Ano II - Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007
Alameda Digital
Restauração revisitada, por Mário Casa-Nova Martins
Tradição e Tradições – Conservar ou Fundamentar?

por Jorge Azevedo Correia

No Livro I da República de Platão, Sócrates confronta a perspectiva tradicional de Justiça, defendida pelo ancião Céfalo, em que este último defende uma moral fundada num conjunto de pressupostos que fazem parte da sua cultura e que se consubstanciam em práticas de legalidade e de defesa da sociedade (dizer a verdade, pagar as dívidas). Se Céfalo defende uma compreensão cultural que protege a sociedade, Platão, pela voz do seu mentor, esforça-se para a fundamentar e para estabelecer uma compreensão mais profunda e ampla que se consubstancia no Bem aplicável à comunidade, a Justiça.

Esta tensão entre a justiça como defesa da sociedade e a sociedade como defesa da justiça, manteve-se decisiva entre aquelas formas de pensamento que se recusam a deixar que a comunidade recaia nas premissas dos que a afirmam como mera contractualidade ou súmula de vontades individuais.

De um lado temos uma concepção da conservação dos elementos que possibilitam a vida comunitária (uma defesa da propriedade, da ordem estabelecida, das instituições que permitem essa própria ordenação), do outro temos uma ordenação da estrutura das coisas, uma Ideia do Bem, que ordena os assuntos humanos e a vida em comum. Estas duas compreensões fundamentais correspondem a uma preocupação essencial do pensamento político nos nossos dias e que se condensa no diálogo entre a perspectiva tradicionalista de Edmund Burke e a reflexão sobre a Modernidade de Alexis de Tocqueville.

Edmund Burke, apoiado numa concepção clássica do Homem e fazendo apelo a uma concepção de Bem assente nas premissas da Civilização Cristã, denunciou a Modernidade como a tentativa de destruir os fundamentos da Justiça e criar uma sociedade em que o Bem e o Mal se encontram nos desejos dos indivíduos. Onde o limite da comunidade se encontra nos indivíduos e não em normas mais elevadas e inacessíveis aos desejos dos membros, rapidamente degenera em tirania dos mais fortes ou das maiorias. Segundo esta concepção nem toda a ordem política é Ordem, mas nem toda a tradição é Tradição, pois o que interessa preservar na sociedade não são as tradições “em si”, mas aquela Tradição que permite distinguir o que é lícito e ilícito e qual é o lugar dos homens e das instituições na estrutura das coisas. É evidente que nesta Tradição se encontra um enorme número de tradições, de diálogos comunitários próprios que em nada conflituam com a existência de uma Justiça maior, segundo a qual a comunidade se ordena.

Por outro lado temos o pensamento de Alexis de Tocqueville, que aceita como “facto” a emergência da Modernidade e a impossibilidade de restauração da Sociedade Cristã. A política e a acção do “homem-de-estado” passam por manter a sociedade funcional, por conservar as insitutições que mantêm o pagamento das dívidas e algum respeito pela verdade, pela conservação dos consensos sociais, quaisquer que estes sejam. É a Política quem passa a dominar a ordem das coisas, quem passa a possuir o domínio sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é a alma humana e a forma como esta se deve ordenar. Tocqueville alerta, também, para um problema aparentemente insolúvel da sociedade moderna. Onde ao espírito religioso é permitido existir, a sociedade floresce e a sociedade mantém-se relativamente bem ordenada, com respeito pela vida privada e pelos acordos e contratos assumidos. A alternativa é o socialismo e todos os seus crimes, uma sociedade em que a propriedade e a vida de alguém se encontra à mercê dos desejos de outrém.

A questão central reside, porém, em saber, se poderão elementos não-modernos sobreviver numa sociedade moderna... Poderá a religiosidade sobreviver a uma sociedade que não encontra limites que não estejam em si própria?

Se, como parece certo, a Modernidade é a rearrumação do Universo segundo a Vontade do Homem, torna-se evidente que a concorrência pelo que determina a “ordem-das-coisas”, o Real ou o Homem. Basta observar que onde a Modernidade floresceu, a Religião foi sempre subordinada. Desde a influência dos parlamentos nas doutrinas religiosas, das apropriações das Igrejas pelo Estado, da nacionalização das religiões, a divinização das lideranças políticas, do reescrever de textos religiosos depurados da sua matéria discriminatória, tudo faz parte dessa tentação irresistível de subordinar a realidade aos desejos do Homem, em que consiste a essência da Modernidade.

É cada vez mais necessário o “separar de águas” entre estas duas formas de pensar a política, que tem conduzido a que o pensamento sobre as tradições se tenha degradado a ponto de ser considerado uma “persuasão” ou uma “retórica”. A sua verdadeira refundação passa por transcender as tradições e os elementos de superficialidade que se desejam conservar, para que se preserve a Fonte do certo e do errado, os limites máximos de tolerância ao erro, aceitando-a como seu próprio fundamento. Só a Raíz pode sustentar...

A única revolução para o nosso tempo é a destruição do dogma da inexistência de dogmas. O resto é mero colaboracionismo...

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