CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
Liberdade de expressão... para quê?
por Rafael Castela Santos
Vladimir Ilyich Ulyanov, aliás “Lenine”, a certa altura e perante a sugestão apresentada por um companheiro de que se avançasse com medidas para uma maior liberdade na União Soviética, disse “liberdade… para quê?”
A tirania do politicamente correcto impõe-se por decreto. Os revisionistas metem-se na prisão (para que ninguém pense que uso de meios termos a esse respeito devo acrescentar que não sou revisionista). Para alguns pôr em causa certos comportamentos do Estado de Israel equivale a ser etiquetado como antisemita, mesmo que se seja judeu. Para outros, o facto de se defender Israel num blogue pode levar a julgamento e pode mesmo dar prisão, tal como aconteceu recentemente no município espanhol de Oleiros, governado por um inútil pertencente a uma qualquer orgia de nacionalistas galegos. Criticar a má e agressiva política neoconservadora dos Estados Unidos pode trazer-nos problemas com os serviços secretos e com várias instâncias da toda poderosa e omnisciente administração americana.
Mostrar fotografias de crianças assassinadas por abortos maus e criminosos dá cadeia num país tão “livre” (sic) como a Inglaterra. Em muitos lugares dum mundo outrora cristão exibir um Crucifixo é uma ofensa punível, mesmo que essa Cruz esteja pendurada ao pescoço de uma funcionária da British Airways ou que seja muito simplesmente um inofensivo presépio de Natal que se vê da rua, como em alguns locais da Califórnia. Com a figura do Belzebu não existe, evidentemente, qualquer problema.
Na Suécia não só não é permitido a alguém expressar-se como também investigar (pensar) uma qualquer área quer da biologia quer das neurociências que justifique que existem diferenças entre o homem e a mulher (haver, há e ainda bem que as há), e há alguns meses o Reitor de Harvard teve que pedir desculpas por ter dito que homens e mulheres são diferentes. Serei obrigado a pedir desculpa por dizer que a erva é verde?
Dizer algo contra a homosexualidade e já não contra os sodomitas – e muito menos em nome pessoal – ou até mesmo citar a este respeito o Levítico, dá direito a cadeia em mais do que um país. Deveriam destruir o Moisés de Miguel Angelo por glorificar um personagem tão homofobo. Expressarmo-nos contra a imigração descontrolada acarreta-nos um estigma social induzido pelos media que não é de menorizar.
Continue, simpático leitor, porque soma e segue. E estamos a falar de países onde se “garante” a liberdade de expressão. Do que sucede nas ditaduras comunistas da China, de Cuba e do Vietname ou no Putinato militarcomunistóide da Rússia contempor|ânea nem se fala. E se falas, matam-te. Duma forma clara e simples.
Mas devem ser mencionados outros factores, chamemos-lhes formais, menos conhecidos, que incidem na liberdade de expressão.
Por exemplo, a concentração dos me(r)dia em poucos grupos e cada vez num menor número. Os grupos me(r)diáticos mais pequenos são anexados pelos grandes, nos quais há menor diversidade, há um menor espectro, e por isso uma menor liberdade. Por exemplo, os interesses corporativos e comerciais por detrás dos grandes grupos, que distorcem a informação.
Por exemplo, pelo método de desinformação que estudámos num livro de Maria Fraguas de Pablo já impossível de encontrar (Teoría de la desinformación, Alhambra, Madrid, 1985), onde nos punha perante factos quotidianos da escolha das notícias a colocar na primeira página, em formato grande ou em páginas ímpares, em comparação com outras silenciadas ou colocadas em páginas pares. Por exemplo, pelo permanente recurso a colocar coisas fóra de contexto. Por exemplo, na utilização massiva e abusiva de publicidade subliminal, da qual estamos saturadíssimos. Por exemplo, na descontextualização de textos ou de declarações. Por exemplo, no recurso permanente ao sentimentalismo (veja-se a utilização de música ou planos especiais em televisão) e na emoção como ferramenta de persuasão, a substituir uma exposição serena dos factos e das evidências. Por exemplo, no uso de uma qualquer manipulação retórica para desmontar um discurso quando não a utilização da mentira abjecta e da calúnia. Por exemplo, pelo uso de falsas analogias. Por exemplo, pela sobrecarga erótica que nos impede de pensar de forma correcta. Por exemplo, pelo uso falacioso de fontes ou simplesmente uma habilidade, pela qual uma informação errada mas mil vezes repetida acaba por se converter numa verdade.
Há tantos destes exemplos que a lista torna-se infindável. A ideia central é que existem evidências suficientes a provar que não há, nem no fundo nem na forma, uma verdadeira e objectiva liberdade de expresão. E mais ainda, que os mass-media muitas vezes têm interesse propagandístico e de persuasão num determinado sentido para o qual condicionam os seus receptores.
Já Marshall MacLuhan olhando o que sobressaía da maquinação audiovisual e da diminuição da leitura falava na retribalização da sociedade. Uma sociedade que por força de retribalizar-se acabou por perder a capacidade de leitura e pouco apreciar o Logos. Uma sociedade que ao atomizar-se e ao perder os normais e orgânicos laços comunitários acabou por desunir-se e perder toda a capacidade de autodefesa. Uma sociedade materialista e hedonista, anestesiada pelos supermercados e pela vulgaridade. Uma sociedade em que os indivíduos têm a preocupação de comprar compulsivamente, de encher as suas casas de objectos supérfluos, de ver telenovelas mentirosas, revistas cor de rosa, Big Brother e reality-shows da televisão e fugir sempre, seja através do álcool, da droga, do futebol, da fuga permanente seja do que for. Uma sociedade sem identidade espiritual e sem significado. Uma sociedade sem destino, nem pouco nem muito.
Semelhante desígnio social não precisa de liberdade nem de objectividade. Só quer continuar condicionada, continuar narcotizada. Uma tal sociedade unicamente necessita de um tirano sem rosto que a domine e a conduza.
Numa tal sociedade, liberdade de expressão… para quê? |