgãos sexuais, e interessa-se principalmente por tudo o que releva das fossas e esgotos da sociedade”, porque não há mais ideais vivos para o inspirar. Os princípios da ética e do direito afundam-se sob os nossos olhos, lançando numa terrível confusão mental e moral os homens de governo e os julgadores, tal como enormes massas humanas, todos perdendo a capacidade de distinguir claramente entre o bem e o mal, entre as coisas que reforçam os laços que mantêm a sociedade em harmonia e segurança e, por outro lado, as coisas que contribuem para a sua dissolução. Enquanto a criminalidade atinge patamares inauditos, os tribunais estão cada vez mais obcecados com os chamados direitos dos criminosos e dos psicopatas, enquanto que os direitos dos cidadãos comuns, obedientes às leis, são tratados com desprezo e calcados aos pés. Pior: a humanidade e a especificidade humana são negadas. Em lugar de se posicionar como uma criatura criada à imagem e à semelhança de Deus, passa a definir-se o homem, comenta Sorokin, como “um organismo animal, um conjunto de reflexos mecânicos, uma variável nas relações estímulo/resposta, ou, para a psicanálise, como um saco cheio de líbido fisiológico”.

Naturalmente, numa sociedade onde tudo vai e vem e onde nada é estável nem sólido, as crises acumulam-se, atingindo tudo e todos. “Vamos então admirar-nos, diz Sorokin, que, mesmo que muitos não compreendam nitidamente o que se passa, tenham pelo menos um vago sentimento que a questão não reside simplesmente na “prosperidade” ou na “democracia”, ou noutro conceito idêntico, mas em qualquer coisa que envolve “o conjunto da cultura sensorial contemporânea, da sociedade que ela gera e dos homens que ela determina? Se esta massa humana não compreende as implicações pela análise intelectual, ela apercebe-se, com acuidade, que se encontra dolorosamente presa nas grilhetas que constituem as vicissitudes do nosso tempo, sejam os homens reis ou operários”.

Sorokin era um homem de inteligência extrema e complexa, uma personalidade independente. Embora não se possa classificá-lo como um “homem de direita” no sentido habitual da expressão, porque nem todas as posições que assumiu correspondem a essa etiqueta, não se pode porém negar o seu conservadorismo intrínseco em inúmeros temas, nomeadamente nas questões sociais. Entre outros pontos, era evidentemente um adversário feroz do comunismo; desconfiava de todas as ideologias (que considerava como esquematizações sobranceiras ou mutilações mentais dignas das infligidas num leito de Procusto); estava aterrado constatando a putrefacção moral que via expandir-se tão rapidamente na sociedade.

Não será surpresa verificar que Sorokin, em tempos apontado como o sociólogo mais publicado no mundo, tenha sido lançado no esquecimento desde os anos 60. Desde logo, como notou o teólogo conservador Harold O. J. Brown, o tradicionalismo social muito marcado de Sorokin provoca o anátema, actualmente, nas fileiras do situacionismo contemporâneo. Brown escreve que Sorokin “está realmente esquecido na grande universidade onde passou as quatro últimas décadas da sua vida; sem dúvida porque ele colocava o acento tónico sobre os valores e desprezava a corrupção; hoje em dia, tais atitudes passaram de moda em política e não têm mais espaço nesses lugares”.

Para mais, a visão que Sorokin cultivava sobre o fim que a sociologia devia prosseguir era tradicionalista, o que é altamente suspeito nos nossos dias. Russell Kirk escreveu, há alguns anos, que “os behavioristas mais típicos rejeitam as convicções éticas de Sorokin (convicções baseadas na Regra de Ouro) e negam a existência de valores e de normas permanentes”. O próprio Sorokin estava consternado por ver a sua obra assim rejeitada; amargo, advertia a comunidade dos seus pares que tais posições não podiam senão conduzir a sociologia para impasses: “Apesar da admiração narcísica que votamos a nós mesmos, apesar das energias e dos meios enormes que se gastam em pesquisas estatísticas e pseudo-matemáticas, as realizações da sociologia moderna permanecem singularmente modestas; de forma inesperada, ela manteve-se estéril e as suas deduções falsas são particularmente abundantes”.

Algumas das obras de Sorokin continuam a ser editadas, e estão disponíveis junto das editoras americanas. As mais importantes e pertinentes para compreender as crises que agitam hoje a civilização europeia continuam a ser “Social and Cultural Dynamics” e “The Crisis of Our Age”. Neste período de ressaca, de abandono e de queda que conhece o Ocidente dos nossos dias, parece importante reler a exposição das ideias poderosas contidas nessas obras brilhantíssimas.

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