Tradição
e Modernidade
por Isabel de Almeida e Brito
Tradição
e modernidade são como dois propulsores para a nossa
consciência de protagonistas adultos. A uma pessoa adulta, a
vida grita por um contributo pessoal: filhos a crescerem, pais a
envelhecerem, responsabilidades profissionais agudas…
Multiplicam-se as ocasiões em que a nossa inteligência e
experiência, a nossa energia e criatividade são
convocadas, não já para mero desenvolvimento da nossa
personalidade, mas para o serviço dos outros, para o bem de
todos. A consciência que temos de nós próprios e
das circunstâncias pede uma consistência pessoal. A vida
exige um juízo verdadeiro sobre cada coisa na qual embatemos.
Como obtê-lo?
Como o
comandante na proa da caravela a perscrutar «mares nunca dantes
navegados», com a responsabilidade de todo o navio cheio de
homens e de todas as famílias deixadas para trás e de
todo o povo e do seu rei perante quem responde, nós precisamos
de uma força que nos anime a prosseguir, um vento vindo das
nossas costas, do nosso passado, e de uma força que nos atraia
para a frente, para lá do nosso actual limite.
A força
que nos impele precisa de ser forte e densa, tão forte e densa
que realmente nos seja útil, que cheguemos a chamá-la
nossa. Para que isso aconteça, temos de nos aperceber de quem
somos, no âmago da experiência que temos de nós
próprios: no nosso âmago somos desejo de significado, de
verdade, de beleza, de justiça, desejo de sermos felizes. Onde
encontramos uma hipótese de significado, aí encontramos
a nossa tradição. A tradição é-nos
passada como uma proposta de sentido para tudo o que vivemos, uma
proposta que revela a verdade, a beleza, a justiça com tal
potência que nos faz capazes de identificar a correspondência
entre os desejos mais fundos do nosso coração e as
circunstâncias que vivemos. A tradição é
assim uma hipótese de significado para a vida que chega a nós
verificada como verdadeira por muitas pessoas antes de nós. A
tradição não se reduz a um código de
conduta transmitido e imitado mecanicamente: talvez a esta redução
se possa chamar «tradicionalismo» A tradição
é um vento forte que sopra do passado com o conteúdo da
nossa esperança e o ânimo da vida plena de outros.
Embate em nós, normalmente através do ensino e do
testemunho de quem nos ama, por vezes como uma luz que nos encanta,
sossega e alegra; outras vezes embatemos nós nela com o
estertor das ondas contra as rochas, causando-nos feridas fundas
conforme a violência do embate. Provoca-nos sempre a uma
mudança de consciência e por isso de atitudes, põe
em acto a nossa liberdade e, quando finalmente a chamamos nossa,
tornamo-nos verdadeiramente adultos. Até isso acontecer a
nossa personalidade ainda não tem verdadeiras ligações
à humanidade e por isso carece sempre de alguma potência,
como uma planta que se colheu e está ainda dentro de um copo
de água a ganhar raízes; o verdadeiro teste à
sua potência vital é o momento em que, posta na terra,
agarra ou não, pega ou não. De facto, a opção
de não pertencer a nenhuma tradição, embora
possível para qualquer pessoa na idade adulta, causa uma
carência de relação com os seus próximos
que diminui necessariamente a vitalidade dos seus contributos para
todos. Fazer sua uma tradição – naturalmente aquela
em que cada um faz experiência da verdade – é uma
condição para a verdadeira originalidade humana de cada
pessoa, uma vez que ser humano é sempre ser em relação
com outros. Desperdiçar a experiência de outros antes de
mim parece irrazoável, uma vez que o nosso coração,
no seu âmago, parece manter-se ardente de desejos comuns a
todos os homens ao longo de toda a História.
É
esta mesma característica de relação que nos
provoca a sermos modernos, no sentido de nos identificarmos com o que
é actual. Consideramos actual aquilo que em cada época
a caracteriza especialmente, distinguindo-a de tudo o que tinha
acontecido até aí. O que é novo atrai-nos,
fascina-nos, ainda antes de decidirmos aderir ou não. Há
em nós um irreprimível desejo de criar que cada coisa
nova confirma: que se possa usar uma tecnologia recém-inventada,
um remédio que não existia antes, um pigmento que
nenhum pintor jamais tinha usado, uma roupa nunca antes vista, que se
possa construir uma coisa que antes não havia, causa em nós
o entusiasmo da criação, gravado no nosso adn, para
utilizar uma expressão moderna…. Este entusiasmo faz vibrar
a percepção que temos de sermos únicos e
irrepetíveis e de a nossa originalidade poder ser construtiva.
A modernidade, entendida como a positividade nova da nossa época,
confirma a possibilidade de melhorarmos, abre uma confiança
que nos é vital. Se outros criam, também nós
podemos criar. Se a vida de outros se cumpre e os seus frutos são
por nós saboreados, também nós podemos
contribuir, dar de nós, servir. O desejo de criar é
acompanhado pelo desejo de sermos irmãos, de experimentarmos a
comunhão com os que vivem ao mesmo tempo que nós.
Descobrimo-nos, paradoxalmente, criadores e impotentes. Construtores
e carentes. A amizade traz-nos a doçura da reciprocidade e
vence a estranheza que nos paralisa. Ora a amizade supõe
partilha e não mera cumplicidade. Vivermos segundo os cânones
da nossa época é uma das formas de nos abrirmos aos
nossos semelhantes e de trocarmos com eles as nossas descobertas. É
uma modalidade de diálogo e uma maneira inteligente de fazer
face aos desafios. É certo que esta abertura pode facilmente
tornar-se submissão estéril, como também a
degeneração do seguidismo pode acontecer quanto à
mais verdadeira das tradições.
O nosso
coração só não se torna escravo do novo –
fazendo-nos fantoches fúteis da última moda – ou do
antigo – como pavões cobertos do mofo de uma ideologia velha
– se mantivermos despertos os desejos últimos.
O
critério para distinguirmos aquilo com que vale a pena
identificarmo-nos é o mesmo sempre, quer se trate de aderir a
uma tradição, quer se trate de nos entusiasmarmos com
uma novidade: é preciso procurar uma resposta aos nossos
anseios mais fundos, realizando a nossa humanidade.
Assim nos
tornamos úteis sendo felizes, olhando para diante com a
esperança do passado e a certeza presente. Desta certeza
sempre em verificação nasce a possibilidade de fazer um
juízo sobre todas as coisas, seguindo S. Paulo que nos
aconselhou: «avaliai todas as coisas e guardai o que é
bom». Praticando este juízo descobrimo-nos irmanados com
todos os homens pela origem.
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