Ano I - Nº 2, Outubro de 2006
Alameda Digital
Dossier Liberdade de Expressão
Crescer em Democracia ou a coragem de dizer não

por Rita Andrade

 


(Il corraggio di dire di no, Leo Valeriano)

 

Tenho 19 anos e um profundo desconforto perante a verdade que o Sistema (exacto, como o do futebol) me foi implantando ao longo de um bem controlado processo de condicionamento. Através do ensino oficial, dos seus programas e agentes.

Mesmo antes da adolescência senti abalos e pressões perante factos que me eram contados em família de uma maneira e na escola de outro. Quis partilhar memórias e fui ao meu diário encontrar algumas estórias para contar.

Recordo-me que o meu primeiro choque político foi quando a minha irmã mais velha me disse a mim e à minha outra irmã mais velha: Sabem que o pai já esteve preso? Ao que a outra respondeu: claro que sei! Foi por causa de umas empresas. A minha irmã mais velha, horrorizada perante a resposta (que em si mesma contém muito dos tempos que vivíamos- escândalo Costa Freire), retorquiu: Sua estúpida! O pai esteve preso quando tinha 20 anos e teve a ver com a ditadura a seguir ao 25 de Abril. Ditadura ? disse a outra; isso era antes. E gerou-se a confusão. Fiquei então a saber (tinha 7 anos) que o meu pai tinha estado preso com alguns amigos (alguns com 16 anos), no Forte de Caxias, por uns bufos do PCP os terem denunciado como perigosos fascistas que se preparavam para fazer uma revista a stencil (ainda hoje não sei o que é). Soube então que o pai sempre havia sido democrata e que sempre nos ensinara a respeitar os outros, independentemente da cor ou credo religioso, tinha sido um preso político a seguir ao 25 de Abril.

Quando no segundo ciclo, na Escola Luís de Camões, a professora de Português nos passou um filme sobre os presos políticos do salazarismo disse-lhe que o meu pai também o tinha sido mas depois do 25 de Abril ao que ela me respondeu que era impossível porque a seguir à revolução não tinha havido presos políticos; devia ter sido PIDE ou informador. A partir daí tomou-me de ponta. Na mesma escola, numa das comemorações do 25 de Abril, o professor de História resolveu por a turma toda a cantar, de pé, o Grândola Vila Morena. Como me recusei, fui castigada com expulsão da sala e trabalhos de casa extra. Um deles consistia em fazer um inquérito (estava na moda) aos meus pais sobre o que eles pensavam sobre o Dia da Liberdade. O pai disse-me que tinha feito muito bem e que iria fazer queixa do professor ao Ministério. Nunca obteve resposta. A minha irmã do meio ao saber da história, disse-nos que a ela, a professora de Português (a mesma) e o professor de Inglês também lhe tinham mandado fazer inquéritos sobre o que os pais pensavam sobre o 25 de Abril.

Mais tarde, já no Filipa, quando a professora de História falava sobre a opressão salazarista quis-me armar em sabichona e perguntei-lhe se não tinha sido Salazar que havia dado o voto às mulheres. Respondeu-me que fora a I República e eu, que sabia lá de casa que assim não fora, insisti. Honestamente, disse-me que iria procurar saber. Na aula seguinte disse-me que efectivamente eu tinha razão mas, se queria passar, não poderia responder assim. Irritada, perguntei-lhe porque é que os republicanos não tinham dado o voto às mulheres, já que se apregoavam tão democratas? Chutou para canto mas eu disse-lhe (tinha ouvido a mãe) que era porque achavam que as mulheres eram controladas pelos padres e portanto não lhes convinha o voto delas. Que grandes democratas acrescentei. A cetora, embaraçada nada disse mas riu-se.

Ainda hoje continuo a parecer uma alien no mundo estudantil em quem me movo. O que sei e me ensinaram em casa nada tem a ver com o que explicam e pensam (depois da grande lavagem ao cérebro porque passaram) os meus colegas e professores.

Como católica sinto-me discriminada pelas ofensas sistemáticas que fazem à Igreja. Nas mais insuspeitas disciplinas, Inglês, Geografia, História lá vai de passar filmes sobre o aborto, propaganda anticlerical, orientações sexuais e a vantagem das relações precoces. De vez em quando, lá me vingo e os calo quando, por exemplo, com a procissão da Virgem Peregrina durante o ICNE. E como me mantenho firme e dialogante, os indiferentes, que são a maioria, até me começam a respeitar.

 
   
A Guerra contra os Estereótipos
Expressão da Liberdade
Liberdade de Expressão
Liberdade, civilização e uma outra forma de terrorismo
Da liberdade de pensamento à liberdade de expressão
A Nova Inquisição
A Minha Prisão
Salazar e os outros
Vigilância Ideológica
Crescer em Democracia ou a coragem de dizer não
Entrevista com Yolanda Morín
A liberdade de Imprensa
Liberdade de expressão... para quê?

O Mal Maior
Totalitarismo: o Antigo e o Novo
O aborto é fixe, o puto que se lixe.

Coreia do Norte - o regime que incomoda os seus aliados

A Mitologia do Aquecimento Global
Progresso Primitivo

A Causa da Coisa
Obras Esquecidas de Autores Famosos

Congressos do Partido Nacionalista
Sangue que não seca… As guerras cristeras

Buenos Aires
Grã-Bretanha

Editorial
Ecos da blogosfera
Capa

 

Nacional Internacional Sociedade Cultura História Dossier Liberdade de Expressão Ficha Técnica Publicidade Contactos Apoie-nos