A Mitologia do Aquecimento Global
por Rui G. Moura
Os conceitos de aquecimento global e de alterações climáticas são baseados na teoria do efeito de estufa antropogénico. São apenas hipóteses saídas de modelos informáticos, mas, nem por isso, deixam de conhecer grande voga como o demonstra o recente filme de Al Gore, cujas teses são apresentadas como o consenso da comunidade científica na matéria. Aqueles modelos incorporam relações simplistas que não correspondem ao mundo real. Anuncia-se um crescimento monótono de temperaturas a nível global até 2010. O que serve de pretexto para misturar o efeito de estufa com as grandes secas, cheias com furacões, a fome com as vagas de calor, o degelo dos glaciares com as pandemias para criar cenários apocalípticos. Mas nada disto está cientificamente demonstrado.
Seguramente, o ano de 1976 teve um desvio climático brusco (que os modelos não previram). Traduziu-se num aumento da violência e da irregularidade do tempo. Este shift climático foi devido a uma modificação do modo rápido de circulação geral. O nosso planeta funciona tal como uma máquina térmica com duas fontes frias e uma fonte quente. As trocas de energia são permanentes e dão-se através de massas de ar da troposfera e de água dos oceanos. As massas de ar são predominantes. O ar frio que sai dos pólos em direcção à zona intertropical e provoca um desvio de ar quente em direcção aos pólos. No Inverno de cada hemisfério, as massas de ar frio têm uma frequência diária de saída e uma intensidade superiores às do Verão. Por isso se designa de modo rápido a circulação geral no Inverno. No Verão, a circulação geral apresenta um modo lento. O shift climático de 1976 deu-se no modo rápido.
Seria fundamental determinar as causas desse desvio climático em vez de se andar a gastar tempo e dinheiro a prever as temperaturas do ano 2100. Esta tarefa de previsão a tão longo prazo é teórica e praticamente inútil. O aquecimento global é um assunto que está na moda. Em particular depois da seca do Verão de 1988, nos Estados Unidos da América. Os norte-americanos vivem angustiados pela possível repetição de um novo período prolongado de calor e de seca. Recordam-se dos acontecimentos dos anos 30 do século passado. A seca e as nuvens de poeira sucederam-se nos Grandes Planaltos. O traumatismo então vivido pela população rural (cf. As Vinhas da Ira de John Steinbeck) marcou a população americana. Esse passado explica a atenção particular que, em 1988, lhe foi imediatamente dedicada e a dramatização que se lhe seguiu. Inicialmente, era um assunto da climatologia. Mas, este tema, fortemente marcado pela emoção e pela irracionalidade, depressa evoluiu para o alarmismo ao perder o seu conteúdo científico. Actualmente já não se debate climatologia. Quase que poderia dizer que este campo da ciência se resume a falar no dióxido de carbono.
Um tema extremamente confuso
As alterações climáticas tornaram-se num tema extremamente confuso que mistura tudo:
- A poluição e o clima: o clima torna-se um álibi para resolver a poluição. A sua evolução futura é apresentada como um postulado e quem colocar dúvidas sobre o aquecimento anunciado fica catalogado como favorável à poluição!
- Os bons sentimentos e os interesses confessados: o planeta está em perigo e é necessário salvá-lo. Mas, ao mesmo tempo, discute-se os direitos de poluir através dos «direitos de emissão». Salta-se do sentimento de culpabilidade (o homem é o acusado de todos os males) para a atitude ambígua daqueles que defendem interesses de grupo.
- As suposições e as realidades: as teorias dos modelos e os mecanismos reais, o hipotético clima futuro e a evolução do tempo real. As previsões são gratuitas. Não têm valor quando os prazos são longínquos (2100!). Nos acontecimentos recentes (vagas de calor, secas, cheias), avistam-se sinais da catástrofe anunciada. Seleccionam-se as informações, ocultam-se as do frio e retém-se as do calor. Deste modo, não pode deixar de se confirmar as previsões (falaciosas) dos modelos.
- O sensacionalismo e a seriedade científica: a procura do furo jornalístico e a informação devidamente fundamentada, tudo cada vez mais confundido. Nomeadamente pelos políticos. Os media ajudam à confusão. Infelizmente, certos cientistas não melhoram a situação pelas suas declarações despropositadas.
- O debate reduz-se ao óbvio: se ele existe, inscreve-se no mito antigo do conhecimento popular acerca do tempo. Cada um tem o seu saber sobre a matéria. Fica-se muitas vezes próximo do pensamento mágico. Circunscreve-se a discussões do tipo da mesa de café. Verifica-se a confusão permanente entre clima e evolução do tempo. Alguns pretendem aureolar os modelos de um certo mistério. Apresentam-nos como máquinas de prever o tempo
Uma climatologia demasiado simplista
As alterações climáticas são um assunto de climatologia mas que é tratado, maioritariamente, por não especialistas. Nomeadamente, é apresentado pelos ambientalistas, em anexo ao tema da poluição. Hoje, alguns especialistas do clima desinteressam-se estranhamente do debate ou adoptam mesmo o dogma oficial. Existe a pretensão de repetir cegamente a cartilha do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) como se fosse uma qualificação suficiente. O discurso estereotipado e recitado de modo dogmático é sempre o mesmo.
