Sobre
a obra de Pitirim Sorokin
por James Thornton (tradução de Manuel Azinhal)
O filósofo
tradicionalista, sociólogo e historiador Pitirim
Alexandrovitch Sorokin nasceu no norte da Rússia, três
decénios antes do eclodir da revolução
bolchevique. Estudou principalmente na Universidade de São
Petersburgo, onde recebeu o título de doutor em sociologia em
1922. Enquanto os acontecimentos da revolução viviam o
seu apogeu, e durante a guerra civil que se seguiu, opôs-se aos
comunistas e envolveu-se em diversas actividades
contra-revolucionárias, o que conduziu à sua prisão
e à sua condenação à morte por um
tribunal vermelho.
A condenação
à morte de Sorokin foi anulada por Lenine que, especulam
alguns, queria mostrar-se magnânimo. Lenine, efectivamente,
escreveu um artigo no “Pravda” para se vangloriar de ter salvo a
vida do jovem intelectual. Sorokin, porém, não deixou
de criticar abertamente o regime, o que levou ao seu exílio.
Depois de breve estada em Praga, no fim do ano de 1923, partiu para a
América onde lhe foi oferecido um lugar de professor na
Universidade do Minnesota. Feito cidadão americano em 1930,
aceitou no mesmo ano o convite para se tornar o primeiro professor e
presidente do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard.
Aí continuará até à sua morte, em 1968.
A filosofia da história
de Sorokin revela-se pela a primeira vez, de forma completa, na sua
maior obra, “Social and Cultural Dynamics”, de que foram
publicados três volumes em 1937 e o quarto e último
apenas em 1941. Esta obra enorme representa um trabalho de dez anos e
conta mais de três mil páginas. Sorokin recapitulou
depois inteiramente a sua visão do mundo em 1941 numa série
de conferências no Lowell Institute do Massachusetts mais tarde
publicadas em livro com o título “The Crisis of our Age”.
O modelo histórico
sugerido por Sorokin não é tão sombrio como os
que foram sugeridos por outros teóricos do século XX,
nomeadamente, o mais conhecido deles, Oswald Spengler. Sorokin
rejeita a noção dos “ciclos de vida orgânicos”
das culturas; para ele, estas não passam por estados
sucessivos. “A minha tese tem pouco em comum com as teorias afinal
tão antigas do ciclo vital das culturas e das sociedades, com
os estados da infância, da maturidade, da senilidade e do
declínio”, escrevia ele. “Podemos deixá-los aos
sábios da antiguidade e aos seus epígonos modernos”.
No entanto Sorokin
rejeita da mesma forma nítida as ideias veiculadas pelos
optimistas inveterados que acreditam na melhoria das condições
de vida da humanidade, ou, por outras palavras, no “progresso”, o
qual estaria automaticamente garantido para o futuro imediato, como
para o longo prazo. Sorokin tinha palavras trocistas para descrever o
tipo de sociedade desejada pelos progressistas: “cloud-cuckoo land
of the after-dinner imagination” (ou seja, “sonhos nebulosos da
imaginação após o jantar”, sem que se
transmita inteiramente o sabor da expressão inglesa
“cloud-cuckoo land”). Prosseguia dizendo que essa ideologia
“tinha sido criada, na sua forma específica e actual,
durante a segunda metade do século XIX”, sendo “uma
daquelas bolas de sabão com que a Europa vitoriana, satisfeita
de si mesma, gostava de divertir-se”. Para Sorokin, o futuro a
longo prazo encerra imensas esperanças. A dificuldade, para os
que vivem no nosso tempo, é enfrentar o curto prazo, como
iremos ver.
Em “Social and
Cultural Dynamics”, Sorokin escreveu que as culturas civilizadas
não entram por elas mesmas em declínio mas antes
oscilam entre diversas fases culturais. A primeira destas é,
segundo ele, a fase “ideacional”. A segunda é a fase
“sensorial”. A terceira fase é uma mistura equilibrada das
duas primeiras, que Sorokin denomina “idealística” ou
“mista”. Estas fases duram algumas centenas de anos, período
durante o qual uma perspectiva cultural única e totalmente
integrada, ou um “super-sistema” para usar o vocabulário
de Sorokin, chega a dominar as artes, a literatura, a música,
a filosofia, a religião, as ciências, o modo de governo,
etc. É preciso compreender que no sistema de Sorokin as formas
ideacionais e sensoriais da cultura estão em oposição
radical uma com a outra.
