Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Restauração revisitada, por Mário Casa-Nova Martins
Tradição e Modernidade

por Isabel de Almeida e Brito

Tradição e modernidade são como dois propulsores para a nossa consciência de protagonistas adultos. A uma pessoa adulta, a vida grita por um contributo pessoal: filhos a crescerem, pais a envelhecerem, responsabilidades profissionais agudas… Multiplicam-se as ocasiões em que a nossa inteligência e experiência, a nossa energia e criatividade são convocadas, não já para mero desenvolvimento da nossa personalidade, mas para o serviço dos outros, para o bem de todos. A consciência que temos de nós próprios e das circunstâncias pede uma consistência pessoal. A vida exige um juízo verdadeiro sobre cada coisa na qual embatemos. Como obtê-lo?

Como o comandante na proa da caravela a perscrutar «mares nunca dantes navegados», com a responsabilidade de todo o navio cheio de homens e de todas as famílias deixadas para trás e de todo o povo e do seu rei perante quem responde, nós precisamos de uma força que nos anime a prosseguir, um vento vindo das nossas costas, do nosso passado, e de uma força que nos atraia para a frente, para lá do nosso actual limite.

A força que nos impele precisa de ser forte e densa, tão forte e densa que realmente nos seja útil, que cheguemos a chamá-la nossa. Para que isso aconteça, temos de nos aperceber de quem somos, no âmago da experiência que temos de nós próprios: no nosso âmago somos desejo de significado, de verdade, de beleza, de justiça, desejo de sermos felizes. Onde encontramos uma hipótese de significado, aí encontramos a nossa tradição. A tradição é-nos passada como uma proposta de sentido para tudo o que vivemos, uma proposta que revela a verdade, a beleza, a justiça com tal potência que nos faz capazes de identificar a correspondência entre os desejos mais fundos do nosso coração e as circunstâncias que vivemos. A tradição é assim uma hipótese de significado para a vida que chega a nós verificada como verdadeira por muitas pessoas antes de nós. A tradição não se reduz a um código de conduta transmitido e imitado mecanicamente: talvez a esta redução se possa chamar «tradicionalismo» A tradição é um vento forte que sopra do passado com o conteúdo da nossa esperança e o ânimo da vida plena de outros. Embate em nós, normalmente através do ensino e do testemunho de quem nos ama, por vezes como uma luz que nos encanta, sossega e alegra; outras vezes embatemos nós nela com o estertor das ondas contra as rochas, causando-nos feridas fundas conforme a violência do embate. Provoca-nos sempre a uma mudança de consciência e por isso de atitudes, põe em acto a nossa liberdade e, quando finalmente a chamamos nossa, tornamo-nos verdadeiramente adultos. Até isso acontecer a nossa personalidade ainda não tem verdadeiras ligações à humanidade e por isso carece sempre de alguma potência, como uma planta que se colheu e está ainda dentro de um copo de água a ganhar raízes; o verdadeiro teste à sua potência vital é o momento em que, posta na terra, agarra ou não, pega ou não. De facto, a opção de não pertencer a nenhuma tradição, embora possível para qualquer pessoa na idade adulta, causa uma carência de relação com os seus próximos que diminui necessariamente a vitalidade dos seus contributos para todos. Fazer sua uma tradição – naturalmente aquela em que cada um faz experiência da verdade – é uma condição para a verdadeira originalidade humana de cada pessoa, uma vez que ser humano é sempre ser em relação com outros. Desperdiçar a experiência de outros antes de mim parece irrazoável, uma vez que o nosso coração, no seu âmago, parece manter-se ardente de desejos comuns a todos os homens ao longo de toda a História.

É esta mesma característica de relação que nos provoca a sermos modernos, no sentido de nos identificarmos com o que é actual. Consideramos actual aquilo que em cada época a caracteriza especialmente, distinguindo-a de tudo o que tinha acontecido até aí. O que é novo atrai-nos, fascina-nos, ainda antes de decidirmos aderir ou não. Há em nós um irreprimível desejo de criar que cada coisa nova confirma: que se possa usar uma tecnologia recém-inventada, um remédio que não existia antes, um pigmento que nenhum pintor jamais tinha usado, uma roupa nunca antes vista, que se possa construir uma coisa que antes não havia, causa em nós o entusiasmo da criação, gravado no nosso adn, para utilizar uma expressão moderna…. Este entusiasmo faz vibrar a percepção que temos de sermos únicos e irrepetíveis e de a nossa originalidade poder ser construtiva. A modernidade, entendida como a positividade nova da nossa época, confirma a possibilidade de melhorarmos, abre uma confiança que nos é vital. Se outros criam, também nós podemos criar. Se a vida de outros se cumpre e os seus frutos são por nós saboreados, também nós podemos contribuir, dar de nós, servir. O desejo de criar é acompanhado pelo desejo de sermos irmãos, de experimentarmos a comunhão com os que vivem ao mesmo tempo que nós. Descobrimo-nos, paradoxalmente, criadores e impotentes. Construtores e carentes. A amizade traz-nos a doçura da reciprocidade e vence a estranheza que nos paralisa. Ora a amizade supõe partilha e não mera cumplicidade. Vivermos segundo os cânones da nossa época é uma das formas de nos abrirmos aos nossos semelhantes e de trocarmos com eles as nossas descobertas. É uma modalidade de diálogo e uma maneira inteligente de fazer face aos desafios. É certo que esta abertura pode facilmente tornar-se submissão estéril, como também a degeneração do seguidismo pode acontecer quanto à mais verdadeira das tradições.

O nosso coração só não se torna escravo do novo – fazendo-nos fantoches fúteis da última moda – ou do antigo – como pavões cobertos do mofo de uma ideologia velha – se mantivermos despertos os desejos últimos.

O critério para distinguirmos aquilo com que vale a pena identificarmo-nos é o mesmo sempre, quer se trate de aderir a uma tradição, quer se trate de nos entusiasmarmos com uma novidade: é preciso procurar uma resposta aos nossos anseios mais fundos, realizando a nossa humanidade.

Assim nos tornamos úteis sendo felizes, olhando para diante com a esperança do passado e a certeza presente. Desta certeza sempre em verificação nasce a possibilidade de fazer um juízo sobre todas as coisas, seguindo S. Paulo que nos aconselhou: «avaliai todas as coisas e guardai o que é bom». Praticando este juízo descobrimo-nos irmanados com todos os homens pela origem.

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