Acontece que certos «cientistas» têm a audácia de se proclamarem como tal, propagando os resultados saídos dos modelos, através de hipóteses infundadas, mal estabelecidas e não demonstradas pelas observações. Deve-se colocar fortes reticências ao mito dos relatórios do IPCC serem preparados por «milhares de cientistas». O número anunciado ilude e esconde o sectarismo da mensagem. Os documentos provêem de uma pequena equipa dominante que impõe os seus pontos de vista a uma maioria sem competências climatológicas. O “I” de IPCC significa com efeito «intergovernamental». O que quer dizer que os pretensos cientistas são antes de tudo agentes dos governos. O IPCC, em absoluto, não é uma organização de investigação. Sabe-se agora que, durante a sua elaboração, a redacção definitiva do relatório de 1995 foi falseada. A afirmação da «influência perceptível do homem sobre o clima global» foi acrescentada depois (para impressionar os decisores). Essa afirmação não correspondia ao entendimento do conjunto dos verdadeiros especialistas do IPCC. Mas, a seguir, noutros relatórios, foi constantemente repetida apesar de um desacordo de princípio.
Os conhecimentos actuais sobre climatologia são em geral limitados. O IPCC reconhece-o quando precisa que: «A aptidão dos cientistas para fazer verificações das projecções provenientes dos modelos é bastante limitada pelos conhecimentos incompletos sobre as verdades climáticas». As explicações são sobretudo simplistas, para serem facilmente compreendidas. Elas não reflectem a verdade científica que é extremamente complexa. O conhecimento superficial e esquemático é primeiramente imposto pelas «simplificações inevitáveis transpostas para os modelos». Os modelos não podem integrar todas as componentes dos fenómenos climáticos reais. Quanto mais simplista é a mensagem (próxima do slogan, fácil de reter sem esforço), maiores são as hipóteses de ser adoptada pelos políticos e pelos media. Esse simplismo afasta desde logo a reflexão e as explicações longas e complexas, embora mais próximas da realidade.
Esta falha de qualificação explica também a fé cega atribuída a uma ciência da meteorologia idealizada por alguns. Ignora-se assim, geralmente, que a meteorologia está num verdadeiro impasse conceptual há mais de cinquenta anos. Ela não dispõe de um esquema explicativo válido da circulação geral – fenómeno este que é fundamental – apto a traduzir a realidade das trocas latitudinais de energia. Vive na ignorância dos mecanismos reais. Este impasse tem conduzido, entre outros, aos «falhanços» dos serviços de meteorologia dos EUA na previsão das trajectórias dos furacões tropicais. Por defeito de conhecimento da sua dinâmica. Será necessário sublinhar todos os falhanços das previsões do tempo em todas as partes do mundo? Os próprios meteorologistas confessam estas fraquezas fundamentais. São tão evidentes que tornam os modelos inaptos a prever o que quer que seja!
A falta de isenção perante a dúvida salutar em ciência e mesmo a falta de espírito crítico de pretensos cientistas (não qualificados) faz com que não se discuta a (má) qualidade dos modelos e das suas previsões. O debate científico é assim ocultado. Os contraditores são, na medida do possível, censurados ou mesmo desacreditados. O conhecimento é substituído pela convicção (sincera ou pela fé) do género: «Estou convencido que o aquecimento global do planeta é uma realidade», ou «há quem não acredite no aquecimento global» – profissão de fé que é a própria negação do método científico.
Seria necessário fazer um ponto da situação sem complacência. Sem concessão e aprofundado, rigorosa e unicamente centrado na climatologia. Deixe-se, pois, o estudo do clima para os climatologistas. Torna-se necessário desmascarar a pretensa ligação entre: homem → poluição → gases com efeito de estufa → aquecimento global → alterações climáticas → violência e irregularidade do tempo. O homem está inocente e a acusação que lhe fazem é uma blasfémia.
