Tradição
e Tradições – Conservar ou Fundamentar?
por Jorge Azevedo
Correia
No Livro I da República
de Platão, Sócrates confronta a perspectiva tradicional
de Justiça, defendida pelo ancião Céfalo, em que
este último defende uma moral fundada num conjunto de
pressupostos que fazem parte da sua cultura e que se consubstanciam
em práticas de legalidade e de defesa da sociedade (dizer a
verdade, pagar as dívidas). Se Céfalo defende uma
compreensão cultural que protege a sociedade, Platão,
pela voz do seu mentor, esforça-se para a fundamentar e para
estabelecer uma compreensão mais profunda e ampla que se
consubstancia no Bem aplicável à comunidade, a Justiça.
Esta tensão
entre a justiça como defesa da sociedade e a sociedade como
defesa da justiça, manteve-se decisiva entre aquelas formas de
pensamento que se recusam a deixar que a comunidade recaia nas
premissas dos que a afirmam como mera contractualidade ou súmula
de vontades individuais.
De um lado temos uma
concepção da conservação dos elementos
que possibilitam a vida comunitária (uma defesa da
propriedade, da ordem estabelecida, das instituições
que permitem essa própria ordenação), do outro
temos uma ordenação da estrutura das coisas, uma Ideia
do Bem, que ordena os assuntos humanos e a vida em comum. Estas duas
compreensões fundamentais correspondem a uma preocupação
essencial do pensamento político nos nossos dias e que se
condensa no diálogo entre a perspectiva tradicionalista de
Edmund Burke e a reflexão sobre a Modernidade de Alexis de
Tocqueville.
Edmund Burke, apoiado
numa concepção clássica do Homem e fazendo apelo
a uma concepção de Bem assente nas premissas da
Civilização Cristã, denunciou a Modernidade como
a tentativa de destruir os fundamentos da Justiça e criar uma
sociedade em que o Bem e o Mal se encontram nos desejos dos
indivíduos. Onde o limite da comunidade se encontra nos
indivíduos e não em normas mais elevadas e inacessíveis
aos desejos dos membros, rapidamente degenera em tirania dos mais
fortes ou das maiorias. Segundo esta concepção nem toda
a ordem política é Ordem, mas nem toda a tradição
é Tradição, pois o que interessa preservar na
sociedade não são as tradições “em si”,
mas aquela Tradição que permite distinguir o que é
lícito e ilícito e qual é o lugar dos homens e
das instituições na estrutura das coisas. É
evidente que nesta Tradição se encontra um enorme
número de tradições, de diálogos
comunitários próprios que em nada conflituam com a
existência de uma Justiça maior, segundo a qual a
comunidade se ordena.
Por outro lado temos o
pensamento de Alexis de Tocqueville, que aceita como “facto” a
emergência da Modernidade e a impossibilidade de restauração
da Sociedade Cristã. A política e a acção
do “homem-de-estado” passam por manter a sociedade funcional, por
conservar as insitutições que mantêm o pagamento
das dívidas e algum respeito pela verdade, pela conservação
dos consensos sociais, quaisquer que estes sejam. É a Política
quem passa a dominar a ordem das coisas, quem passa a possuir o
domínio sobre o que é certo e o que é errado,
sobre o que é a alma humana e a forma como esta se deve
ordenar. Tocqueville alerta, também, para um problema
aparentemente insolúvel da sociedade moderna. Onde ao espírito
religioso é permitido existir, a sociedade floresce e a
sociedade mantém-se relativamente bem ordenada, com respeito
pela vida privada e pelos acordos e contratos assumidos. A
alternativa é o socialismo e todos os seus crimes, uma
sociedade em que a propriedade e a vida de alguém se encontra
à mercê dos desejos de outrém.
A questão
central reside, porém, em saber, se poderão elementos
não-modernos sobreviver numa sociedade moderna... Poderá
a religiosidade sobreviver a uma sociedade que não encontra
limites que não estejam em si própria?
Se, como parece certo,
a Modernidade é a rearrumação do Universo
segundo a Vontade do Homem, torna-se evidente que a concorrência
pelo que determina a “ordem-das-coisas”, o Real ou o Homem. Basta
observar que onde a Modernidade floresceu, a Religião foi
sempre subordinada. Desde a influência dos parlamentos nas
doutrinas religiosas, das apropriações das Igrejas pelo
Estado, da nacionalização das religiões, a
divinização das lideranças políticas, do
reescrever de textos religiosos depurados da sua matéria
discriminatória, tudo faz parte dessa tentação
irresistível de subordinar a realidade aos desejos do Homem,
em que consiste a essência da Modernidade.
É cada vez mais
necessário o “separar de águas” entre estas duas
formas de pensar a política, que tem conduzido a que o
pensamento sobre as tradições se tenha degradado a
ponto de ser considerado uma “persuasão” ou uma
“retórica”. A sua verdadeira refundação
passa por transcender as tradições e os elementos de
superficialidade que se desejam conservar, para que se preserve a
Fonte do certo e do errado, os limites máximos de tolerância
ao erro, aceitando-a como seu próprio fundamento. Só a
Raíz pode sustentar...
A única
revolução para o nosso tempo é a destruição
do dogma da inexistência de dogmas. O resto é mero
colaboracionismo... |