A fase ideacional tem
um exemplo paradigmático no tipo de cultura que se encontrava
na Europa ocidental na Idade Média ou no Império
bizantino, mais ou menos entre o reinado de Teodósio o Grande
e a conquista turca de 1453, ou ainda na Rússia anterior a
Pedro o Grande. Esta fase caracteriza-se por uma visão da
realidade que coloca em primeiro lugar as verdades espirituais. Isso
não significa obviamente que os homens que vivem numa época
dominada por uma cultura ideacional se desinteressem totalmente das
coisas materiais, que não comprem nem vendam nem acumulem
riqueza. Sorokin quer dizer, mais simplesmente, que a maior parte dos
homens, numa tal sociedade, tomam a realidade espiritual como a
preocupação dominante da sua existência. Sorokin
escreve que a maioria dos homens, nestas fases, não fogem
necessariamente do mundo, “mas esforçam-se para o conduzir a
Deus”, quer dizer, em transformar o mundo e o reformar de acordo
com os valores ideacionais ou espirituais. A cultura ideacional é
fortemente ascética, tanto como espiritualizada, o que implica
que o seu modo de pensar “facilita o domínio do homem sobre
si mesmo”.
A segunda fase é
a qualificada de “sensorial”, sendo esta a fase que atravessa a
civilização europeia nos cinco ou seis últimos
séculos, segundo Sorokin. Contrastando com a cultura
ideacional, a cultura “sensorial” toma a realização
das necessidades físicas como a finalidade da existência.
Para utilizar os termos de Sorokin, este tipo de cultura não
“vê a realidade senão pelo que nela se apresenta aos
órgãos dos sentidos; este tipo de cultura não
procura nenhuma realidade “supra-sensorial”, ou seja espiritual,
e não acredita em nenhuma realidade desta natureza”. Por
consequência, do ponto de vista de toda a cultura “sensorial”,
“a verdade ou a fé cristã, a revelação
e Deus – na realidade toda a religião e movimentos cristãos
– não podem aparecer como outra coisa senão absurdos
e superstições”. No decurso de uma era “sensorial”,
mesmo as personalidades que têm crenças espirituais
procuram adaptar os deveres induzidos pela espiritualidade às
suas necessidades e desejos materiais, e não o contrário.
Enquanto uma cultura de tipo ideacional se esforça por ajudar
o homem a controlar-se, como já se disse, “a mentalidade
sensorial leva ao domínio do homem sobre o mundo exterior”,
ou pelo menos tenta realizar esse género de programa.
Mostra-se claramente,
assim, que a fase “sensorial” abre uma era onde o materialismo e
o mercantilismo são triunfantes. Mais ainda, enquanto a
sociedade ideacional é intrinsecamente conservadora e favorece
a permanência, procurando estabelecer um sistema de valores
imutável e absoluto, qualquer sociedade sensorial se compraz
em proceder a mudanças constantes. O seu sistema de valores
tende a ser utilitário, como é próprio de uma
sociedade submetida a fluxos constantes. Resumindo a distinção
entre as formas ideacionais e sensoriais da cultura, Sorokin observa
que o homem inserido numa cultura ideacional “espiritualiza o que
lhe é exterior, mesmo o mundo inorgânico” enquanto o
homem inserido numa cultura sensorial vai inevitavelmente “mecanizar
e materializar tudo, até o seu próprio eu espiritual e
imaterial”.
Aproximando-se o fim da
era sensorial, segundo a teoria enunciada por Sorokin, a civilização
entrou num período de transição, no qual tudo o
que representa a cultura sensorial entra num estado avançado
de decadência. Sorokin escreve que nós estamos situados
entre duas grandes épocas: “( …) entre a cultura sensorial
do nosso magnífico passado que morre e a cultura ideacional a
surgir de um futuro criador. Nós vivemos, pensamos e agimos no
fim de uma brilhante era sensorial que durou seiscentos anos. Os
raios oblíquos do sol continuam a iluminar a glória de
uma época que passa, mas as luzes desvanecem-se e, nas sombras
que crescem, é cada vez mais difícil ver claro e
orientar-nos, porque estamos mergulhados nas confusões do
crepúsculo. A noite do período de transição
avança, iminente, perante nós e perante as gerações
que surgem (…)”.
Sorokin adianta o
raciocínio seguinte: a sociedade moderna está numa fase
de transição, situando-se entre o fim de uma época
e o começo de outra, enquanto os fundamentos e as estruturas
do nosso sistema cultural de valores entram em decomposição.
As pessoas não estão já convencidas, observa
ele, que os amanhãs serão “maiores e melhores”; as
pessoas não acreditam mais na “marcha do progresso” que
não parará nunca e nos trará a paz, a segurança
e a prosperidade. A sociedade “sensorial” desintegra-se e os
sintomas dessa deliquescência são inúmeros.