O efeito de estufa natural e o adicional
O efeito de estufa natural é uma realidade, pelo que é inútil discutir: ele produz um ganho de 33 ºC à temperatura média da superfície da Terra pelo que permite a existência de vida humana. Um efeito de estufa adicional, ou «reforçado», de origem antropogénica (proveniente do CO2 e de outros gases com efeito de estufa – GEE – devidos às actividades dos homens) seria susceptível de elevar a temperatura. Sabe-se isso desde há longa data, 1824, conforme foi pressentido pelo cientista sueco Arrenius. A questão é a de saber se o homem é capaz de influenciar, involuntariamente, o curso da evolução climática, atingindo a escala planetária, e sobretudo se, desde há um século, ele já começou a fazê-lo. Mas a verdade é que, à parte a influência demonstrada sobre o clima urbano, uma consequência à escala global pertence ao domínio da especulação.
Com efeito, o vapor de água representa 63 % do efeito de estufa e constitui assim a maior fonte de incerteza. Basta ter conhecimento que os modelos climáticos também simulam as nuvens e as precipitações. Estes fenómenos são particularmente complexos. Imagina-se o que serão as nuvens ou a precipitação em 2100? Por outro lado, a amplitude da retroacção de certos parâmetros climáticos – fenómeno crucial – permanece desconhecida.Além do mais, é necessário juntar a incerteza associada à nebulosidade. Os efeitos desta são contrários de acordo com a altitude das nuvens que tanto podem arrefecer como aquecer a superfície terrestre… E em 2100 como se comportarão as nuvens?!...
Por outro lado, o presumido aquecimento global tem uma forte componente de carácter urbano. Demonstrou-se isso, na Califórnia, ao comparar a evolução térmica das cidades com mais de um milhão de habitantes e com mais ou com menos de 100 000 habitantes. A elevação da temperatura decresce com a diminuição da importância das cidades. O aparente aquecimento global é influenciado pela perda de calor que afecta somente as superfícies urbanizadas. As estações meteorológicas, inicialmente instaladas fora das cidades foram progressivamente absorvidas pela expansão da urbanização. Os valores observados nessas estações reflectem, principalmente, a evolução climática à escala local e não global.
No entanto, este fenómeno, conhecido como ilhas de aquecimento urbano, não é o principal factor detectado nas observações dos milhares de termómetros espalhado pelo planeta que determinam o que se designa, erradamente, por temperatura média global.
As indicações dos climas do passado
Pretender que o estudo paleoclimatológico do passado possa dar uma ideia da amplitude das futuras alterações climáticas não é correcto.Esta pretensão de fundamentar a alteração climática de longo prazo, permite colocar o problema da relação entre os gases com efeito de estufa (GEE) e a temperatura. Será uma relação covariante ou é uma correlação física? Quando é que o acréscimo dos GEE é a causa, do aumento da temperatura, ou quando é que é o efeito? Que significa à escala paleoclimática (como à escala sazonal) a covariação mais ou menos estreita entre o CO2 e a temperatura?
Os cilindros da estação Vostock retirados dos gelos antárcticos parecem mostrar o paralelismo das variações de temperatura do ar e do teor atmosférico de GEE. Deduzir que o passado e o futuro são directamente comparáveis representa a astúcia ideal. Qual é com efeito o não-climatologista, e a fortiori o cidadão, que conhece a teoria de Milankovitch sobre os períodos das glaciações? A covariação geral dos parâmetros (deutério, CO2, CH4, Ca, etc. e a temperatura correspondente deduzida) no decurso de mais de 400 mil anos resulta de um “forçamento” exterior à própria Terra. São quatro ciclos principais que revelam a influência da excentricidade da órbita terrestre (ciclo de 100 000 anos), enquanto no interior de cada grande ciclo glaciário-interglaciário, as variações mais breves são conjuntamente associadas à variação da inclinação do eixo dos pólos e à precessão dos equinócios.
Estes parâmetros orbitais da radiação foram genialmente demonstrados por Milankovitch em 1920. Todos os parâmetros covariam, e estão portanto estatisticamente correlacionados, mas a evolução da temperatura a esta escala de tempo não depende dos GEE. Pelo contrário, são as taxas de crescimento dos GEE que dependem, mais ou menos directamente, da temperatura. Por consequência, apesar dos resultados notáveis das análises dos cilindros de gelo para o conhecimento dos climas passados, a referência sistemática aos paleoclimas não faz qualquer sentido no debate. E tanto menos sentido quanto as teorias meteorológicas convencionais utilizadas pelos modelos não propõem um esquema de circulação geral válido a esta escala paleoclimática.
As indicações fornecidas pelos modelos climáticos
Os modelos climáticos prevêem sempre um aumento da temperatura. Isto tornou-se num postulado indiscutível. Por outro lado, os modeladores impuseram o conceito de evolução «global» do clima. O globo deverá evoluir no seu conjunto e no mesmo sentido do aquecimento. Todavia, com intensidades diferentes consoante as latitudes.
Os modelos são fundamentados no efeito radiativo (que, em termos gerais, representa o balanço entre o calor recebido do Sol, o absorvido e o reflectido pela Terra e pelas nuvens). Por isso, não podem prever outra coisa que não seja um … aquecimento. Escreve-se a este propósito: «Os modelos, cada vez em maior número e mais sofisticados, indicam sem excepção um acréscimo de temperatura».
