A liberdade de imprensa
por Marcos Pinho de Escobar
A liberdade de imprensa não anda nada famosa na América do Sul. Os vários governos de esquerda instalados na maior parte parte do sub-continente vêm fazendo uso de uma ampla gama de instrumentos para pressionar – digamo-lo gentilmente – as vozes discordantes. Não fosse o asunto demasiado grave até seria divertido recordar como estes senhores, então fora do poder, rasgavam indignados as suas imaculadas vestes diante de qualquer acto que pudesse ser caracterizado como censura, pressão ou discriminação.
Na Argentina, recentemente objecto de um severo relatório por parte da Sociedade Inter-Americana de Imprensa, as pressões exercidas sobre os jornalistas por parte do governo Kirchner já atingiram nível grotesco. O presidente que se arroga a qualidade de representante da geração setentista montonera simplesmente não concede entrevistas, agride públicamente os jornalistas que não são do seu agrado e pressiona os media de todas as formas possíveis – desde suspender a milionária publicidade oficial ou negar o acesso às fontes governamentais de informação até mesmo suspender a concessão de um canal de televisão ou frequência de rádio. Desta forma Kirchner consegue pressionar e castigar, ou premiar e privilegiar os profissionais da informação em função das suas opiniões.
E, como dizem os ingleses, to add insult to injury, vários jornalistas de nomeada já receberam ameaças de morte. O mais recente caso refere-se àquele que é o mais influente jornalista argentino da acualidade, Joaquín Morales Solá – um verdadeiro gentleman que sintetiza fina inteligência, honestidade intelectual e talento nato para escrever e entrevistar.
Quarenta e oito horas após ter sido furiosamente atacado pelo presidente argentino num discurso proferido na Casa Rosada, o articulista recebia três ameaças à sua vida.
No Brasil do Sr. Silva a esquerda no poder resolveu ser guardiã da objectividade e da imparcialidade nos media. Ouve-se e não se acredita! Aqueles que durante as últimas quatro décadas vêm implementando a estratégia gramsciana da revolução cultural agora preocupam-se com estas minudências… A hegemonia da esquerda em todos os sectores da sociedade consegue realizar autênticos milagres. Por exemplo, fazer com que o presidente Silva resurja ainda mais santificado dos recentes escândalos de corrupção nos seus círculos mais íntimos e que o assunto incómodo acabe por ficar em águas de bacalhau. O que o governo brasileiro não pode mesmo admitir – em nome da liberdade e da democracia, é claro – é que de vez em quando apareçam para aí uns quidans a questionar temas de fundo, fazer perguntas incómodas ou fugir à cartilha elaborada pela grande família de esquerda, que assenta os carris por onde podem mover-se os cidadãos. Jornalistas são levados aos tribunais, a difusão de informação e notícias é simplesmente proibida, colunas de opinião são retiradas, páginas web são suprimidas, redacções e gráficas recebem visitas da polícia e têm ficheiros e equipamento confiscados. Discriminação, despedimento, ameaças várias, até mesmo de morte, completam o quadro em terras de Vera Cruz. A título de exemplo refere-se aqui o caso do filósofo e articulista Olavo de Carvalho, uma das raríssimas vozes que denunciou com riqueza de detalhes a grande estratégia da esquerda por trás das eleições de Cardoso e “Lula”. Despedido do diário carioca “O Globo” e ameaçado de morte Carvalho foi viver e trabalhar para os Estados Unidos.
Na Venezuela bolivariana do comandante Chávez os métodos empregados para domesticar os media não se limitam às restrições legais cada vez mais draconianas, aos achaques judiciais, ao acossamento de jornais e canais de televisão. No país caribenho o conflito já escalou ao nível da destruição material, da agressão física e do assassínio de vários jornalistas.
O projecto da esquerda sub-continental é muito claro. E agora que se encontra encastelada no poder fará o possível e o impossível para preservar-se. Não é necessário ser profeta para ver os tempos ainda mais difíceis que se aproximam. |