O espírito que
se desprende da arte, da música e da literatura
contemporâneas, escreve Sorokin, “concentra-se sobre as
morgues das centrais de polícia, sobre as proezas dos
criminosos, sobre os órgãos sexuais, e interessa-se
principalmente por tudo o que releva das fossas e esgotos da
sociedade”, porque não há mais ideais vivos para o
inspirar. Os princípios da ética e do direito
afundam-se sob os nossos olhos, lançando numa terrível
confusão mental e moral os homens de governo e os julgadores,
tal como enormes massas humanas, todos perdendo a capacidade de
distinguir claramente entre o bem e o mal, entre as coisas que
reforçam os laços que mantêm a sociedade em
harmonia e segurança e, por outro lado, as coisas que
contribuem para a sua dissolução. Enquanto a
criminalidade atinge patamares inauditos, os tribunais estão
cada vez mais obcecados com os chamados direitos dos criminosos e dos
psicopatas, enquanto que os direitos dos cidadãos comuns,
obedientes às leis, são tratados com desprezo e
calcados aos pés. Pior: a humanidade e a especificidade humana
são negadas. Em lugar de se posicionar como uma criatura
criada à imagem e à semelhança de Deus, passa a
definir-se o homem, comenta Sorokin, como “um organismo animal, um
conjunto de reflexos mecânicos, uma variável nas
relações estímulo/resposta, ou, para a
psicanálise, como um saco cheio de líbido fisiológico”.
Naturalmente, numa
sociedade onde tudo vai e vem e onde nada é estável nem
sólido, as crises acumulam-se, atingindo tudo e todos. “Vamos
então admirar-nos, diz Sorokin, que, mesmo que muitos não
compreendam nitidamente o que se passa, tenham pelo menos um vago
sentimento que a questão não reside simplesmente na
“prosperidade” ou na “democracia”, ou noutro conceito
idêntico, mas em qualquer coisa que envolve “o conjunto da
cultura sensorial contemporânea, da sociedade que ela gera e
dos homens que ela determina? Se esta massa humana não
compreende as implicações pela análise
intelectual, ela apercebe-se, com acuidade, que se encontra
dolorosamente presa nas grilhetas que constituem as vicissitudes do
nosso tempo, sejam os homens reis ou operários”.
Sorokin era um homem de
inteligência extrema e complexa, uma personalidade
independente. Embora não se possa classificá-lo como um
“homem de direita” no sentido habitual da expressão,
porque nem todas as posições que assumiu correspondem a
essa etiqueta, não se pode porém negar o seu
conservadorismo intrínseco em inúmeros temas,
nomeadamente nas questões sociais. Entre outros pontos, era
evidentemente um adversário feroz do comunismo; desconfiava de
todas as ideologias (que considerava como esquematizações
sobranceiras ou mutilações mentais dignas das
infligidas num leito de Procusto); estava aterrado constatando a
putrefacção moral que via expandir-se tão
rapidamente na sociedade.
Não será
surpresa verificar que Sorokin, em tempos apontado como o sociólogo
mais publicado no mundo, tenha sido lançado no esquecimento
desde os anos 60. Desde logo, como notou o teólogo conservador
Harold O. J. Brown, o tradicionalismo social muito marcado de Sorokin
provoca o anátema, actualmente, nas fileiras do situacionismo
contemporâneo. Brown escreve que Sorokin “está
realmente esquecido na grande universidade onde passou as quatro
últimas décadas da sua vida; sem dúvida porque
ele colocava o acento tónico sobre os valores e desprezava a
corrupção; hoje em dia, tais atitudes passaram de moda
em política e não têm mais espaço nesses
lugares”.
Para mais, a visão
que Sorokin cultivava sobre o fim que a sociologia devia prosseguir
era tradicionalista, o que é altamente suspeito nos nossos
dias. Russell Kirk escreveu, há alguns anos, que “os
behavioristas mais típicos rejeitam as convicções
éticas de Sorokin (convicções baseadas na Regra
de Ouro) e negam a existência de valores e de normas
permanentes”. O próprio Sorokin estava consternado por ver a
sua obra assim rejeitada; amargo, advertia a comunidade dos seus
pares que tais posições não podiam senão
conduzir a sociologia para impasses: “Apesar da admiração
narcísica que votamos a nós mesmos, apesar das energias
e dos meios enormes que se gastam em pesquisas estatísticas e
pseudo-matemáticas, as realizações da sociologia
moderna permanecem singularmente modestas; de forma inesperada, ela
manteve-se estéril e as suas deduções falsas são
particularmente abundantes”.
Algumas
das obras de Sorokin continuam a ser editadas, e estão
disponíveis junto das editoras americanas. As mais importantes
e pertinentes para compreender as crises que agitam hoje a
civilização europeia continuam a ser “Social and
Cultural Dynamics” e “The Crisis of Our Age”. Neste período
de ressaca, de abandono e de queda que conhece o Ocidente dos nossos
dias, parece importante reler a exposição das ideias
poderosas contidas nessas obras brilhantíssimas. |