A unanimidade da resposta (pudera!) é considerada uma prova da capacidade dos modelos para prever o futuro. Mas para além da sofisticação dos cálculos, o resultado é no fim de contas uma aplicação da regra de três simples. Entre a taxa de crescimento do CO2 actual, a suposta taxa futura e as temperaturas correspondentes. Isto é elementar. A unanimidade dos modelos considerada como só é um «facto notável» porque a resposta só pode ser positiva. Como é que poderiam prever descidas de temperatura se eles são constituídos para prever subidas?
A argumentação é muito frágil. O balanço radiativo, excepto quanto às variações no longo prazo, permite somente compreender…porquê as altas latitudes são mais frias do que os trópicos. E, além disso, permite prever que…o Inverno será mais frio do que o Verão! As variações de temperatura de um dia para o outro, de um ano para o outro, as médias e as anomalias (diferenças entre os valores medidos e as médias) resultantes, dependem – como as variações do tempo – das modificações de intensidade das circulações meridionais das massas de ar.
Esquematicamente, o fluxo de norte traz frio e o do sul traz calor (outros parâmetros como a nebulosidade, a humidade, as precipitações, a velocidade do vento, etc., participam conjuntamente nesta determinação). As trocas meridionais dizem respeito evidentemente a regiões diferentes e as evoluções térmicas não podem ser uniformes. Uma temperatura média tem apenas um valor muito limitado se é que tem algum valor se for estabelecido à escala «global» (poderá então existir um clima global?). Por outro lado, não é correcto dizer como o IPCC que «não é possível determinar» as evoluções regionais. O que acontece é simplesmente o facto de os modelos não serem capazes de representar as diferenças de comportamento regional. Como é que podiam saber, sublinhe-se ainda, se eles não dispõem de um esquema coerente do modo de circulação geral?
Deste modo, quase tudo o que se tem escrito e dito nos media nos últimos anos sobre “Os sinais e as previsões de alterações climáticas” não tem qualquer significado físico ou climático, e é tudo menos científico. Não têm os sinais e muito menos as previsões. É pura especulação, pseudo-científica, construída através de outputs de modelos informáticos que estão longe de representar a realidade, amplificados nos media até à exaustão.
Seria mais correcto, guardadas as devidas proporções, considerar que os actuais fenómenos da dinâmica do tempo e do clima a que assistimos no Mundo são idênticos às premissas da primeira fase de uma glaciação. Dentro de 10 a 20 anos teremos, muito provavelmente, oportunidade de observar mais fenómenos climáticos que indiciam o início de uma glaciação. Mas a escala temporal dos grandes fenómenos climáticos não é comparável com o curto período de vida dos humanos. O drama situa-se na circunstância de se estarem a preparar os países para enfrentarem o calor e aparecer o frio.
Conclusões
Este pequeno ensaio pode aguçar a curiosidade dos leitores mais interessados no aprofundamento dos conhecimentos da climatologia. Consideramos que existe uma climatologia (e meteorologia) antes de Marcel Leroux e outra após Marcel Leroux. Este cientista francês, Prof. jubilado de Climatologia da Universidade de Lyon, levou mais de trinta anos a raciocinar quanto à necessidade de uma nova explicação para os fenómenos reais que não batiam certo com as teorias clássicas.
A sua inspiração nasceu no domínio da meteorologia tropical. Marcel Leroux nasceu na Tunísia, ainda colónia francesa. Estudou na sua cidade natal, Cartago, e começou a trabalhar em África. Ele é um grande especialista do clima deste continente. Publicou em 1983 a obra de referência neste domínio para a Organização Meteorológica Mundial: «Le climat de l’Afrique continental». Foi durante a preparação desta obra e ao estudar a estrutura vertical da troposfera que ele encontrou as insuficiências da teoria clássica do chamado modelo tricelular. Foi durante a procura de explicações para os movimentos brutais da atmosfera tropical que ele descobriu que a dinâmica tropical é comandada originariamente pela dinâmica polar. Foi assim que descobriu a estrutura real da circulação geral da atmosfera a partir do que designou Anticiclones Móveis Polares.
Marcel Leroux, na sua obra (hoje considerada de ruptura com o passado da meteo-climatologia) «La dynamique du temps et du climat», afirma a páginas tantas: “La dynamique observée dans l’Atlantique Nord (mais aussi dans le Pacifique Nord) facilite (toutes proportions gardées) la compréhension – em temps réel – du mécanisme de l’entrée dans une glaciation». Afinal, tanto alarido com o aquecimento global e se calhar vem aí o frio…dentro de 10 a 20 anos! |